Opinião

Um ensaio sobre a cegueira – científica, política e religiosa

Para usar um neologismo destes tempos de internet, “roubartilhei” o título do romance consagrado de José Saramago para comentar sobre alguns posicionamentos assumidos por “cientistas” e “religiosos” que têm me incomodado muito nos tempos recentes.

“A ciência não tem dois lados” – será?

A frase dita pela Dra. Natália Pasternak no palco/picadeiro do Gran Circus CPI da Covid, e tomada imediatamente como verdade absoluta por parte da plateia, já foi brilhantemente comentada aqui mesmo no Papo de Boteco pelo colega Paulo Buchsbaum (ver https://papodeboteco.net/opiniao-princ/natalia-pasternak-ciencia-nao-tem-2-lados/ ). Mas não custa ir um pouco mais longe no assunto. E vou contar um “causo” pessoal para ilustrar o meu raciocínio.

Prá quem não sabe, informo que concluí recentemente um mestrado em gestão ambiental. A experiência de voltar aos bancos escolares como aluno aos 65 anos de idade foi muito enriquecedora. E um dos melhores professores que tive foi o de Metodologia da Pesquisa – só não digo o nome dele porque não pedi autorização. Uma das ideias “fora da caixa” que usava era inventar que ele estava vendo um gnomo no canto da sala de aula. E que a obrigação de uma pesquisa séria era tentar desmentir (ou comprovar) a existência do gnomo. A partir daí ele desenvolvia toda uma aula sobre a elaboração de uma tese de mestrado; é necessário formular uma hipótese, ter a cabeça aberta para aceitar, discutir e, se for o caso, refutar os argumentos contrários, e finalmente chegar às conclusões, sempre entendendo que não temos a verdade absoluta, uma vez que pode ser que alguém, algum dia, com o uso de outras tecnologias ou métodos, prove que o gnomo existe (ou não). Em outras palavras, um bom pesquisador deve estar a serviço do conhecimento, e não da sua hipótese. Usando as palavras do Divino Mestre, ser pedra de construção, e não de tropeço (esta última linha foi acrescentada por mim).

Resumindo, a frase da Dra. Natália me parece muito mais uma declaração político-partidária do que uma afirmação científica; o objetivo é dizer que “quem apoia este genocida fdp é contra a ciência”. É certo que Bolsonaro é pródigo em declarações infelizes (para dizer o mínimo) não apenas sobre ciência, mas sobre todo e qualquer assunto, mas nada disto, na minha visão, justifica a posição arrogante de se dizer “porta-voz da ciência e da verdade”, uma espécie de Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade (obrigado, Glauber Rocha). E não me venham com comparações com o terraplanismo; todas as pessoas minimamente informadas sabem que Terraplanismo, Geocentrismo e Criacionismo, por exemplo, são hipóteses refutadas pela ciência há séculos, sobre as quais não cabe mais discussão. Agora, alardear que existem verdades definitivas sobre uma pandemia que começou há menos de dois anos, me parece totalmente precipitado; eu entendo que ainda temos muito mais perguntas do que respostas. Pouca ciência, muito oportunismo político.

A Religião é inimiga da Ciência – será?

Esta é outra afirmação recorrente nestes tempos conturbados. Já escrevi algo sobre o assunto aqui mesmo no Boteco (ver https://papodeboteco.net/opiniao-princ/quem-pode-falar-em-nome-de-deus/ ), mas não custa voltar ao tema, pela sua relevância.

Antes de mais nada é preciso separar dois conceitos; religião e seita. Religião vem do latim “religare”; é o que nos religa a Deus. E se Deus é amor, a religião é aquilo que nos torna divinos, amorosos, dispostos a acolher e aceitar o próximo, seja ele quem for. Já seita vem do latim “sectare”, mesma origem da palavra “seção”, ou seja; é aquilo que divide. Portanto, toda vez que alguém diz algo do tipo “quem pensa igual a mim é de Deus, quem não concorda é do demônio” não está exprimindo um pensamento religioso; está agindo como membro de uma seita.

Assim sendo, a verdadeira religião quer o aperfeiçoamento da ciência; já a seita se vê ameaçada por qualquer mudança, seja cientifica ou de costumes. Já que falei em Geocentrismo, o caso de Galileu Galilei é emblemático; um pesquisador tentando melhorar o conhecimento humano e sendo ameaçado de morte pela seita dominante. Bem a propósito, um ponto que deixa bem clara a distinção entre religião e seita é que a religião se preocupa com a espiritualidade, enquanto a seita adora o poder e a riqueza material… desde sempre.

