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A censura chegou ao “Lindo pendão da esperança”. Estamos perdidos!

A imagem de uma atleta brasileira, de origem humilde, que passou por todas as dificuldades possíveis, agitando, triunfante, a bandeira nacional ao chegar ao ponto máximo do pódio olímpico, me parece um motivo de orgulho para todos nós. Só que vivemos uma época de polarização irracional tão grande que… bom, vamos contar a história desde o início.

A ditadura militar e a bandeira pornográfica

Stanislaw Ponte Preta, um dos escritores mais odiados pela ditadura militar, colecionava as bobagens da época em volumes que chamava “Febeapá” – Festival de Besteira que Assola o País.

Uma das melhores histórias que lembro referia-se a um delegado da censura que teria proibido a leitura em público do poema “Navio Negreiro”, do abolicionista Castro Alves, que cita a bandeira nacional na frase; “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança…”. Os tempos eram puritanos e, segundo o despacho oficial, “a junção dos verbos “beijar” e “balançar” na mesma frase tem uma conotação erótica inaceitável para os padrões morais da sociedade brasileira”. Ele teria inclusive expedido um mandado de prisão contra Castro Alves por divulgar pornografia, que só não foi cumprido porque o poeta já tinha morrido havia quase um século.

O poder mudou de mãos, mas a falta de noção continua…

Nunca consegui saber se o causo era verdade ou não, mas, para provar que no Brasil a farsa se repete como história, temos agora uma juíza eleitoral gaúcha (espero que não seja gremista, sinceramente), que quer proibir a exibição pública de bandeiras do Brasil durante a campanha eleitoral, por entender que elas se tornaram um símbolo da candidatura de Bolsonaro, o que caracterizaria uma propaganda irregular.

Não, você não leu errado, nem é fake; está no site da Veja (https://veja.abril.com.br/coluna/radar/juiza-eleitoral-diz-que-bandeira-do-brasil-virou-simbolo-de-bolsonaro/ ). A juíza vai mandar retirar as bandeiras do Brasil onde quer que estejam – seja na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê. Ou seja, caso a linda e talentosa Rebeca Andrade venha a vencer alguma competição internacional no período, vai ter que escolher outro estandarte para a foto da comemoração, sob risco de ser processada pela lei eleitoral vigente. Talvez use a bandeira de seu time preferido. O difícil vai ser explicar para a imprensa internacional.

Dentro do assunto, a juíza ainda teve o cuidado de verificar que, como a Copa do Mundo começa depois das eleições, ela permitirá a livre utilização da bandeira nacional nas comemorações de possíveis vitórias futebolísticas. Ainda bem!

Eu ia fazer piada, mas não tem como competir com a original.

Resta lamentar como o poeta, que conclui; “antes te houvessem roto na batalha, que servires a um povo de mortalha”.

Meu bom Castro Alves, o que ainda restava de inteligência crítica neste país está hoje enrolado nesta mortalha. E fica quietinho por aí, senão daqui a pouco aparece algum outro xiita querendo te cancelar sob a acusação de “racismo estrutural” ou algo parecido. Não duvido de mais nada.

Tristes tempos.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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