Esporte

Um Domingo Qualquer

A cada quatro anos, chega aquele domingo que os homens se recusam a tratar como qualquer outro.

Interrompem viagens, adiam compromissos, antecipam almoços, vestem camisas, pintam rostos e se sentam diante de telas sem acreditar que o planeta continuará girando qualquer que seja o resultado. Mas tente explicar isso a eles.

Os homens gostam de caixas. Guardam nelas tudo aquilo que temem perder.

Após quatro anos protegida por vidro, alarmes, seguranças e mãos cobertas por luvas, chegou novamente o momento de levá-la ao encontro do mundo.

Ela atravessou países. Foi exibida diante de presidentes. Reencontrou antigos campeões.

Homens que a haviam erguido décadas antes se aproximaram devagar, sorrindo como quem visita uma parte da própria juventude.

A Taça permanecia igual. Eles, não.

Esse ritual não me interessou quando surgiu. Mas, vinte anos depois, alguma coisa havia mudado.

Duzentas mil pessoas se reuniram num estádio. Um país inteiro parecia respirar através de uma partida. Gente chorou, desmaiou, rezou e envelheceu em noventa minutos.

Quanto mais aquele país se aproximava da Taça, mais pesada ela parecia.

Foi naquele primeiro domingo que compreendi. Não era apenas futebol. Era o desejo coletivo concentrado num objeto.

Desde então, volto a cada quatro anos. Não para descobrir quem vencerá. Isso raramente me interessa. Volto para observar quem os homens se tornam quando finalmente chegam perto o bastante daquilo que passaram a vida desejando.

Um espanhol e um argentino apareceram na boca do túnel. Dois homens que já a haviam tocado em outros domingos quaisquer.

Quando pisaram no gramado, entrei.

O rugido do estádio atravessou o metal. Senti as mãos de Andrés e Mario.

Uma havia me conquistado com um gol na prorrogação, dezesseis anos antes. A outra ajudara a erguer minha antecessora numa Argentina que tentava esconder do mundo tudo o que acontecia do lado de fora dos estádios.

Quando me colocaram sobre o pedestal, fiquei a poucos metros daqueles que haviam passado mais de um mês tentando chegar até mim.

De um lado, camisas vermelhas. Do outro, azul e branco. Eu pesava o mesmo de sempre. Eles, não.

Os homens acreditam que chegam iguais até mim. Nunca chegam. Quanto mais se aproximam, mais revelam quem realmente são. De longe, todos desejam. De perto, poucos suportam o peso.

A bola começou a rolar. A Espanha fez o que sempre faz. Tomou o campo. A bola. O ritmo. A iniciativa. Havia vencido aquela Copa antes mesmo de vencê-la. Não no placar, naturalmente. Os placares possuem o desagradável hábito de exigir gols.

A Espanha protege o próprio gol confiscando a única coisa de que o adversário precisa para atacá-lo. A bola.

Um passe. Depois outro. Mais um. Os homens chamam isso de ataque. Também é defesa. Se a bola está com você, o adversário não pode marcar. Uma ideia simples. Como as melhores costumam ser.

Conheço a origem daquele pensamento. Vi holandeses transformarem o campo num carrossel. Johan ensinou que espaço vale mais do que força e que a bola sempre chega antes de qualquer jogador. Em 1974, entrou na final tão convencido da beleza da própria invenção que marcou antes mesmo dos adversários tocarem na bola. Depois perdeu. A Alemanha não era mais bela. Era mais adaptável.

Já havia visto isso vinte anos antes. Ferenc e seus colegas encantaram o mundo e chegaram em Berna acreditando conhecer o adversário. Ainda não sabiam que conheciam apenas a versão que ele havia escolhido mostrar.

Os homens costumam confundir o que funcionou ontem com o que funcionará amanhã. É uma das maneiras mais eficientes de perder.

Mas esta Espanha jogava como favorita. Dominava como favorita. E terminaria campeã. O espantoso não foi o resultado. Foi perceber como uma equipe podia controlar tanto uma partida e, ainda assim, permanecer tão distante do gol.

Seus homens passeavam a bola pelo gramado como quem escreve uma frase perfeita e se recusa a colocar o ponto final.

O passe seguinte precisava ser melhor. O ângulo seguinte, mais limpo. A jogada seguinte, mais espanhola.

Durante alguns momentos, suspeitei que haviam se apaixonado tanto pelo caminho que já não se lembravam do destino.

