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Covid-19: histórias movem as pessoas.

As pessoas adoram histórias.

Elas se sobrepõem muitas vezes a qualquer lógica ou estatística.

O marketing gosta de histórias

A galera de Marketing sabe há muito tempo o valor das histórias (storytelling).

Mesclar tópicos de qualidades de um produto com apelos emocionais são itens importantes para destacar em campanhas. Quando isso é incorporado dentro de uma história bem urdida, pode funcionar como uma liga que torna o produto ainda mais atraente, além de aumentar o recall.

Ao saborear um pedaço de panetone da Bauducco, você pode vir a ler a história da família italiana que desembarcou no Brasil com a receita de panetone da família nas mãos. Quer ela seja verdadeira ou inventada, o panetone parece ainda mais “gostoso”…

O poder das histórias é tão grande que, mesmo quando ele sequer fala da marca, pode ter um poder impactante, ajudando a projetar a imagem de uma empresa. Esse é o caso, por exemplo, do belíssimo e emocionante vídeo viral da Dove intitulado “Você é mais bonita do que pensa”.

A história da história desse comercial brasileiro da Dove de 2013, vencedor do Prêmio de Cannes de 2013, com mais de 160 milhões de visualizações e traduzida para 25 línguas, é contada aqui.

Relatos impactam mais que números

Digamos que alguém lê um texto seco que diz simplesmente que esse ano já teve 20 assaltos a residências no seu bairro contra 24 no mesmo período do ano passado. Isso passa batido e logo o leitor pula para a seção de politica ou esportes.

Agora se o porteiro conta para a mesma pessoa sobre um assalto à residência em um condomínio próximo, o morador fica apavorado e pensa logo o que deve fazer diante de um risco iminente.

Histórias e crenças se reforçam mutuamente

Para a maioria das pessoas não adianta apresentar estatísticas, o que interessa são histórias particulares: pessoais, com amigos, conhecidos etc. Ou então relatos vagos, sem confirmação.

Essa história, em geral, ganha mais força se ela rema a favor de suas crenças anteriores.

Essa confirmação adicional, que reforça o que você já pensa, faz parte do viés da confirmação. Nós tendemos a concordar com qualquer evidência que surja, se ela favorecer o que acreditamos.

Isso vale até para as coisas mais corriqueiras.

Se você está com pressa, parece que a rua está repleta de motoristas de roda presa. Se você está dirigindo devagar em um lugar turístico, a rua está cheia de corredores de Fórmula 1, porque são esses os carros que estão “atrapalhando” seus objetivos momentâneos.

Homeopatia é o grande exemplo do poder das histórias

A Homeopatia surgiu no final do século XVIII nas mãos solitárias do médico alemão Samuel Hahnemann (1775-1843) que criou a frase em latim: similia similibus curentur (semelhante cura semelhante).

A homeopatia ganhou larga expressão no mundo moderno, atingindo seu ápice no século XIX, depois entrou em decadência, mas teve um vigoroso ressurgimento nos anos 1970 com as tendências místicas de então, embora no século XXI voltou a perder parte de seu prestígio.

A homeopatia baseia-se largamente em diluições sucessivas (as dinamizações) pela agitação de certas substâncias em substrato líquido (água, álcool, glicerina) ou sólido, em geral, na proporção 1:100. `Por vezes, o processo é repetido tantas vezes, que não resta matematicamente nenhuma molécula do “princípio ativo”, mas fica, segundo seus defensores, a “energia” do balanço.

vários estudos grandes feitos em numerosos países que não encontraram nenhum vestígio de evidência de algum efetivo poder curativo das técnicas homeopáticas.

Com tudo isso, existem ainda vários cursos de doutorado em homeopatia pelo mundo. Por exemplo, veja aqui a relação de alguns programas de PhD na Índia.

Qual a explicação possível para uma “ciência”, que surgiu a partir de cabeça de uma única pessoa, ganhar tanto corpo, fora o mérito de comunicação dos profissionais e das associações de Homeopatia e do “charme” junto com certas tintas exotéricas da prática em si?

Na ausência de pesquisas comprobatórias e sem vieses, o grande trunfo foi o boca-a-boca das pessoas que se imaginam curadas pela prática, mesmo antes do tempo da Internet: “eu curei”, “meu filho curou”, “minha tia se curou” etc.

Se a homeopatia não tem real efeito curativo, como é possível que tantos relatos favoráveis continuem chegando?

Há 6 explicações que me vem à mente:

a) Efeito placebo – O paciente, que imagina estar sendo tratado, apresenta, por vezes, uma melhora real, mesmo que o fármaco seja água pura. Isso já foi comprovado em muitos respeitáveis estudos.

b) Tempo – O tempo cura ou atenua muitos males, mesmo sem qualquer medicamento. Covid-19, resfriado, gripe e dor de cabeça são apenas alguns exemplos.

