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Animal Social, Dissonância Cognitiva e Grupismo

Animal Social: um livro estupendo

Estou lendo a nova edição do “Animal Social” em papel, que é, para mim, um dos melhores e mais importantes livros que eu li na minha vida. Foi lançado agora em novembro de 2023.

Seu autor Elliot Aronson, que escreveu a primeira edição no início dos anos 70, é um dos mais renomados psicólogos sociais de todos os tempos e alguém que tenta firmemente apartar sua escrita de quaisquer ideologias, postura que sua própria expertise em psicologia social ajuda-o, de forma que ele possa ligar os alertas apropriados para se autoaperfeiçoar.

Ele está vivo até hoje e tem 91 anos. A edição atual de 2018 (do original em inglês) ele escreveu com seu filho, também psicólogo social, a 4 mãos.

Ele é um pesquisador nesta área há décadas e tem as suas intuições, como todos nós, mas elas servem apenas como mote, e vão sendo complementadas por uma rigorosa base experimental (de suas pesquisas e de terceiros) que podem corroborar ou não as intuições iniciais. Um bom pesquisador tem que estar aberto a contrariar suas intuições iniciais e aceitar estes reveses com humildade.

O livro é escrito na primeira pessoa e tem um estilo simplesmente delicioso, sendo uma leitura fluída e relaxante.

Se você tem abertura, este livro pode mudar a forma como você enxerga o mundo e não é, de forma nenhuma, um livro de autoajuda.

Da leitura deste livro, ainda no final dos anos 70, nasceu em mim um interesse imenso pela área e, mesmo sendo mais da área de exatas e negócios, li muito e muitos livros nas áreas de psicologia, particularmente a psicologia social, e depois, psicologia evolucionista, neurociência e teoria da decisão.

No fundo, acho a Psicologia Social, o pai científico do marketing, e a mãe da economia comportamental, hoje tão em voga, além de padrinho de qualquer área ligada a negócios (vendas, liderança, gestão, finanças etc.).

Em suma, é uma área importante para todo tipo de pessoa, exceto, talvez, se ela for um eremita que fez um voto de silêncio vitalício e passa toda sua vida no alto na montanha, meditando e matutando.

Quase todos as pessoas têm líderes e/ou liderados e/ou pares, já que há raras empresas do eu sozinho, e mesmo esta tem clientes e fornecedores. No final, tudo são pessoas.

A psicologia social, grosseiramente, resumidamente, estuda o comportamento humano na sociedade e sua mútua interação, especialmente relativo às pessoas ditas “normais”.

Dissonância Cognitiva

Só para exemplificar, um dos muitos conceitos da psicologia social é a dissonância cognitiva (DC), termo cunhado em 1957 por Leon Festinger.

Resumidamente, o termo se refere ao fato que praticamente todas as pessoas lidam muito mal com as contradições relativas à sua autoimagem, que surgem diante dos fatos e experiências durante a vida, e tenta reduzir essas contradições alterando suas percepções.

Um exemplo clássico são as formas como o fumante inveterado cria justificativas para reduzir a distância entre “o cigarro mata e eu sei disso” e “eu fumo pacas”. Então ele diz que tudo faz mal (açúcar, sedentarismo etc.), minimiza as pesquisas, ou ele acha que não fuma tanto assim espelhando-se em pessoas que fumam mais do que ele, ou ele conta sobre seu tio que viveu até os 96 anos e sempre fumou ou, finalmente, ele acha que a vida é curta e vê o cigarro como fonte de prazer (“prefiro morrer um pouco antes e fazer tudo que me faz feliz”).

A dissonância cognitiva atua em tudo na vida: uma pessoa, ao comprar um carro novo, enfrenta-a de 2 formas: de um lado ela fica feliz em ler, a posteriori, elogios ao carro em revistas especializadas, como se tivesse atestando a correção de sua decisão prévia. O fabricante, deste e outros produtos, por vezes, usa esse subterfúgio no manual do usuário, que costuma ressaltar a “qualidade ímpar” do produto adquirido. Por outro lado, a pessoa fica toda incomodada quando lê ou ouve críticas. Neste caso, em geral, ele parte para desqualificar o mensageiro (“não entende nada”, “está ‘viajando'”, “morre de inveja” etc.) ou minimiza desajeitadamente as desvantagens enquanto ressalta exageradamente as vantagens.

