Desenrola 2: analgésico para o devedor, presente para os bancos, conta para o contribuinte

Do ponto de vista prático, o Desenrola 2 tende a ser um ótimo negócio para os bancos.
Imagine uma dívida já bastante atrasada, entre 90 e 365 dias, portanto com elevado nível de provisionamento. As instituições financeiras já oferecem descontos progressivos nesses casos para viabilizar acordos. Isso não é novidade nem para credores, tampouco para devedores.
O que normalmente acontece é o seguinte: feito um acordo parcelado, já que pagamentos à vista são raros, a IF não consegue zerar imediatamente o provisionamento. Os valores vão sendo “salvos” gradualmente, à medida em que as parcelas são pagas, quase como uma recuperação a conta-gotas (simplificando I conceito para facilitar o entendimento, é mais complexo que isso).
Agora entra o Desenrola. A dívida antiga é quitada contabilmente, um novo contrato é gerado e, por possuir garantia parcial do governo, exigirá um nível de provisão muito menor, talvez nennhum.
Imaginemos uma dívida de R$ 2.000 com 180 dias de atraso, já 100% provisionada. No modelo tradicional, suponha que o cliente faça um acordo com 50% de desconto, parcelando os R$ 1.000 em 10 vezes de R$ 100. O banco reconhece esse impacto positivo aos poucos, R$ 100 por mês, conforme o pagamento efetivamente acontece.
Sob o programa, a dinâmica muda. A dívida original é zerada e substituída por um novo contrato garantido parcialmente pelo governo. Na prática, contabilmente, os R$ 1.000 aparecem de uma vez só. Haverá uma melhora importante nos resultados das ‘IFs’, pois o que era contabilizado gradualmente, virá de uma só vez.
Para o cliente, surge um novo acordo que, em muitos casos, provavelmente já estaria disponível antes, agora apenas turbinado por estímulos governamentais. Se o cliente não honrá-lo, o governo absorve parte do prejuízo.
E aqui mora um ponto que um governo intervencionista parece não compreender: quando a inadimplência alcança níveis elevados, a taxa de quebra dos acordos firmados nesse estágio é bem alta. O cliente volta a inadimplir, pois no fundo trata-se majoritariamente de um problema estrutural de renda inferior às despesas. Não há canetada que resolva o problema.
Teremos algum alívio para os inadimplentes no curto prazo, acompanhado de muitas manchetes politicamente convenientes. A imprensa divulgará que “milhões de acordos foram realizados”, mas dificilmente fará a pergunta mais importante: quantos desses acordos teriam acontecido de qualquer maneira sem o Desenrola?
O famoso grupo de controle para medir o real impacto da ação, ou ao menos uma tentativa de estimá-lo. Mas aí já seria rigor analítico demais para um debate eleitoral raso.
Hoje mesmo saiu uma notícia celebrando que milhões de consumidores com negativações inferiores a R$ 100 terão o nome limpo. O detalhe pouco mencionado é que boa parte das instituições sequer negativa dívidas tão baixas, e a maioria nem considera esse tipo de apontamento como restritivo relevante na concessão de crédito.
Existe ainda um efeito colateral pouco discutido, mas potencialmente perigoso no longo prazo: o risco de “viciar” o consumidor.
Se a cada certo tempo surge um novo Desenrola, por que pagar a dívida agora? Por que não esperar um grande desconto mais à frente, com o governo ainda garantindo parte do acordo?
E há uma questão moral inevitável: por que aqueles que sempre pagaram suas dívidas em dia jamais recebem qualquer tipo de incentivo estatal? Afinal, estamos falando de recursos oriundos do pagador de impostos…
O governo gastará bilhões oferecendo garantias aos bancos para operações inadimplentes. Será mesmo que não existiriam usos melhores para esse dinheiro?
No fim, cria-se uma espécie de transferência indireta de renda do contribuinte para o sistema financeiro. O devedor recebe um analgésico, não um remédio e o problema estrutural permanece, daqui a alguns meses ele será manchete novamente.
É por essas e outras que, por princípio, me oponho com veemência a governos intervencionistas.




