AtualidadesCinemaCulturaMúsica

Não olhe pra trás com raiva

Eu estou no melhor documentário de rock já feito. Não, não virei músico. Nem fui convidado para dar algum depoimento. Meu nome não aparece nos créditos e, muito provavelmente, nem minha mãe conseguiria me identificar nas imagens. Mas eu estou lá.


E a régua é alta: The Last Waltz, do Martin Scorsese, sobre o The Band, Stop Making Sense, dos Talking Heads. The Song Remains the Same, do Led Zeppelin. Rattle and Hum, do U2. Gimme Shelter, dos Rolling Stones, Get Back, dos Beatles. Sem falar em Woodstock, que criou a ideia de transformar um festival de rock num documento histórico.

Todos excelentes, só que nenhum deles me provocou a mesma sensação que Oasis: Don’t Look Back in Anger, recém-lançado no Disney+. Não apenas porque eu estou nele. Mas porque nenhum contou uma história tão improvável.



A banda que acabou. Mas não terminou.

Precisamos voltar no tempo até meados dos anos 1990. A Inglaterra que saía da era Thatcher trocava a seriedade contida por uma autoconfiança quase insolente. O país vivia um renascimento cultural batizado de Cool Britannia. No meio da efervescência musical do Britpop, entre bandas como Blur, Verve e Stone Roses, dois irmãos de Manchester resolveram conquistar o mundo, com uma sonoridade que emulava os Beatles.

Noel escrevia canções que pareciam prontas para serem cantadas por multidões. Liam entregava uma voz inconfundível e uma postura desafiadora num jeito marrento de cantar que ninguém conseguiria reproduzir. Juntos, eram o Oasis.

Os irmãos Gallagher também tinham outro talento: brigar. Brigavam em entrevistas, nos bastidores, durante turnês. A relação era tão explosiva que parecia questão de tempo até alguém finalmente puxar o pino da granada.

Em 2009, aconteceu. Depois de uma discussão antes de um show em Paris, Noel anunciou que estava deixando a banda. O Oasis acabou.

E, durante quinze anos, a perspectiva de uma reunião era tão remota quanto a de John Lennon ressuscitar para fazer mais um disco com os Beatles. Com uma diferença importante. Lennon havia morrido. Noel e Liam estavam vivíssimos. E esse detalhezinho mudou tudo.



Quando algo é apenas improvável, uma parte de nós continua acreditando.



A separação não significou o fim da criação de novas músicas dos Gallagher. Noel formou o High Flying Birds e continuou lançando bons discos enquanto o Liam também seguiu em carreira solo. Os dois continuaram talentosos e eu até comprei alguns dos álbuns que eles lançaram. Mas, nenhum dos dois era o Oasis. Noel escrevia novas canções bonitas. Liam cantava suas músicas com aquela mesma arrogância vocal inconfundível. Só que o que fazia o Oasis ser o Oasis era a combinação dos dois.

Você já viu este filme antes, em outros lugares. Duas pessoas podem ser interessantes separadamente. Talentosas, bem-sucedidas, invejáveis. Mas aquele algo a mais que só acontece quando estão juntas não aparece mais.

Quando uma relação termina, qualquer relação, não é necessariamente uma das pessoas que desaparece. É o que existia entre elas. Por isso algumas separações são tão difíceis de aceitar. Não sentimos apenas a falta de alguém. Sentimos a falta de quem éramos juntos. E, enquanto existir alguma possibilidade de reencontro, por mais absurda que pareça, uma parte de nós continua esperando.

Não porque existe a certeza de que alguém voltará. Mas, justamente porque não existe a certeza de que não voltará.



A ressurreição de 2024



Em agosto de 2024, o impossível ou, melhor dizendo, o improvável, aconteceu: O Oasis anunciou sua volta.

Depois de anos de entrevistas atravessadas, provocações e declarações de que jamais dividiriam um palco novamente, Noel e Liam estavam dispostos a tocar juntos.

A notícia teve impacto mundial, com ingressos esgotados em minutos, filas virtuais intermináveis e uma turnê que atravessaria continentes, mobilizando milhões de pessoas. Havia algo diferente nessa euforia. Não era a expectativa por músicas inéditas. Aliás, ninguém estava interessado em músicas novas. O repertório afetivo já existia: Wonderwall, Don’t Look Back in Anger, Live Forever, Champagne Supernova, Supersonic, Morning Glory, Rock ‘N’ Roll Star …

E aqui entra uma característica particular dos fãs do Oasis. Eles se parecem menos com consumidores de música e mais com torcedores de futebol. Você até pode gostar de uma banda e deixar de acompanhá-la quando ela passa a lançar discos ruins. Mas você não deixa de torcer pelo seu time por ele fazer temporadas desastrosas.



