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A Pevecetização do futebol

O Brasil parou este sábado para assistir a final da Libertadores! Bem, o “Brasil parou” é uma hipérbole, claro. Foram apenas os milhões de flamenguistas, palmeirenses, anti-flamenguistas, anti-palmeirenses e brasileiros amantes do futebol que, às 17:00 do dia 27 de novembro de 2021, estavam assistindo a mesma coisa, consumindo simultaneamente o mesmo conteúdo transmitido por um veículo de comunicação de massa.

Em 2021, a transmissão dos principais eventos do esporte ou a cobertura jornalística de grandes acontecimentos inesperados são os dois principais produtos que restaram para as TVs abertas do mundo. O streaming mudou para sempre o modo como as pessoas consomem conteúdo audio-visual. Esqueça o Jornal Nacional ou o último capítulo da novela das 9.

A transmissão de esportes em geral, e do futebol em particular, é a última grande opção remanescente de conteúdo assistida ao vivo em tempo real e possível de ser monetizada através de venda de patrocínio e publicidade.

O futebol, pelas próprias características do esporte, se tiver bons times formados por craques e campeonatos organizados de maneira bem planejada para serem interessantes, fornece conteúdo de interesse tanto para torcedores dos times em campo como para os fãs do esporte que tem prazer em de assistir partidas bem jogadas ou disputas de títulos.

Não por acaso, grandes emissoras, como a TV Globo, passam por processos de reestruturação, reduzindo custos em salários para suas estrelas, atores e apresentadores de programas, e realocando verbas para a compra de direitos de transmissão exclusiva dos grandes eventos do esporte.

A emissora carioca fará de tudo para reconquistar os direitos de transmissão da Champions League e da Copa Libertadores que foram adquiridos pela paulista SBT, apesar de sua desorganização típica, mas com o histórico faro afiado para negócios de seu proprietário Silvio Santos.

A transmissão da final da Libertadores 2021, com vitória do Palmeiras sobre o Flamengo na prorrogação, foi uma prova da importância deste ativo: audiência de 31 pontos para o SBT (6,3 milhões de telespectadores) contra 9 pontos da TV Globo em SP e de 32 pontos (4 milhões) a 9 no Rio. Primeira vez que o SBT conseguiu bater a Globo ao mesmo tempo nas 2 capitais mais importantes do país, desde a volta da emissora ao futebol, em 2020 (Com final épica e prorrogação, SBT tem vitória histórica sobre a Globo).

A TV aprendeu que mesmo outros esportes, que tem dinâmica chata, também podem se tornar atrativos, se forem formatados de modo a terem appeal. O Mundial de F1 de 2021, com a acirrada batalha entre Hamilton x Verstappen, vem sendo o campeonato mais disputado dos últimos tempos, e se tornou o principal produto da TV Bandeirantes, que investiu numa cobertura com importância e valorização muito maior do que tinha até o ano passado na Globo, através do tempo de exibição e contratação de profissionais de alto nível, e está colhendo os lucros por isto, com audiência cada vez maior.

Não por acaso, a F1 iniciou esta mudança a partir de alguns anos atrás, quando os direitos de organização e transmissão do campeonato foram adquiridos pela empresa americana Liberty Media. A empresa soube fazer a leitura exata do novo modo de assistir conteúdo e lançou a série Drive to Survive, na Netflix. Através da emoção das narrativas dos episódios da série, mostrando os conflitos e emoções dos profissionais da categoria, tanto conquistou um público que nunca tinha assistido as corridas antes, como também reconquistou fãs antigos que tinham deixado de assistir nos últimos anos pela chatice que a categoria havia se tornado, devido a provas previsíveis e sem disputas acirradas.

Além disso, souberam atender as expectativas do seu público e, na transmissão das corridas, acrescentaram novas camadas de informação em tempo real para os espectadores, através de estatísticas e números, que são uma atração que aumentou o engajamento do público durante a transmissão de TV.

