Esporte

O dia em que mostrei ao demônio capitalista os riscos de investir no futebol brasileiro

Já contei aqui mesmo no Boteco a história de um sonho (pesadelo?) que tive envolvendo o demônio capitalista (ver https://papodeboteco.net/opiniao-princ/o-dia-em-que-o-demonio-capitalista-desconstruiu-uma-linda-e-virtuosa-historia ). E não é que ele resolveu aparecer de novo? A imagem é a de sempre; nós dois tomando vinho em uma taberna com aspecto muito antigo. Só que desta vez ele tinha um sotaque estranho, e o assunto era futebol. Ele parecia entusiasmado com a ideia da transformação dos clubes brasileiros em empresas. E disparou a falar;

– Agora si, despues de El Gordo Fenomenal, muchos van a investir mucha plata em el futból de Brasil… Afinal, es el mejor de todos… Já puedo ver los estádios cheios, grandes juegos…

Olhei com certo ar de descrédito e rebati;

– Já ouviu falar em cultura local?

– Si, por supuesto! E sé que los brasilenos tienen passion por futból…

– Si… pero no mucho…. Respondi, debochando do sotaque dele.

Ele me olhou desconfiado. E quase pediu para que eu esclarecesse melhor meu raciocínio.

Os quatro cavaleiros do apocalipse brasileiro – primeiro, a aversão à mudança

Tomei um longo gole de vinho e comecei;

– Vou ser didático e dividir a coisa em quatro pontos principais.

Ele começou a prestar atenção.

– Talvez você não saiba, mas esta semana alguns dos principais times do país começaram as suas temporadas. O Flamengo jogou contra a Portuguesa, o Galo contra o Vila Nova, o Palmeiras contra o Novohorizontino…

Ele me interrompeu;

– Si, si! Jueguitos de pré-temporada, por supuesto…

– Não. Já ouviu falar de campeonatos regionais?

– ???

– São campeonatos em que os clubes grandes são obrigados a enfrentar médios, pequenos e, muitas vezes, nanicos. Jogos oficiais, que ocupam os três primeiros meses do calendário.

– Pero esto es una barbaridad! Porque lo hacen?

– Há várias justificativas. É bonito, charmoso, tradicional, cria estruturas absolutamente inúteis que dão visibilidade política a cartolas locais e, principalmente, dá chance aos clubes de pelo menos comemorarem alguma taça.

Ele sentiu o golpe. Murmurou alguma coisa sobre custo-benefício, retorno de capital… sabe nada, inocente!

Segundo cavaleiro; a violência sem castigo

Continuei firme;

– Os regionais servem também para acirrar as rivalidades locais. Já ouviu falar de torcida única?

– ???

– Foi adotado em vários lugares do Brasil. Chegou-se à conclusão que o nosso nível de civilidade não é suficiente para que duas torcidas rivais frequentem o mesmo estádio num mesmo jogo. E mesmo assim dá problema; na Copa de Juniores, semana passada, um torcedor da torcida única invadiu o campo com uma faca pra ameaçar os jogadores do time adversário.

Desta vez ele quase caiu da cadeira. Lembrou o caso da Inglaterra, onde os hooligans foram excluídos definitivamente dos estádios graças a uma ação conjunta entre clubes, federação, polícia, justiça…

Infelizmente, tive que cortar as asinhas dele. De novo.

– No Brasil a impunidade é um direito sagrado de qualquer cidadão, desde que tenha dinheiro suficiente. Vale para invasores de estádio, ladrões, corruptos, enfim, não é de bom tom um juiz querer condenar alguém no Brasil. A nossa Suprema Corte já deixou isto claro. A única exceção vai por conta de crimes graves contra a espécie humana como, por exemplo, chamar o goleiro de “bicha!” na hora do tiro de meta. Neste caso há uma verdadeira explosão social e midiática. Agora, invadir o campo com uma faca… besteira. Depois de uns dez julgamentos, o cara vai ter que pagar meia dúzia de cestas básicas. Na reincidência, vá lá, vamos ser durões; vinte cestas básicas. E talvez seja proibido de frequentar estádios por, digamos, um mês. Isto se não descobrirem uma falha técnica no processo e voltar tudo à primeira instância com o crime já prescrito. Enfim… a única coisa que você pode apostar é que este assunto não se resolve nas próximas cinco gerações.