Por exemplo, asma infantil é um mal que acomete muitas crianças, que, em muito casos, é totalmente autolimitada, apresentando cura espontânea com a idade. Como muitas crianças são levadas a homeopatas, a homeopatia é vendido como algo que traz uma melhora lenta; se a criança deixa de ter crises asmáticas, é comum que os pais atribuam isso à homeopatia e não ao fim espontâneo da doença.

c) Falácia da falsa causalidade – Se 2 coisas acontecem ao mesmo tempo, não necessariamente uma é causa da outra. Por exemplo, o consumo de sorvete e afogamentos aumentam em uma época do ano. Isso não quer dizer que o maior consumo de sorvete aumenta os afogamentos. E nem que mais episódios de afogamento levam a uma elevação do consumo de sorvetes. Na verdade, o verão e o calor trazem mais pessoas à praia e, com isso, os afogamentos e a venda de sorvetes são incrementadas.

Digamos que a criança tinha asma infantil e usava homeopatia. Se a asma se vai, isso significa que a homeopatia é que a curou? Repare que se trocarmos homeopatia por dança de salão, mudará apenas o “herói”.

d) Viés de confirmação – Toda pessoa “curada” pela homeopatia ajuda a reforçar a crença e toda pessoa não curada, “não era para ser”. Para quem acredita, se o paciente está usando homeopatia e o remédio A, e ele fica bom, foi a homeopatia. Se ele não melhora, o remédio A é que foi o empecilho.

e) Dissonância Cognitiva – Para quem já investiu muito na crença pela homeopatia, é muito difícil deixar de acreditar, pois ele se sentiria um idiota por usar algo tanto tempo nele ou nos seus filhos, se tal uso foi simplesmente em vão. E ninguém quer se sentir um tolo, assim é melhor seguir acreditando.

f) Viés ideológico – tomar remédios homeopáticos é a libertação, a custo menor, contra caríssimos remédios e tratamentos do “big pharma”. Com homeopatia, você fica bem sem ajudar o capitalismo e ainda usa produtos que não envolvam experiências com animais. É possível se curar apenas tomando, por exemplo, sal (Natrum muriaticum) em água, desde que diluído e sacudido pelas vezes que for necessário.

Histórias contra as vacinas da Covid-19 (*1)

Na falta de estudos que comprovem de forma fidedigna que as vacinas não funcionam contra a Covid-19 ou que elas causem efeitos adversos importantes em uma fração não desprezível de vacinados, o que sobra para os céticos das vacinas da Covid-19?

Histórias. Sim, as boas e velhas histórias.

Para alguns, na guerra contra a vacina da Covid-19, vale tudo: histórias, relatos, causos; além de reclames aleatórios de cientistas, em geral com uma vasta história de “polêmicas”.

Se olharmos a lista de explicação do porquê de crenças infundadas, , todos os itens a partir de c podem ser úteis para entender o que está acontecendo.

No caso do viés ideológico, temos aí a mesma distorção, mas com sinal trocado: o viés ideológico de esquerda é substituído pelo viés ideológico de direita, tendo em comum o mesmo vilão: o “big pharma”.

Vacinas da Covid-19 em geral

O que eu acho interessante é que aqueles que acham que a vacina da Covid-19 é a porta da morte ou de gravíssimos efeitos colaterais, devo dizer que nunca foi feito um estudo, em tempo real, de porte tão gigantesco:

No mundo já foram administradas 9,92 bilhões de doses de vacina de Covid-19 em 184 países e não vejo as pessoas morrendo por aí que nem moscas. Até ocorreram óbitos isolados, mas têm sido extremamente raro (*2) .

Na União Europeia foram aplicadas 769 milhões de doses, sendo 551 milhões da Pfizer. Nos EUA foram 533 milhões, sendo 313 milhões da Pfizer.

Pouquíssimas mortes no mundo ligadas à vacina foram comprovadas. Por outro lado, desde janeiro de 2021, já morreram 3,7 milhões de pessoas de Covid-19.

Gráficos mostrados aqui e ali deveriam gritar para os céticos, mas casos individuais, muitos advindo de boatos, é o que importa para eles.

Ah, mas o efeito é de longo prazo. Ué, mas teve muitos que tomaram vacina há mais de 1 ano (desde dezembro de 2020): já não era para as pessoas estarem indo dessa para a melhor?

O material usado na vacina (vírus inativado, RNA-m) tem vida muito curta no organismo. Depois só resta o legado no nosso próprio sistema imunológico. Então como é que pode um mal gigantesco ficar incubado e depois eclodir como fogos de artifícios. Alguma magia oculta do universo? Ou algum misterioso mecanismo similar à homeopatia que tem o potencial de causar consequências deletérias mesmo sem nada material presente.

Episódio em Lençóis Paulista (SP)

alguns dias teve um caso de uma criança de 10 anos com parada cardíaca em Lençóis Paulista-SP, a partir da aplicação de uma dose da vacina pediátrica da Pfizer para Covid-19.

Inicialmente, a prefeitura suspendeu a vacina por 1 semana até as investigações serem concluídas. Nesse momento, 46 crianças vacinadas estão sendo acompanhadas.

