Opinião

A estranha história de um povo que não sabe fazer escolhas… ou não

“Brasileiro não sabe votar” (Pelé, o Rei)

Em meados de 2010, eu estava quase me aposentando na Petrobras, quando fui obrigado a assistir a uma palestra sobre o marco regulatório do Pré-sal. O palestrante, conhecido meu, era uma das estrelas petistas da empresa. Vale lembrar que estávamos em pleno auge do “milagre econômico” do PT, e a ordem era manter a euforia para eleger a Dilma. Eu, que já tinha vivido o “milagre” dos militares nos anos 70 e sabia como isto tudo acabava, mantinha meu ceticismo sobre o tema (infelizmente, o futuro mostrou que eu estava certo. Depois do porre vem a ressaca, já dizia meu avô alemão).

A palavra foi aberta ao público (umas cinquenta pessoas, se tanto), e eu lá, meio dormindo, torcendo pra aquela merda acabar logo, porque tinha trabalho me esperando. Só que a intervenção de um cara do sindicato me tirou do estado letárgico em que eu estava. Lembrando que era ano eleitoral, o sujeito disse algo do tipo “hoje temos um governo que é amigo do povo (leia-se Lula). É importante continuar elegendo amigos do povo”. O engraçado é que eu conhecia o tal sindicalista havia muito tempo, mas não poupei. Pedi a palavra e entrei logo com as travas da chuteira no joelho dele; “Fulano, até onde sei sempre lutamos pela democracia porque ela permite que o povo escolha seus representantes. Que história é esta de “amigos do povo”? Quem vai determinar quem pode ou não ser eleito? Você? Eu?”.

Confesso que fui até meio grosseiro, coisa que não é do meu jeito, mas não aguentei. Depois até pedi desculpas pra ele. É claro que minha intervenção causou um certo mal-estar, afinal era uma reunião de petistas-raiz, e num ambiente destes não é de bom tom apresentar opiniões contrárias, principalmente quando são racionais e bem fundamentadas. Me deixaram de lado, a reunião acabou, e a vida seguiu. Mas a história que “precisamos impedir que o povo escolha livremente” nunca saiu da minha cabeça.

“Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais iguais que os outros” (George Orwell, em “A Revolução dos Bichos”)

Desenvolvendo o raciocínio, se pegarmos como exemplo Fidel Castro, o ícone máximo da esquerda latino-americana, a ideia que ele seguiu foi exatamente esta. Depois que tomou o poder, deixou sempre claro que o único “amigo do povo cubano” era ele; quem ousou pensar diferente, ou foi fuzilado ou fugiu. Simples assim. Tenho certeza de que os Lulistas teriam prazer em mandar Sérgio Moro e Bolsonaro para “El paredón”, junto com todos os seus eleitores e simpatizantes. E, prá que ninguém diga que eu só peguei pesado com a esquerda, a descrição acima vale para Pinochet, Médici, ou qualquer ditadorzinho de direita (e seus simpatizantes, incluindo Bolsonaro). Tudo farinha do mesmo saco.

E sempre digo que admiro Jesus Cristo, entre outras coisas, porque foi um grande democrata. Pra quem não sabe, Cristo disputou uma única eleição e perdeu para Barrabás (que, provavelmente, era apoiado pela Globo, ou algo parecido). Mesmo com todos os poderes que tinha, não deu golpe e preferiu aceitar a derrota, mesmo lhe custando a vida. E não chamou o povo que votou contra ele de “gado imbecil”; preferiu pedir o perdão para eles. Prá não perder a piada, tenho certeza de que, num último suspiro, deve ter dito para seus companheiros de cruz (dois ladrões que, provavelmente, não tinham dinheiro pra entrar com recursos no STF); “Sabe este papo de ‘vox Populi, vox Dei’? É pura mentira!”. Tudo bem, foi só uma concessão ao meu lado “humorista de quinta série” que não me larga. Segue o jogo.