Terceiro cavaleiro; fraudar o jogo é um procedimento normal e, muitas vezes, motivo de orgulho

Tomei um gole de vinho, para recuperar o fôlego, e continuei.

– Você falou em ação coordenada entre os clubes… aqui vai ser difícil. No Brasil o torcedor não está preocupado com as vitórias do seu clube; o que o move é o ódio pelo rival. Você acha que um time entregar propositalmente um jogo é bom para os negócios?

– Nunca! Es um crime, um golpe contra el consumidor! E tira la credibilidad del juego, que es lo mas importante…

– Pois é. Mas no Brasil os torcedores, dependendo da situação do campeonato, não só entendem como normal, como exigem que seus times entreguem alguns jogos. Posso citar vários exemplos…

Desta vez ele ficou calado, me olhando como se eu é que fosse a criatura das trevas. Um torcedor pedindo para os atletas de seu time perderem um jogo de propósito?

– E o pior é que o pessoal se orgulha disto. Nelson Rodrigues, um grande conhecedor da alma brasileira, dizia que o brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte. Bem a propósito, na semana passada um conhecido ex-jogador brasileiro confessou que jogou mal propositalmente para ajudar seu clube de coração em um jogo. E parece que seu cartaz só aumentou. Um dia eu te explico algo sobre Macunaíma, o herói sem nenhum caráter…

O cara estava nocauteado em pé. E dei logo o golpe de misericórdia.

Quarto Cavaleiro; a credibilidade das teorias conspiratórias

– Depois de tudo isto, ainda tem o problema das teorias conspiratórias. O torcedor brasileiro médio acredita que os jogos e campeonatos não são decididos pelos jogadores; quem manda, de verdade, é uma sórdida maçonaria chamada “apito amigo”. Nenhum juiz erra no Brasil; eles roubam. Da mesma forma que nenhum técnico escala os melhores jogadores, ele só escala quem “tem empresário”. No caso do técnico da seleção, então… Tudo isto também é fruto da crença genérica que todo mundo é canalha, até prova em contrário (ou mesmo depois disto, afinal a prova pode ter sido forjada).

Esperei que ele terminasse de tomar um último gole de vinho e mandei o recado final;

 – Enfim, este é o cenário da sociedade e do futebol brasileiro. Aversão a mudanças, impunidade, violência e falta de ética. Se você conseguir mudar isto, tenho certeza de que o seu negócio vai prosperar. Pero…

Totalmente abalado, ele pediu licença para ir ao banheiro. Senti que ia fugir, e ainda gritei para ele;

– Espera um pouco, que eu ainda não falei das leis trabalhistas, que permitem que um jogador processe o clube porque foi obrigado a jogar aos domingos…

Só que ele já tinha sumido, deixando um cheiro de enxofre e a conta para mim, é claro. Impressionante como demônios são rápidos para fazer maldades…

Enfim, fui sincero e coloquei os fatos e dados para ele sem qualquer distorção. Confesso que torço prá tudo dar certo, mas não levo fé que a nossa sociedade tenha maturidade suficiente para tratar o futebol com o profissionalismo requerido pelos novos tempos. E se der errado, por favor não ponham a culpa nestes “capitalistas sem coração”…

Vida que segue, diria meu conterrâneo (e gremista!) João Saldanha.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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3 Comentários

  1. Muito bom o texto. Concordo plenamente. Mas assim como vc, vou torcer para dar certo. Até porque, cruzeirense apaixonado que sou, não tenho muita alternativa neste momento.

  2. Opa, tres comentarios (incluindo o meu) vindo dos confina da segundona!!!! Opa, não é mais segundona, é CHAMPIONS B!!!!

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