A DC vale até mesmo para a vida pessoal, sem interação com pessoas. Quando alguém começa desconfiar que cometeu um erro, o mecanismo da dissonância cognitiva faz com que alguém adie o ato de assumir o erro o máximo possível, o que pode prejudicar a vida desta pessoa, de diversas formas.

Isso vale, por exemplo, para uma decisão de investimento ruim (escolha de um papel, compra de uma casa, abertura de um ponto de varejo, um negócio deficitário etc.) que está fazendo água, com boas evidências que isso continuará.

No dia que o investidor fecha uma posição, também marca o momento que ele reconhece oficialmente seu erro. O conflito se dá entre “Se eu assumir isso, não há volta e fui um idiota” com “Sou um cara esperto”. Enquanto ele retém o ativo, em tese, há esperança, o que faz ele evitar a dor da dissonância apontada.

Por isso, ele muitas vezes posterga o inevitável, o que, via de regra, faz ele perder mais dinheiro.

Ele deveria, em vez disso, perguntar para si mesmo: se eu hoje investisse o dinheiro que o ativo vale, seria uma boa decisão de investimento fazer o que estou fazendo (esquecendo a questão da liquidez)? Friamente se a resposta for “não”, ele deveria se livrar do abacaxi.

Os prejuízos passados, afinal, são custo afundado e não custa lembrar que:

“𝐇𝐨𝐣𝐞 𝐞́ 𝐨 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐝𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐫𝐞𝐬𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐯𝐢𝐝𝐚𝐬.”

Essa frase eu vi pela primeira vez no filme de John Hughes de 1986, Pretty in Pink (A Garota de Rosa-Shocking, em português). Algumas fontes dão origem posterior a essa frase, mas eu vivi suficiente para saber que estas fontes estão erradas.

Na vida pública, saindo da esfera pessoal, a política também é um campo rico para exemplos práticos de dissonância cognitiva.

Aronson mostra que parte das pessoas está consciente disso mesmo sem ter estudado o tema.

O autor cita que Donald Trump, por exemplo, percebe claramente que a fidelidade de seus apoiadores mais fervorosos cria uma couraça protetora nos cérebros dos mesmos que as impedem que existam chances razoáveis delas mudarem de ideia, mesmo diante de fatos aparentemente incontestáveis.

Trump em 2018 (no Dordt College em Sioux Center) declarou de forma precisa, mas hiperbólica:

“𝐼 𝑐𝑜𝑢𝑙𝑑 𝑠𝑡𝑎𝑛𝑑 𝑖𝑛 𝑡ℎ𝑒 𝑚𝑖𝑑𝑑𝑙𝑒 𝑜𝑓 𝐹𝑖𝑓𝑡ℎ 𝐴𝑣𝑒𝑛𝑢𝑒 𝑎𝑛𝑑 𝑠ℎ𝑜𝑜𝑡 𝑠𝑜𝑚𝑒𝑏𝑜𝑑𝑦, 𝑎𝑛𝑑 𝐼 𝑤𝑜𝑢𝑙𝑑𝑛’𝑡 𝑙𝑜𝑠𝑒 𝑎𝑛𝑦 𝑣𝑜𝑡𝑒𝑟𝑠, 𝑂𝐾? 𝐼𝑡’𝑠, 𝑙𝑖𝑘𝑒, 𝑖𝑛𝑐𝑟𝑒𝑑𝑖𝑏𝑙𝑒.”

Em tradução livre: “Eu poderia ficar em pé no meio da Quinta Avenida, atirar em alguém e eu não perderia eleitores, ok? Isso é meio que inacreditável”.

E, de fato, é esse mecanismo, aqui reconhecido por Trump de forma divertida, é que torna as bolhas ideológicas muito difíceis de serem estouradas.

Os correligionários ficam todo tempo ligados no modo (viés) de confirmação e negação: fatos favoráveis reforçam suas crenças e fatos desfavoráveis são descartados, desqualificando o portador ou refutando-o in limine.

Isso vale para Trump, mas também para influenciadores potentes como Perón, Bolsonaro, Lula etc., independente dos seus méritos ou deméritos.

Grupismo

Dentre dezenas de tópicos fascinantes, o grupismo é algo muito atual em um mundo muito polarizado anabolizado por redes sociais, influencers e muito dinheiro, de todos os lados.