No final, mais de 10 especialistas concluíram que a criança, que passa bem, tem um síndrome rara e grave e que o fato ocorrido não tem relação com a vacina.

Sinceramente, depois de tantas doses pediátricas aplicadas na Europa e nos EUA, não vejo como possível o Brasil descobrir esse tipo de efeito adverso da vacina. Qualquer problema de armazenagem ou temperatura só tornaria a vacina inerte e não um veneno.

Muitos daqueles que militam contra vacinas de Covid-19, imediatamente após essa situação se tornar pública, postaram triunfantes, como se a vacina da malvadona da Pfizer fosse certamente a assassina.

Vacina da Pfizer em crianças

Não há estatísticas disponíveis do status da vacinação em crianças pela Pfizer, mas só na Espanha foram aplicadas 1,2 milhões de doses e até agora nenhum problema sério for reportado.

A bem da verdade, nenhuma morte em crianças associada a qualquer vacina da Covid-19 foi comprovada até agora no mundo, apesar de afirmações sensacionalistas que saem por aí, lembrando que a AstraZêneca não está autorizada para crianças.

Nos EUA já morreram 771 crianças de Covid-19 e apenas 9 por causa da vacina, sendo que nenhuma delas era criança.

Ninguém parou para pensar porque uma criança de 12 anos pode tomar vacina e uma criança de 8 anos não pode? Lógico que tem que estudar e dar uma calibrada na dosagem etc, mas, em geral, no caso de vacinas, não é algo de outro mundo.

Vacinas não são corpos estranhos no organismo como um remédio. Afinal, elas representam, de algum forma, o mal que querem evitar, só que de forma bem atenuada.

Se os antivacinas de Covid-19, presente nas redes sociais de hoje, estivessem ativos há algumas décadas e descobrissem que existem até casos de morte, ainda que raríssimos, ligado à inofensiva vacina tríplice (sarampo-caxumba-rubéola), que também não é 100% eficaz, iniciaram, quem sabe, uma campanha cerrada contra a vacinação infantil.

Casos particulares devem ser desconsiderados?

Claro que não. Eles, por vezes, são reais. E, nesse caso, para os envolvidos a estatística passa a ser até de 100%.

Por exemplo, a vacina da Pfizer (a também a Moderna) causa raríssimas mortes por miocardite/pericardite. Esses males são um desdobramento bem raro, mas possível da proteína spike produzida a partir do RNAm da vacina, que também são causados, com muito mais frequência, pela Covid-19, já que a proteína existe no vírus.

Por que diabos uma vacina pede para as células produziram um proteína como essa? Justamente para estimular o organismo a gerar a defesa contra algo que existe no vírus real.

O que não é aceitável usar esses causos para formar uma tese científica. A ciência não funciona assim.

✻✻✻

Agora em 20 de janeiro, a ANVISA aprovou o uso infantil da vacina da Coronavac. O curioso é que, mesmo na quase absoluta ausência de efeitos colaterais relevantes (uma vez que a vacina emprega a tradicional tecnologia de inativar o vírus ou bactéria da própria doença), ela foi alvo de protestos e ameaças de certos grupos.

Epílogo

Como reiterado acima, o artigo não tenta diminuir o valor e o brilho das histórias, apenas dar a César o que é de César.

Histórias são uma excelente ferramenta didática no ensino, na comunicação e no marketing.

É um recurso muito instrutivo e que entretém em diferentes circunstâncias, atuando como um importante elemento motivacional.

Usado para ilustrar conceitos e teorias serve a um nobre propósito de tornar o conteúdo menos árido e mais palpitante.

O erro comum é achar que um conjunto de histórias possa nortear a busca da verdade, em um mundo com bilhões de pessoas.

(*1) No caso da ômicron, não sabemos ainda muito: nem da doença (parece bem menos grave, mas muito mais transmissível), nem da vacina (parecem relativamente ineficientes, a princípio, com alguma evidência de induzirem uma chance mais baixa de evoluir mal).

A maior ameaça que paira é o vírus ômicron gerar mutações para uma forma igualmente muito transmissível, mas mais letal, sem que as atuais vacinas consigam segurar. Não acho que isto seja o cenário mais provável e as empresas têm trabalhado para aperfeiçoar as vacinas.

(*2) De todas as vacinas, a AstraZeneca e a J&J, baseadas no adenovírus inativado, mesmo que ainda bastante seguras, são as mais problemáticas.

No Reino Unido, berço da AstraZeneca, houve 73 mortes em mais de 50 milhões de doses aplicadas (1,4 por milhão).

Paulo Buchsbaum

Fui geofísico da Petrobras, depois fiz mestrado em Tecnologia na PUC-RJ, fui professor universitário da PUC e UFF, hoje sou consultor de negócios e já escrevi 3 livros: "Frases Geniais", "Do Bestial ao Genial" e um livro de administração: "Negócios S/A". Tenho o lance de exatas, mas me interesso e leio sobre quase tudo e tenho paixão por escrever, atirando em muitas direções.

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