Opinião

Saudades condensadas

No dia 02/12/2022 a XXVa turma da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, da qual orgulhosamente sou parte, fez 30 anos de formatura.

A fim de lembrar todas as pessoas que partiram de nossas vidas nesse período, escrevi esse texto, lido nesse evento, mas que serve para qualquer pessoa.

Bom dia a todos
Eu estava olhando o álbum de formatura, quando me dei conta de que muitas pessoas ali retratadas não estavam mais entre nós.
Afinal de contas são 30 anos entre as fotos do dia da formatura e hoje ou até 35 anos se considerarmos que temos fotografias tiradas durante a faculdade.

Fiquei pensando na brevidade e na finitude da vida e nas inúmeras maneiras de ver e aceitar (ou não) a nossa mortalidade.

Sobre a vida, eu particularmente gosto da explicação, que o famoso astrônomo, Carl Segan, deu a sua filha Sasha, quando questionado sobre o fato de seus avôs não estarem mais vivos. Aliás, o próprio Segan faleceu relativamente jovem. Essa explicação cabe para todas as gamas de crenças, inclusive para quem não crê em nada.

“Você está vivo neste segundo. Isso é uma coisa incrível. Quando você considera o número quase infinito de bifurcações na estrada que leva ao nascimento de qualquer pessoa, você deve ser grato por ser você neste exato segundo. Pense no enorme número de universos alternativos onde, por exemplo, seus tataravós nunca se encontram e você não existe. Além disso, você tem o prazer de viver em um planeta onde evoluímos para respirar o ar, beber a água e amar o calor da estrela mais próxima. Você está conectado às gerações através do DNA – e, ainda mais longe, ao universo, porque cada célula do seu corpo foi cozida no coração das estrelas”. (https://www.thecut.com/2014/04/my-dad-and-the-cosmos.html)

Voltando ao álbum, afinal fotografias digitais não estavam disponíveis há 30 anos, passei por diversas lembranças e vi colegas, professores, amigos, irmãos, tios, pais, mães, avôs e avós, primos e pacientes que não estão mais entre nós.

Essa semana perdi minha mãe, Lúcia, que foi se encontrar com meu pai Cláudio e abraçar a Cristina, mãe de minha filha, que também partiu esse ano. Espero que ela tenha tempo de conversar com seu Alcides, o pai da Sil e seu Bóris, o pai do Gil. Ver como estão nossos colegas Jorge e Maura e ouvir alguma história do professor Raul Cisternas, do professor Fares Rahal e do professor Fava.

Queria citar o nome de todos os que partiram, mas nosso tempo é curto, o tempo é sempre curto. Sintam-se todos citados, abraçados e sempre amados.

Suas histórias continuam através das pessoas que te amaram e que vocês amaram. A XXV turma é profícua e eu precocemente já deixei meu legado através da minha filha Ludmila e esse ano, o Frank, para comemorar nossos 30 anos, nos presenteou com a Nina.

Há onze anos, numa antevéspera de natal, sonhei com o nosso professor Fausto Forin Alonso. Um sonho vívido, quando acordei, ainda sentia o abraço que ele me deu ao se despedir. Sentei-me na sala e escrevi esse outro texto, propício a essa época do ano, chamado de Saudades Condensadas.

Nestas festas de final de ano, uma melancolia difusa toma conta de nós. Tentamos disfarçar, mas as saudades das gentes que já partiram, há muito ou pouco tempo, vêm sem avisar. Eu desisti de refrear ou disfarçar tal sentimento e resolvi que ele seria convidado para as ceias de Natal, as festas de ano novo ou para acender as velas do Hanukka.
Criei um brinde, que pode ser dito em silêncio ou em voz alta e modificado conforme a conveniência de cada um, que é mais ao menos assim:

meus amigos, primos, professores, tios, pacientes, avós, pai, mãe, conhecidos e agregados, aí do outro lado, sinto uma falta danada de todos. Eu queria ver, abraçar, conversar com cada um, mas então me recordo que de fato, vocês estão aqui: num livro, numa música, num filme, numa foto, numa fita cassete, na medicina que eu pratico, num cartão, numa dedicatória, no jeito de cozinhar, nas minhas lembranças, no meu aprendizado e no amor que eu carrego comigo. Que bom que a vida me presenteou com a chance de conviver com cada um de vocês. Queria que tivessem ficado mais tempo. A todos minha profunda gratidão e meu amor.”

Pode ser que algumas lágrimas escapem. Não disfarce, brinde a elas. São lágrimas de saudades condensadas.
Muito obrigado

Cláudio Galvão

Cláudio Galvão é médico Hematologista, faz transplante de medula óssea e oncologia pediátrica. Queria ser piloto da Varig e até chegou a pilotar aviões. Depois fez física, mas parou e finalmente concluiu o curso de medicina. O gosto por aviação e por divagações acerca de números e da física teórica nunca o abandonou.

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