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BBB, o brasileiro imortal

O fato de o Big Brother Brasil chegar à sua 26ª edição, sempre em horário nobre e como um dos produtos mais lucrativos da TV nacional, diz menos sobre televisão e mais sobre o Brasil. Quando surgiu, no início dos anos 2000, o formato virou uma febre global; praticamente todo país teve sua versão. Com o tempo, reality shows dos mais diversos estilos proliferaram, e o Big Brother passou a enfrentar forte concorrência na prateleira. A fórmula se esgotou, o interesse caiu e o público minguou.

Não no Brasil. Aqui ele segue firme, relevante e capaz de mobilizar milhões de pessoas todos os anos.

Uma primeira explicação possível é cultural. O BBB acabou se tornando um espaço coletivo artificial, onde o país inteiro comenta as mesmas pessoas, julga os mesmos comportamentos e compartilha referências comuns. Como nunca tivemos bons espaços públicos de debate, o programa acaba cumprindo esse papel de forma artesanal — mas eficiente. Não se trata apenas de assistir; trata-se de não ficar fora da conversa.

Há também um traço muito brasileiro em jogo: o prazer em julgar pessoas. O BBB funciona como um tribunal permanente. Todos os dias alguém é absolvido, condenado ou colocado em liberdade provisória pelo “paredão”. Conflitos banais ganham contornos morais, e pessoas comuns são rapidamente alçadas à condição de heróis ou vilões. É um folhetim ético diário, com votação popular — uma fórmula particularmente vitoriosa em culturas personalistas.

Com o tempo, o programa deixou de ser um experimento social para se tornar um jogo de poder. Alianças, traições, gestão de imagem, leitura da opinião pública e controle de narrativa passaram a ser mais relevantes do que qualquer espontaneidade. Muita gente já nem acompanha pelos participantes, mas pelo meta-jogo: quem entendeu melhor as regras invisíveis, quem soube jogar com o público, quem administrou melhor os próprios erros.

Outro elemento importante, por conta da difícil mobilidade social brasileira, o BBB ainda vende a fantasia poderosa de que alguém comum pode sair do anonimato direto para a fama, o dinheiro e o reconhecimento. Em países mais ricos e com mais oportunidades, esse apelo perde força.

Nada disso se sustentaria sem uma engrenagem bem estruturada . A Globo entendeu cedo que o BBB não poderia ser apenas um programa semanal. Transformou-o em uma plataforma permanente, integrada à publicidade, às redes sociais e ao noticiário. O reality não termina no episódio da noite; ele está em toda parte, diariamente.

No fim das contas, o BBB sobrevive no Brasil porque aqui além de entretenimento, transformou-se em ritual social, tribunal moral, jogo de poder e espelho — às vezes desconfortável — de quem somos. Foi assimilado pela cultura popular, não se trata apenas de um mero program de TV, como em outros lugares.

Dito isso, eu o acompanhei com alguma frequência apenas em sua primeira década. Desde então, sou um mero observador das tretas virtuais. Já abandonei a TV aberta há alguns anos (a música do Paulo Ricardo ainda toca?). Aos que gostam, bom proveito!

Victor Loyola

Victor Loyola, engenheiro eletrônico que faz carreira no mercado financeiro, e que desde 2012 alimenta seu blog com textos sobre os mais diversos assuntos, agora incluído sob a plataforma do Boteco, cuja missão é disseminar boa leitura, tanto como informação, quanto opinião.

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