Opinião

Escolhas

O Estadão sempre publica dois artigos de opinião escritos por convidados. Normalmente não há relação entre os dois, mas, de vez em quando, uma feliz coincidência (ou não, precisaria perguntar para quem selecionou os textos) coloca lado a lado artigos que ilustram o mesmo problema de ângulos diferentes. É o que temos hoje.

De um lado, um belga radicado no Brasil há mais de 20 anos lamenta que as potencialidades do Brasil não sejam exploradas para o enriquecimento do povo. De outro, o ex-embaixador Rubens Barbosa lamenta a decisão do governo Lula de interromper o processo de entrada do Brasil na OCDE. Como pano de fundo, temos recente reportagem do Estadão, constatando que a nossa renda per capita cresce menos que a média mundial há mais de 40 anos, e hoje essa renda está abaixo da média global. Em resumo: há 40 anos éramos mais ricos que a média, hoje somos mais pobres.

O belga Christian Hunt atribui o fato às “escolhas” do povo. Rubens Barbosa lamenta uma escolha do governo do PT. Em ambos os casos, trata-se de colocar o nosso destino não no azar, não na ação de forças alienígenas maléficas, mas na livre deliberação do povo e de suas elites.

Para ficar em um exemplo, vejamos o caso da lei que pretende tornar artificialmente mais cara a hora trabalhada, a lei do 6×1. Qualquer aluno de economia aprende em Micro 101 que tornar mais caro um fator de produção fará com que a produção tenha um ajuste para baixo, seja porque esse reajuste será repassado para o preço do produto, reduzindo a demanda, seja porque a oferta será reduzida, pela inviabilização econômica da produção. Mas a discussão se dá em ano eleitoral, e os representantes escolhidos pelo povo querem ser escolhidos novamente este ano. Como diz o belga, são escolhas do povo pela pobreza. No caso, a escolha por trabalhar menos, não mais.

Christian Hunt é um otimista. Ele acha que, em determinado momento, o povo brasileiro poderá fazer escolhas diferentes, levando o Brasil a, finalmente, desenvolver o seu grande potencial. Bem, a julgar pelos dois líderes das pesquisas eleitorais deste ano para a presidência, talvez fosse melhor o belga puxar um banquinho.

Marcelo Guterman

Engenheiro que virou suco no mercado financeiro, tem mestrado em Economia e foi professor do MBA de finanças do IBMEC. Suas áreas de interesse são economia, história e, claro, política, onde tudo se decide. Foi convidado a participar deste espaço por compartilhar suas mal traçadas linhas no Facebook, o que, sabe-se lá por qual misteriosa razão, chamou a atenção do organizador do blog.

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