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É a narrativa, estúpido!

O marqueteiro político James Carville criou o slogan “É a economia, estúpido!”, que viralizou e contribuiu para a vitoria de Bill Clinton contra a reeleição de George Bush. Tornou-se um case de sucesso eleitoral que passou a ser seguido como mantra por todo político candidato a cargo executivo, enfatizando que os eleitores dão mais importância à inflação, salário e desemprego, quando o cenário de economia está em baixa, do que com valores ideológicos como direita versus esquerda ou os atuais diversidade e direitos das minorias.

Só que essa era a realidade em 1992, 30 anos atrás, para o eleitorado Baby Boomer e Geração X. De lá para cá, os Millenials e os Zennials nasceram, cresceram, se multiplicaram, tornaram-se eleitores e formadores de opinião.

Para milhões destes novos eleitores, uma economia saudável não é mais o suficiente. Tem que ter propósito. Tem que ser correta, sustentável, eco-friendly, inclusiva, corrigir dívidas históricas do patriarcado branco hetero-normativo eurocêntrico. E, tem que ser correta para o padrão de corretismo vigente.

Quem não se enquadrar no estereótipo desta persona utópica, está no fio da navalha: se der um passo fora da linha de conduta determinada pelo politicamente correto, é cancelado pelo tribunal de execução sumária das redes sociais.

A Era das Narrativas:

Esta semana um assunto que foi muito reverberado na imprensa e redes sociais foi sobre a delegação brasileira em NY para a abertura da assembléia geral da ONU e o discurso do presidente Bolsonaro na cerimônia.

Para todos os jornalistas que já irreversivelmente o consideram um genocida, psicopata, negacionista, racista, machista, misógino e homofóbico, qualquer coisa é material para ser explorada em narrativas ancoradas por manchetes que pesam a mão para o lado negativo.

Se come uma fatia de pizza na calçada, é porque ou é populista ou porque envergonha o país por estar proibido de frequentar restaurantes por não estar vacinado. Se vai na área externa de uma churrascaria brasileira, é um jeca que não tem o bom gosto e curiosidade cultural de experimentar uma comida típica do local estrangeiro (Em NY?! O que eles queriam, pretzel com hot-dog ??!! ).

Uma característica típica deste tipo de imprensa é que, mais importante do que o O QUE? é o QUEM?. Aposto que, se fosse um presidente brasileiro alinhado com as preferencias politico-partidárias de quem escreve a reportagem, a pizza na calçada se tornaria exemplo da simplicidade do ex-operário não deslumbrado com o poder e respeito pela economia de despesas com dinheiro público, e a ida à churrascaria seria elogiada por prestigiar a culinária brasileira no exterior. E, provavelmente fariam vista grossa pro verdadeiro crime de lesa-pátria que aconteceu: ele ter pedido a picanha bem passada, segundo relatos. (Merchan: Leia meu post Quando tudo isso passar, o churrasco vai ser na casa de quem? )

Já pelo outro lado, o conteúdo do discurso feito pelo presidente na ONU é absolutamente irrelevante pelas mesmas razões citadas acima. Não mudaria a opinião, a favor ou contra, nem de 0,1% de seus seguidores ou oposicionistas, mesmo se fosse uma obra-prima de oratória ou um fiasco de proporções dilmarousseffianas. Além disso, apesar de ser feito no palanque do organismo internacional, na real ele é algo para consumo interno : da mesma maneira que você que está lendo este texto agora não faz idéia do que a Angela Merkel, o Boris Johnson ou o Macron falaram em seus discursos, você realmente acha que alguém de outros países acompanhou o discurso do presidente brasileiro?

Os clickbaits e a grande imprensa:

Clickbait é uma tática usada na internet para gerar tráfego online por meio de conteúdos enganosos ou sensacionalistas. Também refere-se à quebra de expectativas por parte do usuário fisgado por uma manchete tendenciosa.

Infelizmente, os grandes veículos de imprensa, que enchem o peito para orgulhar-se de suas agencias de fact-checking contra fake news, nos últimos anos em sua grande maioria abandonaram a isenção e equilíbrio fundamental para a prática do bom jornalismo e embarcaram nesta onda que exemplifiquei acima, onde primeiro cria-se a narrativa desejada e, em seguida, desenvolve-se o conteúdo jornalístico para dar base para a hipótese que se pretende comprovar.

Exemplos deste tipo acontecem às dezenas, diariamente, mas gostaria de destacar uma em especial. Hoje meu colega do PdB Marcelo Guterman fez uma postagem no Face que chamou minha atenção e reproduzirei em parte: uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo que tinha como título Dona de Belo Monte quer usar árvores nobres do Xingu para produzir carvão e o olho “O destino de milhares de árvores nobres, incluindo espécies em extinção e protegidas por lei federal, deverá ser os fornos de uma siderúrgica sócia da Norte Energia, a dona da hidrelétrica de Belo Monte, na região amazônica. A concessionária pediu autorização ao Ibama para transformar em cinzas 3,5 mil metros cúbicos de madeira que foram extraídos da região, na fase de construção da usina em Vitória do Xingu, no Pará. Trata-se de aproximadamente 120 caminhões abarrotados de toras da Amazônia que poderão virar carvão.