Não era a primeira vez. Em 2010, também haviam dominado uma final sem conseguir terminá-la. Naquela noite, faltando quatro minutos para o fim da prorrogação, Andrés enfim decidiu que não haveria passe seguinte. Chutou. Às vezes, uma ideia só sobrevive quando alguém aceita traí-la por um segundo.

Do outro lado, eu procurava a Argentina que atravessara aquela Copa. Não encontrei.

Ela havia chegado até a final aos trancos e barrancos. Sofrendo gols. Buscando viradas. Escapando de derrotas que pareciam certas.

Era uma equipe mercurial. Móvel. Instável. Imprevisível. Perigosa justamente porque se recusava a conservar uma forma.

Mercúrio sempre gostou de tudo aquilo que muda de forma, direção e humor. Mas “mercurial” nunca significou apenas velocidade. Significa mudar. Escapar. Voltar à vida quando todos acreditam que você já perdeu. Foi assim que a Argentina chegou até mim. E foi exatamente isso que deixou de ser.

A Argentina que passara a Copa inteira escapando da derrota entrou na final como se já tivesse aceitado esta. Entregou a bola. O campo. A iniciativa. Não tentou vencer. Tentou adiar a derrota. Há uma diferença.

O medo de perder havia retirado dela a vontade de ganhar.

Em Paris, vi brasileiros entrarem numa final de corpo presente mas com a essência da alma presa no vestiário.

Naquele 1950, o favorito se curvou diante da proximidade da conquista.

Hoje, a equipe que nem era favorita foi esmagada não pelo excesso de expectativa dos outros, mas pela consciência de que talvez aquela fosse sua última oportunidade.

Para alguns homens, a Taça pesa pelo tamanho da obrigação. Para outros, pelo medo de que nunca mais apareça outra chance de tocá-la.

Messi caminhava pelo campo como alguém que já viveu as duas sensações. Os homens imaginam que a experiência elimina o medo. Nem sempre. Às vezes apenas ensina a reconhecê-lo. Ele olhava. Tentava encontrar no jogo a Argentina que havia carregado até ali. Mas até mesmo o gênio precisa que os outros aceitem participar da própria salvação.

Há 40 anos,  um outro argentino conduziu sua seleção até a conquista. Há vinte anos, o francês, a poucos minutos de seu último jogo, permitiu que o orgulho conduzisse sua cabeça até o peito do italiano.

Uma vida inteira num gesto. Uma virtude vira defeito quando perde a medida.

A coragem vira imprudência. Confiança vira soberba. Prudência vira medo. Consistência vira prisão.

A Espanha insiste. A Argentina assiste. Uma não consegue deixar de ser Espanha. A outra já deixou de ser Argentina.

Não é um confronto entre dois países, mas entre duas maneiras opostas de ser derrotado pelo próprio sucesso.

Uma abandonou o que a trouxera até ali porque agora tinha algo a perder. Outra  confiou tanto no caminho que percorreu que quase já não conseguia enxergar a curva. Isso acontece fora dos campos com frequência.

Empresas crescem assumindo riscos e, quando se tornam líderes, constroem departamentos inteiros para impedir que alguém volte a arriscar.

Artistas conquistam o público fazendo algo inesperado e passam o resto da carreira repetindo exatamente aquilo que um dia foi novo.

Pessoas encontram o amor e começam a sufocá-lo por medo de perder.

Outras confundem fidelidade a si mesmas com a obrigação de jamais mudar.

O sucesso cria duas cegueiras. O medo de perder aquilo que conquistamos. E a certeza de que o caminho que funcionou até hoje funcionará para sempre.

A bola continuava espanhola. O gol, não. O tempo regulamentar terminou. A Argentina não havia sequer obrigado o goleiro espanhol a defender uma finalização.

Quatro anos antes, em outra final, Argentina e França haviam marcado seis gols, trocado golpes, ressuscitado várias vezes e quase me deixado sem fôlego. Desta vez, fizeram o possível para me ensinar o tédio.

Nem todos os domingos precisam ser bonitos. Alguns existem apenas para mostrar aquilo que os homens escondem quando ainda estão longe demais da conquista.

A prorrogação começou. Então, alguma coisa finalmente se rompeu. A Espanha atacou. A defesa argentina tentou sobreviver mais uma vez. E a bola chegou nele. Não no grande protagonista. Nem no banhado para herdar o mundo. Nem no capitão. Mas no reserva. Uma peça do sistema. Ferran.

