Brasil

A Mística da “Amarelinha” é muito maior que Bolsonaro. Mas os xiitas não entendem isto

O triste Brasil do bicentenário está dividido pelo ódio irracional entre duas correntes igualmente ruins; os anti-Lula e os anti-Bolsonaro. A explicação é bastante lógica; como os dois têm telhado de vidro, fica difícil encontrar virtudes neles. E o jeito é denegrir (epa!) a imagem do adversário, tentar provar que “o nosso é menos pior”. E nesta guerra suja e quase sempre ridícula, está sobrando até para símbolos nacionais. A mais recente vítima é a camisa amarela da seleção brasileira, que, por ser identificada com Bolsonaro, está sendo “cancelada” nas redes antissociais, com alguns escribas mais afoitos propondo até que ela seja aposentada. Conforme diria meu conterrâneo Lupicínio Rodrigues, “Esses moços, pobres moços, estão indo ao inferno à procura de luz”. Só pode ser isto.

Em primeiro lugar, cancelar um símbolo de alegria e vitória para todo o povo brasileiro por causa do Bolsonaro, é dar a ele uma importância histórica que, certamente, ele não tem. A história da “Amarelinha” e sua identificação com um Brasil vencedor é muito maior e mais bonita do que qualquer “imbrochável” de plantão.

Ontem mesmo, vestindo a seleção de vôlei masculino, a amarelinha acrescentou mais um capítulo de glória ao seu já extenso currículo. E antes que a turma dos “haters” que nunca deram um saque na vida, venha dizer que “medalha de bronze não vale nada”, explico que, no nível que o voleibol mundial alcançou, um time totalmente desfalcado como o nosso chegar ao pódio é façanha de heróis. Mas esta discussão fica para outra hora.

“Fanático é um sujeito que não consegue mudar de ideia, nem de assunto” (Winston Churchill)

Talvez conhecendo um pouco da história do manto sagrado e sua identificação com um Brasil forte e vencedor estes xiitas se acalmem um pouco antes de propor a destruição de ícones por causas imediatistas. Vamos lá.

Desde o primeiro jogo da seleção brasileira, contra os ingleses do Exeter City, em 1914, o uniforme branco foi o preferido. Tinha algo a ver com paz, neutralidade. E assim foi até 1950, quando o “Maracanazzo” (prá quem não sabe, a incrível e trágica derrota dos brasileiros para os uruguaios na final da Copa) abalou profundamente as estruturas do esporte nacional. E sobrou até para o uniforme branco.

Com franco apoio da opinião pública, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos – ainda não existia a CBF, específica para o futebol), resolveu exorcizar o fantasma da derrota com a adoção de um novo uniforme, que fosse fiel às cores da nossa bandeira. Para isto foi organizado um concurso, em nível nacional. E o design vencedor, com camisa amarela e calção azul, foi concebido por um gaúcho chamado Aldyr Schlee (ver detalhes em https://artsandculture.google.com/story/DQWBCiIxN2jqKQ?hl=pt-BR ).

O sucesso do futebol brasileiro na década seguinte, com a conquista de dois mundiais consecutivos (1958 e 1962), consagrou a “canarinho” como símbolo de futebol alegre, bonito e, acima de tudo, vencedor. Muito da imagem simpática que o Brasil e os brasileiros ainda desfrutam no mundo todo veio daí.

Como curiosidade, vale contar a história da final da copa de 1958; fiel à falta de planejamento, característica tipicamente brasileira, a CBD não levou uniforme reserva para a Copa. E aí, justamente na final, tivemos que enfrentar o time sueco, com uniforme exatamente igual ao nosso. Houve um sorteio, e o Brasil perdeu. Diz a lenda que o chefe da delegação, o inesquecível Paulo Machado de Carvalho, comprou o uniforme com camisa azul e calções brancos em uma loja, e a escolha da cor foi para convencer os supersticiosos jogadores que os deuses estavam do nosso lado; “Vamos jogar com as cores do manto de Nossa Senhora Aparecida!”. Aí nasceu uma camisa reserva também vencedora.

Vale acrescentar, também, que o vôlei, por exemplo, quando começou a se tornar gigante, na época da “geração de prata” (início dos anos 80), usava dois uniformes; um azul e outro branco. Mas a medalha de ouro só veio em 1992, quando a camisa amarela passou a ser usada. Podem conferir no YouTube ou Google com fotos e vídeos da época. E a mística só aumentou!

Resumindo, pelo amor de Deus, mantenham o manto sagrado da seleção brasileira fora desta briguinha ridícula entre Mitos e Santas Criaturas. Não tem o menor sentido.

Pedindo licença ao meu genial conterrâneo Mário Quintana para fazer uma paródia com um de seus mais conhecidos versos, digo que Lula e Bolsonaro passarão, ela canarinho… (entendedores entenderão!).

Que Deus nos ilumine.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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