
“O Brasil ainda pode ser um país rico? O desafio da produtividade”, do renomado economista Mailson da Nóbrega, é um ótimo livro de cultura geral, mas decepciona quem se vê atraído pelo título esperando uma análise minuciosa de temas relativos à produtividade.
Dividido em nove capítulos e três partes, apenas os dois últimos, dedicados ao Brasil, tratam efetivamente do assunto estampado na capa. Os demais percorrem a economia na Antiguidade, passam pela Idade Média e pela Revolução Industrial, reservam uma seção especial à América Latina e à China, até finalmente chegar ao Brasil, onde o tema da produtividade e seus desdobramentos são abordados ao longo de cerca de 60 páginas.
Para quem foi fisgado pelo livro a partir do título, como eu, fica a sensação de que o assunto foi tratado de forma superficial e que havia muito mais a ser dito. Isso não significa que a obra seja ruim. Como descrevi acima, ela é excelente sob a ótica da cultura geral e a linguagem do autor é acessível. Apenas é importante adequar as expectativas.
Sobre a produtividade em si, pilar sobre o qual o crescimento futuro do Brasil deveria ser construído, uma vez que estamos prestes a perder o benefício do bônus demográfico, o autor faz um diagnóstico realista e incômodo, embora procure enxergar alguma luz no fim do túnel nas páginas finais, a meu ver um tanto ilusória.
Destaco a opinião de dois economistas citados na obra, Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli:
“O desafio do crescimento brasileiro não é novo, mas permanece sem solução. O país combina baixo investimento, produtividade baixa, educação de má qualidade e políticas distorcivas. Entre o protecionismo externo e a expansão fiscal interna, desperdiçam-se oportunidades de avanço. O saldo é previsível: baixo crescimento e persistente estagnação.”
Embora o agronegócio, alguns segmentos da mineração, o grande estoque de terras raras e a competente atuação do Banco Central na regulação, no monitoramento e no incentivo à inovação no mercado financeiro sejam pontos fora da curva de uma economia claudicante, esses elementos, isoladamente, não têm condições de promover uma transformação no cenário de baixa produtividade com o qual convivemos há décadas.
Condicionar um despertar da sociedade para esse tema a uma crise dramática no horizonte me parece apostar na sorte grande da loteria. Acostumamo-nos à ideia de que o Brasil só se move com urgência quando uma grave crise se aproxima. Nossa complacência com um ambiente de baixa produtividade talvez já tenha nos custado a perda do trem da história. Aqui, naturalmente, trata-se de uma opinião pessoal.
Voltando ao livro, recomendo a leitura, desde que a perspectiva de cultura geral prevaleça sobre a expectativa de encontrar um texto mais técnico e aprofundado sobre produtividade.




