Esporte

MMXXVI

FADE IN.

TELA PRETA.


Durante muito tempo, bastou-me esperar. Os homens faziam esse trabalho por mim.

Um reino nascia enquanto outro desaparecia. Um povo celebrava enquanto outro ainda chorava a guerra anterior. Nunca conseguiam olhar para o mesmo lugar. Nunca conseguiam viver a mesma história. Cada um habitava o seu próprio mundo.


Hoje ficou ainda mais fácil.

Inventaram máquinas capazes de lhes entregar exatamente aquilo que desejam. Cada um assiste a uma série diferente. Escuta uma música diferente. Segue pessoas diferentes. Recebe notícias diferentes.

Até a indignação agora é personalizada.

Nunca estiveram tão próximos. Nunca foram tão separados.

Sempre acreditei que, enfim, havia vencido.

Então eles inventaram uma Copa do Mundo.


Ainda me incomoda.

Durante algumas semanas, esquecem todas as fronteiras invisíveis que construíram entre si. Bilhões de pessoas passam a olhar para o mesmo retângulo verde. Prendem a respiração pelo mesmo chute. Gritam pelo mesmo gol. Ou pelo gol exatamente oposto.

Curiosamente, isso também os une. Chamam isso de futebol.

Sempre achei curioso. Jamais entenderam que nunca foi.


CORTE.


Dois dias. Quarenta e oito horas. É tudo o que separa as quartas de final das semifinais.

Mesmo assim, olhe para eles.

Abrem compulsivamente o aplicativo de resultados. Conferem horários de jogos que sabem não existir. Ligam a televisão por reflexo. Percorrem canais esportivos na esperança de encontrar alguma coisa. Qualquer coisa.

É quase divertido observá-los.

Passaram um mês inteiro reclamando que havia futebol todos os dias. Agora descobrem que o silêncio pesa mais.

Eles chamam isso de abstinência. Eu chamo de memória.


Durante um mês, o planeta voltou a respirar junto. Parece pouco. Não é.

A última vez que conseguiram fazer isso foi há quatro anos. Daqui a quatro anos tentarão novamente. Entre uma Copa e outra, voltarão às suas pequenas ilhas.

Aos seus algoritmos. Às suas bolhas. À confortável ilusão de que vivem histórias únicas.

Não vivem. Vivem histórias particulares. Existe uma enorme diferença.


Os americanos entenderam isso antes de quase todo mundo.

Nunca compreenderam completamente o futebol. Mas compreenderam algo muito mais importante. Espetáculos não precisam apenas acontecer. Precisam ser lembrados.

Eles não organizaram um torneio. Construíram um filme.

Os estádios gigantescos. As entradas das seleções. As câmeras. As luzes. Os telões. A música.

Tudo parecia maior do que a realidade. O curioso é que, desta vez, nem Hollywood conseguiria escrever um roteiro melhor.


CORTE.


Vejo um pequeno país do Caribe marcar um gol contra a Alemanha. Perde por sete a um. Mesmo assim comemora como se tivesse conquistado o planeta.

Nunca deixarei de admirar essa estranha capacidade humana de medir vitórias por critérios que não aparecem no placar.


Vejo Cabo Verde recusar o papel de figurante. Era para ser apenas mais um nome na tabela. Preferiu transformar-se em personagem. Seu goleiro chamado Vózinha convence atacantes com nomes muito mais famosos que milagres ainda são permitidos.


Vejo uma arquibancada inteira empunhar remos invisíveis. A cada inimigo derrotado, mais uma remada. Não é uma comemoração. É um ritual. Os antigos vikings compreenderiam imediatamente.


Vejo ingleses cantando Wonderwall ao lado dos próprios jogadores. Durante alguns minutos, já não existe arquibancada. Nem gramado. Nem torcida. Nem elenco. Existe apenas um povo inteiro tentando convencer a si mesmo de que algumas canções talvez consigam durar mais do que as guerras.


É sempre assim. Eles acreditam que assistem ao espetáculo. Nunca percebem que acabam se tornando parte dele.


FADE OUT.

CORTE.

Os protagonistas costumam acreditar que são eles quem escolhem as histórias. É uma ingenuidade bonita. As histórias escolhem seus protagonistas muito antes.

Esta Copa também escolheu. Quatro permaneceram. Cada um encontrou uma maneira diferente de desafiar minhas leis.

Comecemos pelo mais antigo.


A Inglaterra jamais compreendeu o significado da palavra desistir. Durante séculos considerei isso um defeito. Hoje começo a suspeitar de que talvez seja uma qualidade.

Tentei detê-los no México. Escaparam.

Empurrei-os outra vez contra a Noruega. Escaparam novamente.

Sempre encontram uma maneira de continuar.

Não eram os mais brilhantes. Nem os mais elegantes. Nem sequer os mais talentosos. Mas possuíam uma característica profundamente irritante. Recusavam-se a aceitar o desfecho que eu havia preparado.

Foi assim muito antes do futebol. Foi assim quando suas cidades queimavam noite após noite e, na manhã seguinte, alguém simplesmente abria uma padaria.

Foi assim quando atravessaram o Canal da Mancha convencidos de que ainda existia um amanhã. É assim agora.

Ao final de cada batalha caminham lentamente até a arquibancada. Do outro lado, milhares de vozes começam a cantar. Não um hino. Uma canção. Durante alguns minutos deixam de existir jogadores e torcedores. Voltam a ser apenas uma ilha.

Confesso. Há muito tempo eu não via um povo transformar sobrevivência em beleza.


CORTE.

Os franceses são diferentes. Jamais entram em campo para derrotar alguém.

Entram para convencer o mundo de que existe uma única maneira correta de jogar futebol. A deles.