Ele chutou. Gol. Talvez ali estivesse a maior força daquela Espanha. A Argentina tinha Messi. A Espanha possuía algo mais difícil de marcar. Uma ideia. Os jogadores mudavam. A ideia continuava em campo.

Grandes equipes ganham campeonatos. As maiores obrigam os adversários a repensar como o esporte deve ser jogado.

Só depois do gol a Argentina se lembrou como se ataca. Correu. Pressionou. Arriscou. Reencontrou, por alguns minutos, a criatura mercurial que havia sido durante toda a Copa. Tarde demais. Precisou perder a Taça para recuperar a vontade de conquistá-la.

Quando o último apito soou, compreendi com clareza. A Argentina perdeu quando deixou de ser Argentina. A Espanha quase perdeu porque não conseguiu deixar de ser Espanha.

Os espanhóis caíram no gramado. Alguns choraram. Outros correram sem saber exatamente para onde.

Os argentinos ficaram imóveis. Depois começaram as discussões, os empurrões, a raiva atrasada de quem finalmente encontra energia quando já não há mais partida para disputar.

Conheço bem essa reação. O corpo precisa fazer alguma coisa com aquilo que a alma não consegue suportar.

Aos poucos, organizaram a cerimônia. Presidentes. Dirigentes. Medalhas. Fotografias. Os homens adoram acrescentar protocolo ao êxtase. Talvez seja uma tentativa de domesticá-lo. Nunca funciona.

Fui entregue ao capitão espanhol. Rodri colocou suas mãos em mim. 

Durante quase duas horas, aqueles homens haviam evitado olhar diretamente para o pedestal. Agora todos me queriam ao mesmo tempo.

Fui erguida. E o estádio explodiu.

Os homens chamam aquilo de comemoração. É uma palavra pequena. Aquilo era gozo.

Anos de contenção finalmente encontravam uma saída pelo corpo. Braços me apertavam. Bocas me beijavam. Testas encostavam no meu metal como se fosse altar, amante e prova. Gritavam dentro de mim. Choravam sobre mim. Saltavam com uma violência alegre, como se a gravidade tivesse sido suspensa por alguns minutos.

Fui passada de mão em mão. Cada toque carregava alguma coisa. Infâncias. Pais. Mães. Bairros. Treinos. Lesões. Meses de fisioterapia. Bancos de reservas. Derrotas. Noites em que imaginaram se algum dia chegariam até ali.

De longe, todos desejam conquistar-me. Só quando me tocam descobrem que nunca desejaram apenas o objeto. Desejavam tudo aquilo que acreditavam que sentiriam quando me  alcançassem.

Deram a volta no campo comigo acima das cabeças. Torcedores estendiam os braços como se pudessem me tocar  através da distância.

Durante aqueles minutos, deixei de sentir vinte e seis homens. Senti um país inteiro. Antes da partida, meu peso os curvava. Agora os fazia levitar.

Levei milênios para compreender. Apenas quem conhece a falta é capaz de sentir a conquista.

Eu conheço o tempo dos homens. Sei quando começam. Quando terminam. Quanto esperam. Quanto envelhecem. Mas a Copa é o momento em que sinto sua intensidade. 

Quatro anos, para mim, não significam quase nada. Para eles, podem separar a juventude da despedida.

Passei eras acreditando que a eternidade fosse o maior dos privilégios. Ela permite assistir a tudo.

Enquanto sou passada de mão em mão, recordo por que continuo voltando a cada quatro anos. Não é pelos campeões. Nem sequer pelo jogo. É por aqueles poucos minutos em que a eternidade me permite experimentar aquilo que jamais poderia me oferecer.

Falta. Medo. Desejo. E, finalmente, gozo.

Durante aqueles instantes, deixo de apenas conhecer os homens. Me sinto como um deles.

A volta terminou. Os jogadores seguem em direção ao túnel, ainda cantando. O rugido do estádio fica para trás. O metal começa a esfriar. Quando cruzamos a mesma linha por onde eu havia entrado algumas horas antes, saio.

A Taça continua nos braços deles. Eu, não.

Eles a levarão para fotografias, cerimônias e vitrines. Durante algum tempo, ainda a tocarão como quem precisa confirmar que tudo realmente aconteceu. Depois voltarão o vidro. Os seguranças. As luvas. E a caixa.

Eu também voltarei. Não no domingo seguinte. Naquele outro. Aquele que só aparece de quatro em quatro anos. Para os homens, nunca é um domingo qualquer. Talvez seja por isso que eu continue voltando.

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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