Desempenho é uma coisa. Pertencimento é outra. Os fãs do Oasis não perderam suas músicas favoritas em 2009. Perderam a possibilidade de criar novas lembranças com elas.

Imagine se o Manchester City ou o Liverpool simplesmente de repente deixassem de existir. Os jogadores continuariam jogando em outros clubes. Os títulos permaneceriam na história. Os vídeos dos grandes jogos continuariam disponíveis.

Mas não haveria o próximo sábado. Não haveria a expectativa do próximo jogo, do próximo gol, do próximo título. É isso que desaparece quando uma paixão coletiva perde seu futuro. E foi esse futuro que o anúncio do Oasis de 2024 devolveu aos seus fãs.



A volta de uma banda que não tinha ido embora



Eu estava no show do Oasis no Morumbis, em São Paulo, em 2025. E posso afirmar que foi um dos melhores shows de rock que assisti na vida. E olha que já vi muita coisa. O Oasis esteve à altura dos melhores. Esqueça os anos de separação. Esqueça os quinze anos de espera. Esqueça a emoção de ver os irmãos Gallagher dividindo novamente um palco.

Independente do contexto, o show foi espetacular!

Músicas de trinta anos atrás funcionavam como se tivessem sido lançadas na semana anterior, enquanto Liam cantava com a atitude de sempre e Noel continuava sendo o maestro musical da banda. A platéia não tinha aquela sensação de estar visitando um museu do rock, por mais maravilhoso que esse museu pudesse ser. O Oasis não soava como uma banda veterana fazendo turnê nostálgica de reencontro. Era uma banda no auge, como se estivessem em 1995, quando acreditavam ser a maior banda do mundo. E, durante aquelas duas horas do show, foram.

E havia algo inda mais impressionante. A plateia. Eu não me lembro de ter visto tantas pessoas cantando tantas músicas, durante tanto tempo, com tanta intensidade. Não apenas os refrões. O estádio inteiro cantava os versos, estrofes, pontes, introduções.

Não apenas os fãs da minha geração. Milhares de jovens que nem eram nascidos quando Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory? foram lançados, que não viveram o Britpop, não acompanharam a rivalidade com o Blur, não viram o Oasis dominar a Inglaterra dos anos 90’s. E cantavam cada música como se também fizessem parte de sua própria história.

Talvez porque fizessem mesmo. Você não precisa ter visto Pelé jogar para ser santista. Nem ter estado em Knebworth em 1996 para ser fã do Oasis.



Quando a câmera se vira



Don’t Look Back in Anger se diferencia dos outros grandes documentários musicais. O filme acompanha a turnê de reunião de 2025, mostra os ensaios, bastidores, apresentações e a relação entre os irmãos Gallagher. Tudo interessante e tradicional. Só que os diretores fizeram uma escolha que mudou a experiência ao assistir. Em vez de apontar suas câmeras apenas para o palco, frequentemente as viravam para a plateia.



Parece um detalhe. Não é. Estamos acostumados a assistir a documentários musicais para ver os artistas. O guitarrista executando um solo. O vocalista interpretando uma canção. O baterista destruindo seu instrumento.

O público só aparece ocasionalmente, pulando, gritando ou aplaudindo, como uma espécie de cenário humano. Em Don’t Look Back in Anger, muitas vezes acontece o contrário. A câmera mostra aquilo que os músicos estão vendo. Dezenas de milhares de pessoas cantando juntas. Rostos emocionados. Gente chorando. Amigos se abraçando. Pais e filhos dividindo uma experiência que, para alguns, parecia impossível de acontecer.

Há também depoimentos de fãs contando suas histórias pessoais e a relação que construíram com a banda. Alguns desses momentos me pareceram desnecessariamente alongados. Há uma ou outra história que poderia ter sido contada em menos tempo.

Aos poucos, eu saco o que os diretores estão fazendo. Eles não estão apenas documentando uma turnê. Estão mostrando o que aquela turnê significou para as pessoas. E isso muda o protagonista da história. Oasis é a banda que está no palco. Mas o espetáculo também acontece diante deles.

