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O Espelho

Prólogo

Gênio Indomável termina com uma das cenas mais bonitas da história do cinema. Robin Williams interpreta um psicólogo. Matt Damon é Will, um jovem brilhante que passou a vida inteira construindo defesas contra qualquer tentativa de se aproximar dele.

Em determinado momento, o psicólogo começa a repetir a mesma frase. “Não foi culpa sua.

Uma vez. Duas. Cinco. Dez.

Will responde sempre da mesma maneira. Como quem já conhece aquelas palavras e não vê motivo para continuar aquela conversa.

Mas o psicólogo insiste. “Não foi culpa sua.

Até que, de repente … Will desaba.

Sempre achei esta cena curiosa. Não era uma informação nova. Will já conhecia aquelas palavras. Então por que foi justamente naquela hora que elas mudaram tudo?


Ato I

O espelho que inventamos

Durante a maior parte da história da humanidade, ninguém sabia exatamente como era o próprio rosto. É estranho pensar nisso.

Conhecíamos o rosto da mãe. Dos amigos. Dos filhos. Mas, jamais conseguíamos enxergar o rosto que mais importava. O nosso.

As pessoas olhavam a superfície da água ou uma peça de metal polido. Funcionava. Mais ou menos. O vento deformava a água. O metal escurecia. A imagem nunca era perfeita.

O ser humano perseguia o desejo de encontrar uma superfície capaz de devolver um reflexo fiel. Até que, ao inventar o espelho, pareceu que este antigo problema tinha sido finalmente resolvido. Resolveu mesmo?

Nem o espelho mostra exatamente quem somos. Ele inverte direita e esquerda. Depois vieram outros modos de no vermos. A fotografia muda dependendo da lente. A câmera de celular pode alterar completamente um rosto. O vídeo registra um instante. Nenhum deles entrega a verdade.

E, pensando bem, talvez isso aconteça por um motivo simples. Talvez o espelho nunca tenha sido criado para responder à pergunta que imaginamos. Porque, no fundo, quase ninguém para diante dele querendo descobrir quem é. A pergunta costuma ser outra.

Como eu estou?”

Ou, traduzindo melhor:

É assim que as outras pessoas vão me ver?

Sem perceber…

Nunca procurávamos apenas um reflexo.

Sempre estivemos procurando um olhar.


Ato II

Os espelhos que andam

Mas existe um problema. As pessoas também não funcionam como espelhos. Pelo menos não como imaginamos.

Ninguém enxerga outra pessoa de forma neutra. Nós enxergamos através da admiração. Da antipatia. Da saudade. Da inveja. Do desejo. Da convivência. Da memória. Do afeto. O cérebro nunca registra pessoas.

Ele interpreta pessoas.

Você já deve ter passado por uma experiência curiosa. Conhece alguém que, ao vivo, parece iluminar qualquer ambiente. Mas, depois vê uma fotografia daquela mesma pessoa e pensa: “Engraçado… não era isso que eu enxergava.

Não é a fotografia que está errada. É que você nunca enxergou apenas um rosto. Enxergou um jeito de sorrir. Uma presença. Um olhar. Um silêncio. Uma história.

Você não vê apenas a pessoa. Você vê a pessoa olhando para você.

É por isso que existem pessoas lindíssimas em fotografias que parecem comuns ao vivo. E pessoas que jamais conseguem sair bem em uma foto, mas basta entrarem numa sala para transformar completamente o ambiente.

Fotografias registram luz. Nós registramos experiências. Aliás… nem registramos.

Nós queremos ser interpretados, não registrados.

E é justamente aí que o espelho de vidro comece a perder importância. Ele devolve apenas uma imagem. As pessoas não devolvem imagens. Devolvem significados.


Ato III

O espelho em que finalmente acreditamos

Talvez o verdadeiro poder do amor nunca tenha sido fazer alguém parecer mais bonito. Ele faz algo muito mais profundo. Ele não muda quem nós somos. Ele muda a versão de nós mesmos que conseguimos enxergar.

Um elogio vindo de uma pessoa qualquer normalmente dura poucos segundos. No dia seguinte, você mal se lembra dele.

Mas, quando o mesmo elogio vem de alguém que ocupa um lugar importante na sua vida, permanece durante anos. Não porque aquela pessoa tenha mais razão do que as outras. Mas porque você não acredita apenas na opinião dela. Você acredita no olhar dela.

É como se uma parte silenciosa da nossa cabeça dissesse “Se justamente essa pessoa me enxerga dessa forma … talvez eu realmente seja assim.”

Esse é o poder do amor. Não apenas amar alguém. Mas devolver a essa pessoa uma versão de si mesma da qual ela consiga se orgulhar.

O amor nos empresta um espelho. Não um espelho qualquer. Um espelho que revela uma versão de nós mesmos que, sozinhos, talvez nunca conseguíssemos enxergar.

Talvez essa seja a busca silenciosa de todos nós. Encontrar um olhar que nos devolva uma versão de quem somos da qual possamos nos orgulhar.

Aquela cena de Gênio Indomável começa a fazer um pouco mais de sentido.

Will já tinha escutado aquelas palavras outras vezes. Mas, desta vez, mudou foi quem as dizia. Will não acreditou na frase. Acreditou no olhar de quem a repetia.

Foi naquele instante que alguém lhe devolveu uma imagem de si mesmo diferente daquela que ele carregava havia a vida inteira.

A maior invenção da humanidade talvez nunca tenha sido o espelho. É encontrar alguém em cujo olhar nós finalmente gostamos de nos reconhecer.

O fim de um grande amor dói de um jeito tão difícil de explicar.

Porque, quando um relacionamento termina, não desaparece apenas o outro. Desaparece também aquele reflexo. Aquela identidade. Aquela versão sua que existia exclusivamente naquele olhar.

O espelho da parede continua no mesmo lugar.

Mas o espelho que realmente importava…

…foi embora junto com quem o segurava.

Gui

Sou o Gui. Fiz arquitetura, pós em marketing, MBA em comércio eletrônico. Desde criança , quando adorava ler Julio Verne, eu gosto de explorar, descobrir novidades. Aqui no Papodeboteco vou conversar contigo sobre descobrir como podemos explorar nosso tempo livre.

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