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Sobre lideranças tóxicas

Esse não é um texto sobre futebol, muito embora o meu Vascão seja o pano de fundo. Eu poderia desabafar a respeito da expectativa de mais um ano sofrido, com a defesa entregando gols inacreditáveis, o time brigando do meio para baixo da tabela e a resiliência do torcedor se tornando uma virtude cada vez mais surpreendente. Mas a conversa é outra, o  tema será l’iderança tóxica,’ tomando como exemplo o comportamento do sr. Fernando Diniz, treinador do Vasco e reincidente em “pitis” públicos com seus atletas.

No tempo técnico da partida contra o Mirassol, Diniz, obviamente ciente de que as câmeras transmitiam a conversa em rede nacional, perdeu completamente as estribeiras, ofendendo jogadores, em especial o meia Nuno Moreira. Não repetirei aqui os termos utilizados, uma simples busca na internet resolve, mas confesso que me senti constrangido. Já xinguei jogadores do Vasco inúmeras vezes, admito, mas isso se dá no sofá de casa, na condição de torcedor. O tratamento pessoal dispensado por um líder precisa ser respeitoso. Para dar uma bronca não é necessário elevar o tom de voz, muito menos protagonizar um chilique.

Há quem minimize essas grosserias sob a justificativa de que Diniz mantém um relacionamento próximo e cordial com os atletas e que, por isso, eles compreenderiam esses arroubos emocionais durante as partidas. Eu discordo veementemente dessa tese. Basta se colocar no lugar dos atingidos. Não me refiro aos palavrões, comuns na convivência futebolística, mas à falta de respeito. Que sentimento desperta uma humilhação pública? Para mim, trata-se de uma atitude inaceitável. Roupa suja se lava em casa, e sempre com o tom adequado.

Se eu fosse presidente do clube, exigiria um pedido de desculpas oficial, acompanhado do compromisso explícito de que uma situação como essa jamais se repetiria, sob pena de demissão. E mais, caberia avaliar seriamente se o treinador já não perdeu o vestiário após esse episódio. Se perdeu, a solução é simples: rua.

Em um passado não muito distante, era até relativamente comum a convivência com lideranças tóxicas, figuras desrespeitosas e intimidadoras. Recordo-me de um gestor lendário do Citibank, head global de Risco, que fazia visitas anuais aos países e aterrorizava CEOs com suas histórias de grosseria e humilhação. Eu, ainda muito jovem, presenciei algumas cenas, uma delas guardo até hoje na memória. Em uma reunião interna, ele se dirigiu a um executivo do time dele, dois níveis abaixo de si e disparou algo como “estou assistindo ao triste pôr do sol de uma carreira medíocre”, seguido de um silêncio constrangedor que tomou conta da sala. Quando o brucutu saiu de cena, não deixou saudade alguma, embora ele tivesse alguns fãs na organização, pelo seu jeito ‘sincerão’. Eu duvido muito que hoje ele atingisse  o mesmo êxito profissional. As organizações se tornaram bem mais rigorosas com comportamentos ‘tóxicos’.

O que fazer quando se é atacado dessa maneira? Na maioria das vezes, a pessoa é pega de surpresa e fica sem reação. Ainda assim, tendo a concordar com um conselho que recebi de amigos gregos quando vivi na Grécia, no longínquo ano de 2006, orientações práticas para o cotidiano local: ‘quando alguém gritar com você na rua, grite de volta. O respeito do interlocutor vem na hora’. Dito e feito.

Lideranças tóxicas não constroem resultado sustentáveis. Pode até funcionar no curto prazo, pelo medo, pelo choque, pela adrenalina do momento, mas cobra seu preço com juros altos. Gera ressentimento silencioso, mina a confiança, quebra o vínculo essencial entre quem lidera e quem executa. No futebol, isso se traduz em elenco rachado, desempenho errático e jogadores que entram em campo mais preocupados em se proteger do próprio treinador do que em corrigir erros. No mundo corporativo, a conta é parecida: talentos se retraem, ideias deixam de circular, o erro vira tabu e a mediocridade passa a ser a zona de conforto.

Respeito é ferramenta de gestão. Liderar não é gritar mais alto, é saber a hora, o tom e o ambiente corretos para corrigir. Quando isso se perde, seja no banco de reservas ou na sala de reuniões, o problema deixa de ser temperamento e passa a ser incompetência gerencial. E aí, pouco importa o currículo, o histórico ou o personagem. Liderança que humilha, cedo ou tarde, fracassa.

Victor Loyola

Victor Loyola, engenheiro eletrônico que faz carreira no mercado financeiro, e que desde 2012 alimenta seu blog com textos sobre os mais diversos assuntos, agora incluído sob a plataforma do Boteco, cuja missão é disseminar boa leitura, tanto como informação, quanto opinião.

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