Um show de rock não é apenas o que os músicos fazem. É também o que acontece entre eles e seu público. É uma relação. E, como toda relação, depende de dois lados.



Minha estréia no cinema



Foi assistindo a essas imagens da plateia que me dei conta: Eu também estou naquele filme.

Não tenho uma fala. Não apareço em destaque. Sou apenas um daqueles pontinhos humanos perdidos nas dezenas de milhares de pessoas no Morumbis naquela noite. Mas estou lá.

E não apenas porque comprei o ingresso. Estou lá porque participei da experiência que o documentário registra. Durante o show, fui uma daquelas pessoas cantando, pulando e olhando para o palco com a felicidade de quem presencia algo que acreditava nunca mais acontecer.

O filme registra o Oasis. Registra também o que nós, cada um dos fãs, sentimos ao assisti-los juntos novamente. E, nesse contexto, minha participação não é tão insignificante assim. Nenhum de nós, individualmente, fez aquele espetáculo acontecer. Mas, coletivamente, fizemos parte dele.

É como um estádio de futebol. O torcedor não marca o gol. Mas tente imaginar uma final de Copa do Mundo disputada diante de arquibancadas vazias. O gol seria o mesmo. A história, não.



Don’t Look Back in Anger



Durante quinze anos, milhões esperaram que dois irmãos resolvessem uma briga. Pense na ironia. Noel e Liam haviam criado algo extraordinário juntos. Depois, durante anos suas desavenças impediram a continuidade do que construiram. Não foram apenas eles que perderam. Os fãs também.

É claro que não sabemos o que aconteceu entre os irmãos para que aceitassem voltar a trabalhar juntos. Não sabemos se houve um perdão completo, uma reconciliação profunda ou simplesmente a decisão de deixar certas mágoas de lado.

Talvez essa distinção nem seja tão importante para compreender o que aconteceu. Porque, às vezes, o primeiro passo não é conseguir perdoar tudo. É conseguir superar o próprio ressentimento.

Deixar de exigir que o passado continue decidindo o futuro. Don’t Look Back in Anger. Não olhe para trás com raiva.

Uma canção lançada em 1995 acabou sendo, trinta anos depois, uma espécie de comentário sobre a própria história de seus criadores. Dois irmãos que passaram quinze anos olhando um para o outro com ressentimento finalmente conseguiram voltar a dividir um palco.

E, no palco, descobriram que, diante deles, havia milhões de pessoas esperando. Que nunca participaram da briga. Que não tinham qualquer responsabilidade por ela. Que sofreram suas consequências. E que agora celebravam a possibilidade de retomar uma história que julgavam terminada.

O mais bonito é justamente isso. Uma reconciliação entre duas pessoas pode devolver alguma coisa não apenas a elas, mas também a todos aqueles que, de alguma maneira, faziam parte daquela relação.

No caso do Oasis, foram milhões de fãs. Em outras histórias, podem ser filhos, amigos, famílias inteiras. Ou apenas um casal que, apesar de tudo, ainda reconhece alguma coisa que vale a pena recuperar.



O futuro de uma lembrança



Não sabemos se Noel e Liam Gallagher voltarão a gravar juntos e nem se haverá outra turnê. Ou se a paz resistirá ao temperamento explosivo de ambos. Isso já não importa porque o Oasis voltou e a turnê foi extraordinária. Don’t Look Back in Anger conseguiu transformar a experiência num documentário que, para mim, já está entre os melhores feitos sobre rock.

Ele não apenas registra uma banda histórica tocando músicas extraordinárias como também mostra que aquelas músicas pertencem emocionalmente a milhões de pessoas que conservaram a esperança mesmo quando já não havia motivos racionais para isso.

É a diferença entre algo que acabou e algo que jamais poderá voltar. E, enquanto essa diferença existir, uma parte de nós continuará olhando para aquela porta. Não porque tenha certeza de que alguém voltará. Mas porque justamente não tem certeza de que não voltará.

Às vezes, ninguém volta e a porta permanece fechada para sempre. De vez em quando, alguém consegue deixar o ressentimento para trás. E a porta se abre. E o que parecia pertencer apenas ao passado ganha novamente um futuro.

Perdão não devolve o tempo perdido. Mas pode devolver o tempo que ainda resta.

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Send this to a friend