Talvez a figura do cientista e professor universitário francês do século XIX Hipolyte Leon Denizard Rivali seja bastante expressiva neste imbróglio entre ciência e religião. Provavelmente você nunca ouviu falar neste nome, por isto vou usar o pseudônimo pelo qual ficou conhecido; Allan Kardec. Impressionado com a observação de fenômenos aparentemente “inexplicáveis” pelas leis da física, o cientista Kardec levantou uma hipótese; e se realmente existirem espíritos sob uma forma de energia ainda desconhecida? A partir daí fez todo um trabalho científico, que resultou no “Livro dos Espíritos” (desenvolvido com o rigor metodológico de uma autêntica pesquisa) e mais alguns que se seguiram. E a teoria reencarnatória (muito anterior a Kardec, diga-se) até hoje me parece a explicação mais razoável para as aparentes injustiças do mundo material onde, conforme cantou o imortal Tim Maia, “Um nasce prá sofrer, enquanto o outro ri”. Como explicar a justiça divina senão através de ônus e bônus adquiridos ao longo de muitas vidas? Tudo bem, a discussão fica em aberto e marcada para o próximo chope.

A hipótese levantada pelo cientista Kardec nunca foi confirmada, mas também nunca foi definitivamente refutada. Tanto é que muitas universidades de ponta do mundo até hoje pesquisam, sem qualquer preconceito, os fenômenos mediúnicos. Médiuns como Chico Xavier, Divaldo Franco, José Medrado e outros tiveram e têm seu trabalho analisado com rigor e método.  E, como deve sempre acontecer na boa ciência, existe gente “dos dois lados” pesquisando e tentando achar as respostas. Mais ou menos como no caso do gnomo de estimação do meu bem-humorado professor. Obviamente os filiados a algumas seitas preferem atribuir tudo isto a “coisas do demônio”, mas estes ainda estão fortemente contaminados pela cegueira ou, como cantou meu grande conterrâneo Lupicino Rodrigues, são os que “deixam o céu por escuro, e vão ao inferno à procura de luz”. Certamente Lupi está no céu, e só desce de vez em quando, para ver um jogo do Grêmio. Afinal, mesmo os bons espíritos precisam sofrer um pouquinho… Enfim, chega de papo furado e vamos em frente.

Na ciência como na religião, até os melhores podem se perder no caminho…

Falando nos médiuns brasileiros, não dá para esquecer o mau exemplo de João de Deus. É interessante notar que suas curas inacreditáveis são objeto de estudos até hoje; infelizmente, o homem João não era muito de Deus, e acabou cometendo crimes pelos quais foi julgado e merecidamente condenado. Vale lembrar que esta falta de ética também pode atacar gente da ciência; o dr. Roger Abdelmassih era um dos mais respeitados especialistas em reprodução humana do Brasil até que se descobriu que o seu comportamento pessoal era mais de um monstro que de um médico. Enfim, o ser humano é falível. Sempre.

Fé cega, faca amolada – aí é que mora o perigo

Tomando emprestado o verso imortalizado por Milton Nascimento, minha conclusão é que vivemos uma epidemia de cegueira, como no romance de Saramago. E esta cegueira (que parece ser fortemente contagiosa), tem gerado efeitos colaterais perversos, como perda total de empatia, incitação ao ódio e à violência e vários outros.

E quando a fé se torna cega, as adagas são amoladas, sedentas do sangue dos infiéis. O ódio destila na Internet, e se desdobra em ações que vão desde os grandes atos de terrorismo até os pequenos (?) conflitos do dia a dia; amizades rompidas, lacrações, gritarias e gestos sem sentido. Em um ambiente já problemático por conta da outra epidemia existente, o caos está logo ali.

A solução é a busca da racionalidade e do respeito ao outro. Por mais que a treva pareça triunfante, é preciso que as pessoas de boa vontade sejam pontos de luz nesta escuridão. Ainda prefiro lembrar os versos de Aldir Blanc e “acreditar, na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite”. O coronavírus será vencido, e a cegueira também. Vamos sair desta, tenho certeza. Com a ajuda da boa ciência e da boa religião.

Que Deus nos ilumine.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 69 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e um blog www.causosdoherve.blogspot.com. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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Um Comentário

  1. Ótimo texto que nos leva para diferentes lugares e reflexões. A verdade é que dogmas, verdades absolutas, conceitos fixos engessam nossa alma. Ter a abertura de mudar de ideia e explorar outras áreas, expande nossos horizontes e nos faz verdadeiramente livres.

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