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Any Given Sunday

No tênis, como na vida ...

“Eram 3, mas agora Rafa está sozinho…” Rafael Nadal, 35 anos, entrou para a história, de novo, às 00:54 da madrugada do dia 31 de janeiro de 2022 (horário de Melbourne), quando venceu o russo Daniil Medvedev, 25, na partida final do Australian Open, de virada por 3 sets a 2, após intermináveis 5h24min de um tênis de altíssimo nível técnico.

Com a conquista de seu 21º título de um torneio de Grand Slam, se isolou como o maior vencedor da história, desempatando o pódio que dividia com Roger Federer, 40, e Novak Djokovic, 34.

O espanhol é detentor de vários recordes no tênis, mas gostaria de chamar a atenção para os relacionados à Longevidade e Consistência. A primeira conquista de Grand Slam da sua lista de 21 foi Roland Garros em 2005, aos 19 anos. Seu título anterior na Australia tinha sido há 13 anos, em 2009. Foi o tenista mais novo a completar o Career Grand Slam, ao vencer o US Open em 2010, aos 24 anos. Detém os recordes de ter ganho ao menos 1 torneio de Grand Slam em 15 anos diferentes e ter completado todas as 17 temporadas de sua carreira no Top 10 do ranking da ATP.

Longevidade e Consistência

Meu primeiro contato com uma partida de tênis foi no dia 2 de julho de 1977, e foram justamente estas 2 características, localizadas em uma única partida, que despertou minha atenção e fez eu me fascinar pelo esporte.

Era um domingo qualquer, eu estava na casa de meus tios, acordamos tarde e estávamos tomando café, com a TV ligada. Mudando de canal, aleatoriamente, surgiu uma imagem inédita para mim: uma quadra de tênis de grama, um jogador de cada lado, ambos vestidos todo de branco. Era a final de Wimbledon, entre o sueco Bjorn Borg, atual campeão, e o norte-americano Jimmy Connors.

Tudo para mim era novidade: apenas 2 jogadores, a dinâmica do jogo, os golpes de backhand com duas mãos, a raquete de aço de Connors, a testeira para segurar o cabelo comprido de Borg.

Encarei como algo exótico, mas não a ponto de desistir do plano que eu e meu primo tínhamos para aquela manhã: ir andar de bicicleta no Ibirapuera. Largamos a TV, pegamos as Caloi e fomos pro parque.

Voltamos horas depois, 2 moleques cansados pelo sol de inverno em São Paulo, morrendo de fome, entramos em casa, TV continuava ligada e, surpresa: Borg e Connors AINDA estavam jogando!

Como assim, tio? Quanto tempo dura um jogo de tênis? Não é 90 minutos, que nem futebol? Como eles aguentam ficar jogando tanto tempo?

Meu tio, pacientemente, explicou toda a complexidade da contagem de pontos, enquanto eu hipnotizado acompanhava a partida na TV, almoçando spaghetti:

Quinze, trinta, quarenta … por que não 45? … iguais … vantagem … iguais de novo … vantagem contra, break point … game … troca o sacador … quebrou o serviço … trocam de lado da quadra … 1, 2, 3, 4, 5, 6 games … ganhou o set? Não, 5 a 5, vai a 7 … agora ganhou? não, 6 a 6, vai a 8 … 1 set a zero … 1 a 1 … 2 a 1 … 2 a 2 … 3 a 2 … match point … game, set, match mister Borg.

Aquele jogo terminou Borg 3×2 Connors (3-6, 6-2, 6-1, 5-7, 6-4), após 3h14min de jogo. Me fascinou os 2 jogadores disputarem ponto a ponto, nunca se entregando, mantendo a mesma qualidade de jogo com mais de 3 horas sem intervalo. Muito diferente do futebol! Voltei para minha casa determinado a aprender a jogar tênis!

Game …

Comecei a ter aulas duas vezes por semana e descobri que era o esporte mais complexo e difícil que existia! Não apenas pela maluca contagem de pontos e duração do jogo, mas também pelo grau de dificuldade dos golpes e precisão exigida.

Precisava aprender a bater forehand e backhand … saque e voleio … saber quando bater chapado, com topspin ou dar uma deixadinha com backspin …

Tinha que ter preparo físico tanto de corredor velocista, para conseguir chegar naquela bola no canto da quadra ou no drop-shot que o adversario largou logo após a rede … como ser fundista, para aguentar horas de jogo.

Precisava ter pernas e braços fortes … mas também flexibilidade para torção do torax, dobrar joelhos, rotação dos braços, mudanças súbitas de direção. E o reflexo visual! Como pode o saque do adversário ser assim rápido?!

Mas, principalmente, ao contrário do futebol que estava acostumado, era meu primeiro esporte individual! Não havia o apoio de colegas de time quando o jogador está num dia ruim, ou para compensar pontos fracos que tenha nos fundamentos do esporte.

Chegava antes do horários das aulas para bater paredão … continuava após as aulas … enlouquecia meus pais, por bater paredão todos os dias num muro de casa … aparecia no clube em outros horários, para jogar com quem topava encarar um moleque magrelo e baixinho …

Comecei a ler revistas de tênis, assistir partidas na TV … acompanhar os jogos de meus tenistas favoritos … tentar imitar como jogavam … qual raquete usavam … se seus backhands eram com uma ou duas mãos…

… Set …

Borg , Connors, Villas, McEnroe, Evert, Navratilova … Willander, Lendl, Edberg, Becker, Steffi, Selles … Agassi, Sampras, Courier, Hingis … Meligeni, Guga …

Anos e gerações de tenistas passaram … eu praticava o esporte em ciclos … passava 5 anos jogando … parava 5 … voltava novamente … parava …

Serei sincero: 5 anos era o tempo que eu levava para admitir para mim mesmo que “não nasci para jogar tênis, não levo jeito pra este negócio”. Era o tempo que durava meu ciclo de entusiasmo, resiliência e teimosia. E, outros 5 anos era o tempo que levava para esquecer tudo isso, a paixão que tinha pelo esporte falar mais alto, tirar as raquetes do fundo do armário e voltar a me dedicar a praticar.

