Esporte

O karma da seleção inglesa deve ter alguma explicação…

O conceito de “Karma”, presente em várias religiões reencarnistas, significa, basicamente, pagar por erros do passado. Nunca simpatizei muito com isto, porque entendo que as palavras “culpa” e “castigo” não fazem parte do idioma de Deus (um tal de Jesus Cristo, certamente um cara bem melhor que eu, orientava a perdoar o irmão que errou e usava sempre a frase “vá e não peques mais”. Resumindo, culpa é querer vingar o passado (ódio), perdão é ser amigo daqui prá frente (amor). Mas é melhor parar por aqui. O assunto é futebol).

Inventores do esporte e, na época, a nação mais poderosa do mundo, os ingleses nunca aceitaram a criação da FIFA (sob o comando de um francês, Jules Rimet) e boicotaram as três primeiras Copas do Mundo, deixando implícito que não iam concorrer com times muito inferiores ao deles (aconteceu algo parecido com o Brasil e o futebol de salão, inventado aqui e dominado pela gente durante muito tempo. Só que o Brasil nunca deixou de competir).

Passada a guerra, os ingleses resolveram baixar a crista e vir disputar o Mundial de 1950, no Brasil. Chegaram como favoritos, a equipe a ser vencida. Logo na estreia (seu primeiro jogo na história das Copas!), protagonizaram um dos maiores vexames da história do futebol, perdendo de 1×0 para os amadores dos Estados Unidos. O gol da vitória foi feito por um garçom. E o goleiro americano fechou o gol. Há vídeos deste jogo no YouTube.

Na continuação da fase de grupos, perderam também para os espanhóis, que acabaram se classificando para o turno final, onde o Uruguai conquistou o título em cima do Brasil.

Podiam ter aprendido, mas preferiram manter a empáfia e garantir que nunca haviam perdido um jogo em Wembley, seu templo sagrado. Até que em 1953, num amistoso, foram atropelados pela Hungria de Puskas, um 6×3 sem deixar dúvidas. Também há vídeos deste jogo no Youtube.

Participaram sem brilho das copas seguintes, até que, em 1966, sediaram o evento. Montaram uma ótima equipe, é fato, mas, por menos que eu goste de teorias conspiratórias, houve casos de “apito amigo” em pelo menos três jogos importantes; a expulsão do argentino Rattin, nas quartas de final, um pênalti não marcado para Portugal, na semi, e o vexame do gol que não entrou e foi decisivo para a vitória na final contra os alemães, discutido até hoje.

Acho que foi ali que os deuses do futebol que, assim como os do Olimpo, não têm a capacidade de perdoar que caracteriza o Deus cristão, resolveram condenar a torcida inglesa a um sofrimento que parece que nunca vai ter fim.

No mundial seguinte, em 1970, fizeram um jogo duro com o Brasil, mas perderam de 1×0. Nas quartas de final, lhes coube reencontrar os mesmos alemães sacaneados na copa anterior. A vingança dos deuses teve requintes de crueldade; o goleiro Banks, o melhor do mundo, foi acometido do “Mal de Montezuma” (diarreia incontrolável), e as falhas de seu substituto, um tal de Bonneti, contribuíram decisivamente para a virada alemã (3×2, na prorrogação), depois da Inglaterra abrir 2×0 e dominar a maior parte do jogo.

Outro goleiro, o polonês Tomazewski, segurou um empate heroico em Wembley, na fase de classificação, e a Inglaterra ficou fora da Copa seguinte, em 1974. Diga-se que o time da Polônia era muito bom, tanto que foi terceiro colocado, ganhando do Brasil na decisão.

De lá para cá é preciso reconhecer que gerações de ingleses fizeram um esforço exemplar de renovação no futebol, dentro e fora do campo, que merece os aplausos de todos.

O combate sistemático e firme aos hooligans, torcedores violentos, racistas e homofóbicos que faziam a vergonha do país nas competições internacionais, e o esforço pela valorização do espetáculo fizeram da Liga Inglesa a mais forte do mundo. O fenômeno e seus reflexos sociais são descritos magnificamente por Franklin Foer, em seu livro “Como o futebol explica o mundo”. Recomendo a leitura até para quem não liga muito prá futebol.

Até dentro do campo o futebol inglês mudou para melhor; a importação maciça do pé-de-obra altamente qualificado de latinos e africanos fez com que o futebol da seleção inglesa, antes caracterizado pela falta de criatividade, se tornasse vistoso e bonito de assistir.

Na última Eurocopa, finalmente pareceu que o karma teria fim. Apresentando o melhor futebol da competição, os ingleses chegaram à final contra os italianos. Abriram 1×0, levaram o empate e, nos pênaltis, chegaram a ter 2×1, mas perderam os três últimos. Tudo isto em Wembley. Os deuses do futebol são cruéis…

O sofrimento ensina, mas nem sempre. Por mais ridículo que possa parecer, não passou despercebido a parte da população o fato de que os dois primeiros pênaltis foram convertidos por jogadores brancos (Kane e McGuire) e os três últimos desperdiçados por negros (Rashford, Sancho e Saka). O assunto rendeu nas redes sociais durante algum tempo. Nenhuma pessoa normal, no século XXI, pode aceitar uma argumentação destas, mas… ainda existe gente que não saiu do Neanderthal. Acredito que o assunto chegou aos ouvidos dos deuses do futebol, que sabem ser malvados, conforme já vimos. E eles resolveram fazer “justiça”. À sua maneira; fria e vingativa.

Ontem, a Inglaterra perdia por 2×1 para o grande time francês, mesmo dominando o jogo, quando surgiu a chance do empate num pênalti. E o herói Harry Kane isolou, como fez o herói Baggio na final de 94 contra a gente, como perdeu o herói Zico em 1986. Porque os deuses do futebol não são justos. Talvez seja isto que torne o futebol tão fascinante.

De qualquer forma, o caminho inglês está correto. Não há mal que sempre dure. Um dia vencerão. E heróis serão sempre heróis, por mais que percam pênaltis decisivos. “Assim caminha a Humanidade, a passos de formiga e sem vontade”, conforme profetizou o grande Lulu Santos. O importante é que continua caminhando para a frente.

Parafraseando o grande filósofo Ibrahim Sued, os cães racistas ladram, mas a caravana do futebol passa…

E vida que segue.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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