Na democracia, o povo vota em quem quiser. Mas tem gente que não aceita isto

O problema para os “radicais” (sejam de esquerda ou direita, tanto faz), começa quando a maioria do povo, democraticamente, escolhe alguém que não é do gosto deles. Um “inimigo do povo”. É meio contraditória a ideia que o povo escolheu um inimigo do povo, mas o raciocínio de quem entende que Fidel é Deus e Lula o seu profeta é mais ou menos por aí. Sem saber lidar com o contraditório, o mesmo povo que um dia já foi chamado para lutar contra a ditadura com versos inspirados como “somos todos iguais, braços dados ou não”, agora virou “gado imbecil”. Enfim conforme diz um velho ditado, se quiser conhecer o pior de alguém dê poder a ele. Lula e o PT tiveram o poder durante 13 anos. Deu no que deu. Talvez o problema seja com o número 13… Desculpem, mais uma de quinta série. Eu não resisto.

O fato é que tudo o que acontece hoje, desde a perseguição explicita da maior parte da mídia ao Presidente eleito até a insistência do STF em se colocar como “Poder paralelo” e não moderador, se deve à crença que o povo, este bando de manés, fez merda e votou no candidato errado. Já que se fala tanto em fraude nas urnas eletrônicas, talvez seja conveniente instalar um dispositivo que dê um choque elétrico no dedo do eleitor que digitar qualquer número diferente de 13, e mande ele repetir o voto até acertar. Não deve ser muito difícil, tecnicamente. Além do choque pode acionar um barulho de peido bem alto, pro sujeito passar vergonha. Só assim esta gentalha aprende a votar nos amigos do povo. Quinta série, de novo. Sou um caso perdido.

Vejam bem, não estou defendendo Bolsonaro. Votei nele no segundo turno em 2018 e não me arrependo (votaria até em Satanás contra o PT), mas entendo que agora vivemos um outro momento, em que é preciso ser mais seletivo. E me parece que atitudes como estas, de querer corrigir e tutelar o povo, são claramente antidemocráticas e não ajudam em nada. Pelo contrário; tornam o “Mito” mais mito ainda, por aparecer como vítima de uma perseguição sistemática (que, infelizmente, é real).

Minha conclusão, simples, é que esta postura arrogante da esquerda de “porta-voz única dos desejos do povo” sempre se volta contra ela. Já toquei no assunto em outros posts (ver, por exemplo, https://papodeboteco.net/opiniao-princ/o-pobre-e-de-direita-porque-a-esquerda-nao-quer-saber-dele/ ), mas parece que os caras não conseguem mudar. E continuam batendo em teclas podres, como vender Lula como “o melhor presidente que o Brasil já teve”, “a Santa Criatura vítima de um complô”, “o amigão do povo” e outras besteiras, que não convencem mais nem o mais pateta dos Três Patetas. Afinal um cara que quebrou o país, deixou um legado de 14 milhões de desempregados e comandou um esquema de corrupção sem precedentes não é o melhor amigo do povo. Certamente.

Da mesma forma, um sujeito como Bolsonaro, que vendeu a alma ao diabo (ou ao Centrão, o que é mais ou menos a mesma coisa) para salvar a pele dos filhotes atolados em falcatruas, faz propaganda contra as vacinas e acusa fraudes eleitorais sem a menor prova não merece continuar no cargo que ocupa. Mais um que teve o poder na mão e só usou prá fazer besteiras. Não é possível que não exista alguém melhor que ele (e que não seja o Lula, por favor!).

Enfim, diria Cazuza, ainda estão rolando os dados. Espero que o povo tenha a sabedoria de fazer boas escolhas, e entender que não precisa de Mitos nem de Santas Criaturas, e sim de disciplina, estudo e disposição para trabalhar. E mesmo que a maioria decida contra a minha vontade, escolhendo um destes dois tristes personagens para nos governar pelos próximos quatro anos, vou continuar minha vidinha de septuagenário, dando minhas aulinhas e palestras, escrevendo meus textos sem saber se alguém vai ler (como diria poeticamente minha talentosa conterrânea Adriana Calcanhoto, escrevo longas cartas prá ninguém), e brincando com meus netinhos nas horas vagas, tudo isto enquanto a cabeça ainda estiver funcionando (acredito que ainda esteja. Mais ou menos…).

Porque acima de tudo e de todos está a vontade soberana da maioria. Que sigamos o exemplo do Divino Mestre e a respeitemos, mesmo quando é contra nós. Sem ódio no coração.

Que Deus nos ilumine.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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