É fato conhecido nas redações que 7 em cada 10 leitores só lê o título e o olho da reportagem. Assim, neste exemplo acima, forma-se já uma narrativa no seu cérebro apenas com estes termos-chave :

  • “dona de Belo Monte” ( ah, privatização malvada),
  • árvores nobres de espécies em extinção ( São DiCaprio, zele pela preservação da nossa floresta),
  • produzir carvão (Santa Greta do Céu, salve-nos do aquecimento global),
  • 3,5 mil metros cúbicos, 120 caminhões abarrotados ( Átila , tweete-nos sua opinião pra me dizer seu eu tenho que achar que isso é uma devastação ou uma tragédia).

Pronto! Missão dada, é missão cumprida: Narrativa desejada devidamente transmitida para 70% do público!

Agora, se você fizer parte daqueles 30% de chatos que tem o hábito Cringe de ler o conteúdo da matéria, e não apenas o título e cabeçalho, descobre que:

  • não se trata de árvores, mas de toras já cortadas. Aliás, a própria foto da reportagem é de toras, contradizendo o título da reportagem;
  • as árvores foram derrubadas com permissão do Ibama, 6 anos atrás, de forma legal, para a construção do reservatório de Belo Monte;
  • foi tentada a doação, mas o custo do frete inviabiliza o transporte para muitos potenciais beneficiários;
  • o título destaca os atuais 3,5 mil metros cúbicos de toras remanescentes, mas apenas no corpo da matéria detalha que, durante esses anos todos, outros 18.497 metros cúbicos já apodreceram

Qual o problema destas informações? É que são fatos que contradizem o objetivo da narrativa desejada.

A intenção é jogar a batata quente para o governo atual, mas o desmatamento ocorreu em 2015, mandato da presidenta Dilma e o planejamento, projeto e licitação da usina de Belo Monte no governo Lula.

A usina é um elefante branco que custou 40 bilhões de reais, inundou 478 quilometros quadrados na Amazônia, com capacidade para gerar 11.233 megawatts, mas que passa grande parte do ano, no período de seca, com a maior parte de sua capacidade ociosa, devido à tecnologia adotada de geração de energia por fio de água, dependendo do regime hidrográfico do Rio Xingu, que varia 25 vezes entre a época de cheia e a seca. Atualmente, gera 300 MW por dia, irrisórios 2,67% da potência total ( Sem água, Belo Monte opera com meia turbina desde o início de agosto ).

Epílogo:

Este post foi um curto registro de pensamentos em cima de acontecimentos dos últimos dias que quis deixar registrado, como um aquecimento para meu próximo post que se chama And The Nobel Goes To … que já te convido a vir ler na próxima semana.

Post Scriptum:

Antigamente, a grande imprensa, seja impressa ou eletrônica, possuía o monopólio das narrativas.

Ironicamente, uma das causas de, hoje em dia, os veículos de imprensa terem migrado da neutralidade crítica de antigamente para a atual condição de assumirem descaradamente um lado e noticiar tendenciosamente a serviço de sua agenda e proposta editorial é uma resposta à perda de relevância que sofrem nos últimos anos, por conta do crescimento das redes sociais.

Atualmente, não precisamos mais esperar até a noite, para assistir o Jornal Nacional, ou o dia seguinte, para receber a entrega do jornal, para termos acesso às as informações. Tudo acontece em tempo real, a um clique de distância, vindo tanto de divulgação em sites de notícias como de compartilhamento de gente como a gente nas redes sociais. Uma notícia pode viralizar em tempo recorde, com seus erros e informações equivocadas sendo imediatamente expostas.

Mas, a externalidade positiva das redes sociais que eu mais gosto são os feedbacks que o autor de qualquer postagem recebe de seus leitores e acelerar sua curva de aprendizado, corrigindo erros ou aprimorando o material.

Recebi este comentário abaixo do Rogério Rodrigues e achei tão bom, que editei a postagem original, acrescentando este Post-Scriptum.

Nos minutos finais da serie Game of Thrones foi falado que nada encantava mais o povo do que uma história (ou estória) e que a união dos reinos dependia de escolherem um novo Rei (entre os mocinhos obviamente) que tivesse a melhor história a ser contada, pois era uma história que uniria o povo na reconstrução de um novo reino cheio de paz e progresso (pelo menos até que um novo vilão aparecesse para bagunçar a zona toda).

Rogério Rodrigues

E, abaixo, o vídeo legendado desta sequência que ele citou, no episódio final da série, um discurso emocionante de Tyrion Lannister, interpretado por Peter Dinklage.

Obrigado, Rogério!

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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3 Comentários

    1. Excelente reflexão.
      Estamos vivendo de realidades criadas e duramente criticados quando colocamos nossa opinião sobre elas.
      Obrigada 👍🏼✅

  1. Excelente reflexão.
    Estamos vivendo de realidades criadas e duramente criticados quando colocamos nossa opinião sobre elas.
    Obrigada 👍🏼✅

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