Os adversários pouco importam. Entram. Saem. Trocam de uniforme. Trocam de bandeira.

A França permanece.

Sempre admirei civilizações que acreditam sinceramente terem nascido para ensinar grandeza. Roma pensava assim. Eles também. Versalhes. O Louvre. O Iluminismo. Napoleão. Agora Mbappé.

Mudam os séculos. A convicção continua intacta.

Eles não desejam conquistar territórios. Desejam conquistar a própria ideia de perfeição.

Não perguntam quem venceu. Perguntam como deveria ser a vitória.

É uma ambição perigosamente elegante.


CORTE.

Minha favorita era outra. Jamais escondi isso.

Ela não precisava de heróis. Heróis envelhecem.

Ela preferia um sistema. Uma criatura de muitas cabeças. Você derrubava uma. Outra ocupava exatamente o mesmo lugar.

Não existiam protagonistas. Existia uma engrenagem.

Gostava da maneira como transformava um esporte imprevisível numa equação.

Enquanto mantinha a bola, o adversário deixava de existir. Chamavam aquilo de posse. Eu chamava de ordem.

Finalmente alguém havia compreendido. Controlar não é atacar. Controlar é impedir que o acaso aconteça.

Durante algum tempo imaginei que seriam eles. Seria uma vitória apropriada.

A perfeição sempre foi uma excelente aliada minha.


CORTE.

Depois havia os argentinos. Nunca soube exatamente o que fazer com eles.

Vivem como se cada terça-feira fosse o último ato de uma tragédia. Transformam qualquer vitória em epopeia. Qualquer derrota em catástrofe nacional. São especialistas em sobreviver ao próprio caos.

Durante décadas imaginei que bastava esperar. Mais cedo ou mais tarde desmoronariam sozinhos. Quase sempre funcionou.

Até que apareceu aquele garoto.

Em 2006, ainda era cedo.

Em 2010, faltava-lhe alguma coisa.

Em 2014, quase consegui quebrá-lo.

Em 2018, seu corpo finalmente começava a obedecer às minhas leis.

Então veio 2022.

Passei quatro anos tentando descobrir onde havia errado. Até descobrir. O erro tinha sido meu. Sem perceber, concedi-lhe o único privilégio que jamais deveria entregar a um mortal.

Enquanto todos obedeciam às minhas leis … ele fazia minhas leis obedecerem a ele.

Os outros corriam. Ele esperava. Os outros decidiam. Ele já sabia. Os outros disputavam segundos. Ele parecia fabricá-los.

Cabo Verde. Egito.

Partidas que deveriam durar noventa minutos insistiam em durar uma eternidade. Não porque o relógio deixasse de avançar. Porque ele encontrava espaço onde já não deveria existir espaço.

Respiração onde já não deveria existir fôlego. Esperança onde eu tinha absoluta certeza de haver colocado o ponto final.

Foi então que compreendi. Não era a Argentina que permanecia viva.  Era apenas ele que se recusava a morrer antes da hora.

E isso… isso nunca fez parte das minhas regras.

FADE OUT.

CORTE.

Minha favorita caiu. Sem alarde. Sem desespero. Como todas as máquinas.

Funcionou perfeitamente … até encontrar aquilo que jamais conseguiu calcular. O inesperado.

Foi então que compreendi. Toda engrenagem perfeita carrega o mesmo defeito. Precisa acreditar que o mundo continuará obedecendo às suas regras. Os homens raramente colaboram.


CORTE.

O argentino caminhava sozinho. Nenhuma câmera precisava procurá-lo. Todas já sabiam onde ele estaria.

Não olhava para a arquibancada. Nem para a taça. Olhava apenas para o gramado. Como quem agradece a uma velha casa antes de fechar a porta pela última vez.

Sorriu.

Achei estranho. Homens derrotados raramente sorriem. Naquele instante tive certeza. Finalmente o havia vencido.

Foram vinte anos. Cinco Copas.

Promessas. Fracassos. Esperas.

Corpos que envelhecem. Pernas que deixam de responder.

Na sexta tentativa… ele finalmente me pertencia. Foi isso que pensei.

Então aconteceu uma coisa que eu não havia previsto. Começaram os aplausos.

Primeiro um setor do estádio. Depois outro. Depois todos.

Não aplaudiam um campeão. Aplaudiam algo muito mais raro. Uma despedida.

Foi então que compreendi. Esperei vinte anos para derrotar um homem.

Sem perceber… acabara de libertar uma lenda.


FADE.


A final chegou. Também foi embora. Como todas.

Os ingleses ergueram a taça. Fizeram exatamente o que haviam feito durante toda a Copa. Recusaram-se a aceitar o destino que eu lhes oferecia. Persistiram. Mais uma vez.

Talvez coragem nunca tenha sido vencer. Talvez coragem seja apenas continuar.


Do outro lado…

Os franceses permaneceram em silêncio.

Conheço aquele silêncio. Vi o mesmo olhar em 1954. Outra vez em 1974. Novamente em 1982.

Agora…mais uma vez.

Os homens possuem um hábito curioso. Às vezes se apaixonam mais pela beleza do que pela vitória.

Por isso continuam falando da Hungria. Da Holanda. Do Brasil. Continuarão falando desta França.

Campeões conquistam taças.

Alguns derrotados conquistam a memória.


CORTE.


As luzes começaram a se apagar. As bandeiras voltariam para casa. Os homens também.

Daqui a quatro anos acreditarão que estarão vivendo tudo outra vez. Nunca estarão.

Nenhuma Copa se repete. Talvez seja exatamente por isso que insistam em contá-las.


Eu envelheço os homens. Nunca aprendi a envelhecer lendas.

FADE OUT.

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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