Economia

Gráficos que ilustram o nosso drama

Este post contém 6 gráficos que ilustram o tamanho do nosso desastre fiscal. O primeiro é a evolução da dívida bruta. Observe como a dívida sai de um patamar abaixo de 55% do PIB no início de 2014 para acima de 75% do PIB no final de 2017. O governo Temer (e depois o governo Bolsonaro) conseguiram estabilizar a dívida nesse patamar. A dívida vai para cima de 85% do PIB por conta da pandemia, mas volta para o patamar anterior no final do governo Bolsonaro. E, agora, temos uma dívida crescente novamente.

O gráfico 2 mostra a dívida líquida, que é a dívida bruta subtraídos os haveres do governo. No caso, as reservas internacionais e, até 2016, os empréstimos do governo ao BNDES, que chegaram a representar 10% do PIB. Observe como a dívida líquida está, desde 2025, navegando por mares nunca d’antes navegados, atingindo a máxima histórica agora em junho/26. E vai continuar subindo. Não falei sobre a dívida líquida no post anterior porque já tinha muita coisa, mas esta é uma medida bem importante também.

O gráfico 3 mostra a evolução do déficit nominal, que vinha entre 2% e 4% do PIB até o último ano do Dilma 1, e explodiu para 10% do PIB no final do governo Dilma. Temer (e depois Bolsonaro) conseguiram fazer o déficit nominal recuar até 4% do PIB novamente, com um soluço causado pela pandemia. Agora, temos o déficit nominal atingindo 10% do PIB novamente. É um limite psicológico importante para o mercado.

O gráfico 4 mostra a evolução do déficit primário (números negativos indicam superávit). Até o último ano do governo Dilma, o país conseguia produzir superávits primários, mas perdemos essa capacidade desde então, com exceção de um breve período no último ano do governo Bolsonaro. Mas daí foi um gol de mão, pois houve represamento de pagamento de precatórios. O déficit primário do governo Lula subiu, em parte, por causa do pagamento desses precatórios atrasados e depois recuou, mas neste ano voltou a subir novamente. A questão aqui é que, só para estabilizar a dívida pública, precisaríamos de um superávit primário de 2,5% do PIB. Estamos produzindo déficit de 0,5%. Faça a conta.

O gráfico 5 mostra a conta dos juros. Estamos próximos do pico do início do primeiro governo Lula e do final do governo Dilma. Como falei no post anterior, os juros são o resultado da política econômica do governo, não tem como o governo atuar diretamente sobre esta variável.

Por fim, o gráfico 6 mostra em um único gráfico os déficits nominal e primário e os juros, ano a ano. O déficit nominal é a soma do défict primário com os juros. Note como o déficit nominal pode ser baixo mesmo com os juros altos, se o país for capaz de produzir superávits primários, como foi o caso até 2014. E os juros tendem a ser menores quando se faz superávit primário, um win-win para a economia.

A tarefa de produzir superávits primários não é nada fácil. Todos os gastos do governo têm defensores aguerridos no Congresso e na sociedade. É preciso um governo com altíssima convicção do que precisa ser feito e com uma capacidade de execução incomum para reverter esse quadro. A esperança de que Lula faça essa lição de casa é uma ilusão, porque ele não tem nem um e nem outro desses requisitos. Seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, é uma incógnita. Talvez ele tenha alguma convicção, mas tendo a duvidar que seja suficiente para vencer as resistências. E sua capacidade de execução ainda não foi colocada à prova em um cargo no Executivo. Portanto, não vejo como será feito um ajuste fiscal do tamanho que precisamos no próximo governo. Lamento encerrar o post em um tom pessimista.

Marcelo Guterman

Engenheiro que virou suco no mercado financeiro, tem mestrado em Economia e foi professor do MBA de finanças do IBMEC. Suas áreas de interesse são economia, história e, claro, política, onde tudo se decide. Foi convidado a participar deste espaço por compartilhar suas mal traçadas linhas no Facebook, o que, sabe-se lá por qual misteriosa razão, chamou a atenção do organizador do blog.

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