
Estou vendo a hora em que iremos colocar todas as nossas fotos antigas e atuais, exames médicos, filmes, textos, gravações de voz e a partir de alguma sessão que capture nossos movimentos, expressões e trejeitos, uma IA criará uma espécie de holograma nosso, com a mesma voz, ideias, reações e eventualmente até manifestações de sentimentos, deixando uma réplica para a posteridade, capaz de criar vínculos duradouros com nossos bisnetos, tataranetos e toda a linhagem que nos suceda.
A foto abaixo, à esquerda, foi recuperada pelo ChatGPT a partir de uma tirada provavelmente em 1975 ou começo de 1976, quando eu devia ter uns três anos. A original obviamente tem pouquíssima nitidez e eu não sei até que ponto a versão recuperada consegue refletir quem eu realmente era em meados da década de 70. Para falar a verdade, não consigo me reconhecer nesse guri, uma vez que nunca vi uma foto minha desse tempo com tanta nitidez. Ao questionar minha mãe, certamente a melhor opinião disponível sobre o assunto, ela me disse que está parecido e aí a comparação já não é exatamente com uma fotografia, mas com a imagem que ela guarda na memória 50 anos depois.
Mas a conversa aqui é justamente juntar o segundo parágrafo com o primeiro. Essa foto recuperada é apenas um pequeno fragmento de informação sobre quem eu fui. Meus textos registram o que penso, gravações guardam minha voz, vídeos capturam expressões, gestos e maneiras de reagir, exames médicos contam uma parte da minha história e à medida que nossas vidas se tornam cada vez mais digitais, deixamos uma quantidade gigantesca de informações sobre nossos gostos, opiniões, histórias, escolhas e até mudanças de pensamento ao longo do tempo.
Hoje esses fragmentos estão espalhados e servem apenas como registros. Reunidos e processados por uma inteligência artificial suficientemente sofisticada, podem se transformar em uma réplica digital nossa, provavelmente imperfeita, mas cada vez mais parecida com a pessoa que lhe deu origem.
Imagino um bisneto meu que eventualmente nem chegará a me conhecer, podendo um dia conversar comigo, perguntar sobre minha vida, ouvir histórias contadas com a minha própria voz e receber respostas construídas não a partir de informações genéricas sobre quem eu fui, mas a partir de milhares ou milhões de registros deixados por mim ao longo da vida. Quanto mais informação houver, mais convincente será o ‘avatar’.
Obviamente não serei eu, que terei partido dessa para melhor, mas alguma representação de quem fui continuará por aqui, no plano físico, interagindo com pessoas que talvez nem tenham nascido enquanto eu vivi. Isso já seria interessante, mas que tal o poder de aliviar a saudade? Se pudéssemos, com base no que escrevi acima, interagir com os ‘avatares’ dos entes queridos que se foram?
Se uma fotografia ruim de 1975 já pode ser transformada hoje em uma imagem capaz de fazer minha mãe comparar o resultado com a lembrança que ela guarda do filho de três anos, minha extrapolação me parece razoável.
Seria ficção científica há 10 anos, hoje nem acho que seja mais. Uma realidade em poucas décadas? Será que terei tempo de deixar meu avatar para meus bisnetos? Eles não estariam interagindo com uma cópia da minha consciência, mas sim com um modelo preditivo de minha personalidade, carregando a minha história. E quem sabe, daqui a uns 60 anos, ao perguntarem para o ‘bisa holográfico’ se ele achava que aquela interação seria possível, não recebam como resposta este texto, escrito em 2026!





