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O preço do tempo

No texto anterior publicado nesse espaço, utilizei bens duráveis — automóvel e smartphone — como lentes para observar a estrutura econômica brasileira. São produtos que expõem com clareza a combinação de impostos, crédito caro, baixa eficiência e escolhas de política pública. Aquela análise, no entanto, era apenas o ponto de partida. O foco da discussão é outro. O tempo.

Economias não se diferenciam apenas pela renda que geram, mas pelo tempo que exigem de seus cidadãos para acessar o básico. Quando bens essenciais são caro demais,  seu custo aparece em anos adicionais de trabalho, horas desperdiçadas, decisões adiadas e energia mental consumida.

Em economias mais eficientes, o sistema atua como redutor de atrito, encurtando  trajetos, simplificando escolhas e liberando tempo. O cidadão trabalha, consome, se desloca e planeja com previsibilidade. O tempo é tratado como um recurso valioso.

Em economias disfuncionais, ocorre o inverso. O sistema introduz fricção em praticamente tudo, pois nada é simples, rápido e barato. Cada decisão cotidiana — morar, se deslocar, estudar, financiar um bem — exige mais esforço do que deveria. O resultado é um cotidiano mais longo, cansativo e menos produtivo.
O tempo passa a ser consumido em pequenas parcelas quase invisíveis. Duas horas a mais no transporte diário, anos adicionais presos a financiamentos longos. Décadas comprometidas com prestações. Horas gastas resolvendo problemas que não deveriam existir.

O crédito é um bom exemplo dessa diferença estrutural. Em economias desenvolvidas e produtivas, ele não é vilão — ao contrário, é um dos principais motores do crescimento. Crédito barato, previsível e de longo prazo organiza decisões, antecipa projetos e amplia horizontes. Ele reduz o custo do tempo.


Em economias ineficientes, no entanto, o papel do crédito se distorce. Taxas elevadas fazem com que ele deixe de ser instrumento de planejamento e passe a funcionar como mecanismo de sobrevivência em um ambiente caro e pouco funcional. Nesse contexto, o crédito não acelera o futuro — ele o comprime. O tempo que deveria estar aberto para escolha, estudo ou mobilidade já nasce comprometido. O amanhã chega onerado.

O mesmo vale para a moradia. Quando viver perto do trabalho é inviável, o tempo é transferido para o deslocamento. Quando alugar é excessivamente caro, o tempo vira dívida. Quando construir é burocrático, o tempo vira espera. Em todos os casos, o custo final não aparece apenas no preço do imóvel, mas na vida reorganizada em torno dele.

Há, portanto, uma dimensão pouco discutida do subdesenvolvimento: a má alocação do tempo social. Países ineficientes não desperdiçam apenas capital; desperdiçam horas humanas em escala massiva. E isso produz efeitos cumulativos. Menos tempo livre significa menor qualificação, que naturalmente reduz a produtividade. Menor produtividade sustenta salários baixos, que reforçam o ciclo. O país não cresce porque não produz mais; não produz mais porque vive cansado; vive cansado porque o básico exige esforço excessivo.

Talvez por isso o debate econômico brasileiro frequentemente pareça deslocado da realidade cotidiana. Discutimos crescimento, competitividade e eficiência como conceitos abstratos, quando, na prática, eles se manifestam no relógio, no trajeto, no prazo, na fila e na parcela.

Uma economia eficiente não  apenas produz mais bens, mas também  devolve tempo às pessoas. Tempo que deixa de ser consumido por fricções desnecessárias e pode ser convertido em aprendizado, criatividade, convivência e boas escolhas.

É justamente nesse ponto que surge um tema quase ausente do debate público nacional, e que merece atenção específica: produtividade. Não como palavra de ordem empresarial, mas como ‘conceito civilizacional’. Produtividade não é trabalhar mais horas; é precisar de menos horas para gerar o mesmo resultado.

Quando uma economia se torna mais produtiva, ela não apenas gera mais renda mas também reorganiza a vida, reduz  desperdícios, encurta caminhos e amplia o horizonte de escolhas. Em última instância, produtividade é a capacidade de transformar crescimento econômico em tempo devolvido à sociedade.

Esse é um tema que merece ser tratado com cuidado e profundidade. Porque, no fim, discutir produtividade é discutir algo simples e esquecido: para onde está indo o nosso tempo coletivo.

Esse será o foco do próximo artigo.

Victor Loyola

Victor Loyola, engenheiro eletrônico que faz carreira no mercado financeiro, e que desde 2012 alimenta seu blog com textos sobre os mais diversos assuntos, agora incluído sob a plataforma do Boteco, cuja missão é disseminar boa leitura, tanto como informação, quanto opinião.

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