Interessantemente e infelizmente, o grupismo é um fator tão forte na sociedade humana, que diversas experiências em que se dividiu um grupo de pessoas em 2 grupos A e B de forma aleatória, para realizar certas disputas, tende a criar um laço entre os integrantes (“pertencimento”) do mesmo grupo, ao mesmo que uma visão negativa e sentimentos de animosidade vão se desenvolvendo contra os integrantes do outro grupo, que podem até escalar para episódios de agressão física e correlatos.

O primeiro experimento desse natureza foi o Robbers Cave, conduzido por Muzafer Sherif na década de 1950.

Nessa pesquisa clássica em psicologia social, um grupo de meninos foi dividido aleatoriamente em dois grupos, inicialmente sem conhecimento um do outro. Cada grupo passou por atividades de formação de grupo, desenvolvendo laços internos e identidades coletivas.

Em seguida, os dois grupos foram introduzidos um ao outro e incentivados a competir em várias tarefas. Essa competição levou a conflitos e hostilidades entre os grupos, mesmo que a divisão inicial tenha sido arbitrária. O interessante é que, ao longo do tempo, os grupos começaram a desenvolver estereótipos negativos uns sobre os outros e a exibir comportamentos discriminatórios.

Esse experimento destaca como a simples categorização em grupos, mesmo sem justificativa real para a competição, pode levar à formação de preconceitos e hostilidades entre eles. É um exemplo poderoso de como dinâmicas sociais podem influenciar o comportamento humano, mesmo quando as pessoas sabem que a divisão foi feita de maneira arbitrária.

Agora imagine isso trazido à vida real, sendo algo ruminado por meses e meses, até anos, ligando com um envolvimento emocional com um determinado político, que chega à escala do paroxismo.

Quase tudo envolve outras pessoas

Grande parte da vida envolve relações sociais. Estudos mostram que pessoas em solitárias, depois de algum tempo, passam quase a se achar não pessoas. Os elos, familiares e próximos, terminam sendo a grande base de uma vida real e proveitosa, para a grande maioria das pessoas, por mais que alguns tentem negar. Todos somos influenciados pelos outros, e pautamos boa parte da vida por isso. Mesmo o rebelde que se imagina independente tem a sua turma ou potencial cara-metade que ele deseja impressionar. Querer ser igual ou diferente, no fundo, são 2 faces da mesma moeda: os outros.

Em uma experiência mental imagine a seguinte situação: coloque 100 adultos que já tenham pelo menos 1 tatuagem em 100 ilhas desertas sem problemas de alimentação e abrigo, mas sem nenhuma perspectiva de sair da ilha. Todas as ilhas têm um equipamento para fazer autotatuagens e tutoriais.

Qual será o percentual de pessoas que faria uma nova tatuagem em certo período de tempo se não existisse ninguém a sua volta para ver o resultado?

É muito importante termos consciência vívida da pressão externa sobre nós, para podemos tentar nos descolar um pouco dessa teia e deixarmos nossa luz própria brilhar um pouco mais.

***

Capa em português da nova edição de “O Animal Social”

PS: Tirei a foto do livro e testei diversos removedores de fundo com IA. O único que funcionou bem foi PixelCut. As outras ferramentas fizerem um trabalho ruim, mesmo com intervenção manual. Note que foi um bom desafio porque as páginas do livro na base da imagem são de cor gelo, que estava perigosamente similar ao fundo sombreado.

Paulo Buchsbaum

Fui geofísico da Petrobras, depois fiz mestrado em Tecnologia na PUC-RJ, fui professor universitário da PUC e UFF, hoje sou consultor de negócios e já escrevi 3 livros: "Frases Geniais", "Do Bestial ao Genial" e um livro de administração: "Negócios S/A". Tenho o lance de exatas, mas me interesso e leio sobre quase tudo e tenho paixão por escrever, atirando em muitas direções.

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2 Comentários

  1. Paulo,
    Agradeço a indicação do livro. Gosto do tema e seu texto estimulou-me a compra-lo. Diferentemente de você, lerei-o no meio digital. Obrigado também pela indicação da IA mais adequada para para limpar o fundo da imagem. Aqui um estímulo para mim adentrar por esse caminho.
    Saúde e fique bem.
    William

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