Já faz mais de 15 anos que eu não entro numa quadra de tênis. Minha última parada, definitiva por enquanto, ocorreu em algum momento entre a era Guga e a era Federer. E, por um tempo, junto com minha desistência em praticar, também perdi o amor e interesse pelo esporte. Não acompanhei os primeiros anos da carreira do Roger Federer, mas me lembro exatamente quando voltei a gostar de assistir tênis: Roland Garros 2005, semi-final, Federer versus Nadal.

Match !

Os fãs do tênis tem o privilégio de acompanhar quase duas décadas únicas no esporte. De Wimbledon 2003 até Melbourne 2022, 61 dos 74 torneios de Grand Slam disputados foram ganhos por um dos The Big Three, 82% de aproveitamento, um domínio nunca visto num esporte altamente competitivo, exigente e desgastante.

Duas gerações de adversários Top10 surgiram e ficaram para trás. E, não foi uma entresafra de baixo nível. Falo de craques como Andy Murray (que seria o 4º mosqueteiro), Wawrinka, Del Potro, Roddick, Tsonga, Ferrer, Thiem. Recomendo um documentário da Netflix, chamado Untold: Federer x Fish, que dá um exemplo do “estrago” resultante desta supremacia nos jogadores contemporâneos.

Federer, Nadal e Djokovic, obviamente, são gênios predestinados e, ao contrário de mim, “nasceram para o esporte”. Mas, acompanhando partidas do Big Three durante esses anos todos aprendi com eles a qualidade mais importante que um tenista precisa ter, tanto no competitivo de alto nível, quanto nos jogos de brincadeira de final de semana no clube.

Tênis é o esporte mais mental que existe!

Muito mais importante do que o preparo físico e habilidade técnica, é o equilíbrio emocional que faz a diferença no esporte. Eu cansei de perder jogos porque meu emocional foi pro saco durante as partidas e passei a errar muito mais que meu normal.

E, o jogo de domingo passado é a prova do quanto a resiliência faz parte dos skills do grande campeão. Nadal estava perdendo por 2 sets a zero uma final para um excepcional adversário, 10 anos mais novo. E foi buscar a virada. Eu vi roteiros assim inúmeras vezes em jogos envolvendo o Big Three, tanto entre eles, como com outros adversários. Jogos de mais de 3, 4, 5 horas, que fazem aquela distante final de Wimbledon 77 parecer uma melhor de 3 sets.

A final de Wimbledon 2008, Nadal 3×2 Federer, 4h48min do tênis mais sensacional do mundo talvez tenha sido a melhor e maior partida que assisti na minha vida. As parciais contam a historia do jogo: 6-4, 6-4, 6-7, 6-7, 9-7. Não preciso descrever nada, os números falam por si.

E, me dei conta que é graças ao complexo e maluco sistema de contagem de pontos que o tênis permite isso! Digo mais: uma partida de tênis pode ser encarada como uma metáfora de nossas vidas e carreiras.

Partidas são ganhas set a set. Sets são ganhos game a game. Games são ganhos ponto a ponto.

Um set perdido pode ser revertido nos seguintes. Um set ganho não vale nada para os seguintes. Você perde games em que está sacando, como favorito, com as chances a seu favor. Assim como pode quebrar games no saque no adversário, com vitórias contra todas as possibilidades. Perdeu um game por 15, 30, 40 a zero? Levante, sacuda a poeira e erga a cabeça pro game seguinte. Descubra o que deu errada e faça diferente. Este game perdido ficou para trás, não pode ser recuperado, mas não será só ele o determinante do resultado final da partida.

A vitória é o resultado da soma de cada simples ponto ganho, que se transformam em games, que viram sets. Resiliência. Não abandone o jogo após o enésimo ponto perdido num erro não-forçado. Nem de um game quebrado no seu saque. Nem mesmo num set perdido. O jogo daí em diante ficará mais dificil, mas não impossível de virar e vencer.

E, outra lição importante, que nunca soube aprender quando jogava: você está competindo não contra você mesmo, mas contra o cara do outro lado da rede! Significa que você não precisa ser perfeito, tem apenas que ser melhor que ele. Não precisa fazer um ace a cada novo primeiro saque, apenas acertar em quadra do jeito que você perceber ser o mais difícil pro adversário devolver. Cada drive não necessita ser um winner, apenas tem que cair dentro da quadra adversária e ir construindo a vitória na batalha daquele ponto. No último set de domingo, Rafael Nadal mudou seu estilo e passou a forçar trocas de bolas em lados opostos da quadra do Medvedev e abusou das deixadinhas. Fez isso não porque eram seus melhores golpes, mas porque soube ler o concorrente e perceber que esta seria a tática ideal, naquele momento, contra os pontos fracos do adversário.

Leia o adversário, a quadra, a direção do vento, o peso da bolinha, o humor da torcida. Use tudo isso a seu favor. John McEnroe provocava intencionalmente a torcida. Djokovic cresce quando sente a hostilidade contra ele na arena.

Ponto por ponto.
Game por game.
Set por set.

Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday) – 1999

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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2 Comentários

  1. Parabéns pelo texto. Conseguiu traduzir em palavras sentimentos e experiências de quem já entrou numa quadra de tênis e daqueles que apenas o acompanham por paixão pelo esporte.

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