Os norte-americanos tem know-how: estamos falando do país do Show-Business. As federações e emissoras que transmitem os 3 esportes mais queridos e assistidos pela população, o futebol americano (NFL), basquete (NBA) e baseball (MLB), há anos fazem uso intensivo de estatísticas em suas transmissões, valorizando e destacando constantemente feitos alcançados por times e jogadores até mesmo em partidas da temporada regular, onde não há títulos ou classificações em disputa. Com isso, mesmo em temporadas extensas, com muitas partidas sendo transmitidas, mantém elevado o grau de interesse por cada transmissão durante todos esses meses.

O baseball, em particular, talvez seja o esporte mais beneficiado pela divulgação de estatísticas durante as transmissões de suas partidas. Ao contrário do futebol, a dinâmica normal do esporte é chata e arrastada, e as estatísticas tornam o jogo mais interessante de ser acompanhado.

É uma contradição interessante. Talvez até pelas partidas de baseball serem chatas, inspirou a criação de filmes ´ótimos, com roteiros que valorizam muito o que acontece com os jogadores fora do diamante.

Já o nosso futebol, apesar de ser um esporte muito legal de ser assistido pela sua dinâmica natural, inspirou poucos filmes ou séries de qualidade:

Todos estes filmes listados acima valem a pena de serem assistidos por quem gosta de futebol!
Mas, o melhor filme já feito sobre futebol … bem, não é bem sobre futebol … é sobre football: Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday).

Irônica é a contradição de que as transmissões de jogos de futebol estão se tornando chatas, justamente pela supervalorização desnecessária das estatísticas do esporte em detrimento de aproveitar o que ele já tem de vantagem competitiva, que é sua emoção natural.

Em 1998 estreou na ESPN Brasil uma mesa-redonda sobre futebol, que se destacava pelo seu alto nível de qualidade. O Linha de Passe era sempre apresentado pelo Milton Leite,  e tinha um revezamento de comentaristas que eram feras e carismáticos, com nomes como José Trajano, Juca Kfouri, Tostão, Antero Greco,  Claudio Carsughi e outros. Mas, um deles chamava minha atenção, por ter um estilo totalmente diferente dos demais: Paulo Vinicius Coelho. 

O PVC fazia comentários em que, além de destrinchar os esquemas táticos dos times, chamava minha atenção pela sua memória apurada com a qual fazia frequentes citações a times do passado. Parecia um reboot do Roberto Avallone, um hiper-link nostálgico para as mesas redondas que eu adorava assistir quando moleque nas noites de segundas-feiras na TV Gazeta, ponto de exclamação.

Mas, logo me dei conta de uma diferença entre eles. Enquanto o Avallone era propositalmente fanfarrão em seus exibicionismos de memória, que o tornava um alivío cômico, o PVC era … chato. Chatíssimo. Ele tratava a sério suas estatísticas, quando citava os 20 resultados dos confrontos dos ultimos 10 anos entre 2 times e a partir daí predizia o que esperar do jogo na rodada seguinte. Ou, citava o percentual de vitórias quando os jogadores A e B atuavam juntos.

Mas, o que mais me irritou foi que ele introduziu métricas que acabaram viralizando como coronavírus em blocos de carnaval nas transmissões de jogos de futebol: assistências, passes, percentual de posse de bola, etc…

Graças a essas métricas, Gabriel Jesus permanece como centro-avante titular da seleção brasileira. O camisa 9 não faz 1 único gol, mas “faz assistências…”

Toni Kroos permanece como meio-campista titular do Real Madrid, porque vem há sete temporadas seguidas dando 1.900 passes sem errar, com uma média de 64 passes por partida e taxa de acerto de 95%. Bem, com a maioria sendo passes laterais a 5 metros de distância, até eu …

O Barcelona de Guardiola permanece considerado o melhor time de todos os tempos, porque com seu Tiki-Taka tinha mais de 70% de posse de bola … Zzzzzz

Enfim … valeu, PVC!

E, para a galera que curte futebol com números, os mais importantes para serem lembrados nos próximos dias:

30/11Flamengo x CearáAtlético MG pode ser campeão brasileiro
12/12Galo x FuracãoJogo de Ida da final da Copa do Brasil
15/12Furacão x GaloGrande Final da Copa do Brasil
02/2022Chelsea x PalmeirasPalmeiras continuará sem Mundial…

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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