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Como bens duráveis explicam a ineficiência da nossa economia

Um exemplo do automóvel e smartphone

Nos últimos anos, tenho passado bastante tempo nos Estados Unidos, e a comparação dos preços de bens de consumo duráveis surge quase naturalmente. Ela invariavelmente provoca uma sensação de indignação com a realidade brasileira, onde uma população muito mais pobre paga bem mais caro para ter acesso a produtos considerados básicos em países desenvolvidos. A partir dessa constatação, procurei desenvolver alguns artigos que tentam explicar o quão nociva a nossa ineficiência estrutural é para a vida do brasileiro médio. Neste primeiro texto, tomo um automóvel e um smartphone como referências.

O pano de fundo do artigo é a nossa estrutura econômica. O automóvel entra aqui apenas como instrumento de análise — uma espécie de régua. Poucos bens permitem observar com tanta clareza a combinação entre renda, produtividade, carga tributária, competição, crédito e escolhas de política pública. O valor de um carro, sobretudo em modelos comuns, diz muito sobre como um país funciona.

A comparação entre Brasil e Estados Unidos, nesse contexto, não é ideológica, apenas prática. O automóvel é produzido em larga escala nos dois países, envolve cadeias industriais complexas, tecnologia madura e consumo disseminado. Em tese, seria um dos bens mais fáceis de comparar. Justamente por isso, o contraste é tão revelador.

Quando se usa o carro como base, o que salta aos olhos não é apenas o ato de consumir, mas o preço final do bem e tudo o que está embutido nele. Não se trata apenas de calcular quantos anos de trabalho são necessários para adquiri-lo, mas de entender por que ele chega tão caro ao consumidor antes mesmo de entrar na equação da renda — que, quando incorporada à análise, amplia ainda mais as diferenças.

Tomemos um exemplo concreto. Um Toyota Corolla — carro de simples para médio nos Estados Unidos e tratado como quase luxo no Brasil, apesar de ser produzido localmente em Indaiatuba — custa por lá algo em torno de vinte salários mínimos, ou cerca de vinte e quatro mil dólares. Aqui, o mesmo Corolla custa algo próximo de cento e oitenta mil reais, o que equivale a mais de cem salários mínimos. A diferença não está no automóvel, mas no ambiente econômico que o cerca.
Para ter no bolso do brasileiro o mesmo peso relativo que tem para um americano médio, o Corolla deveria custar por aqui algo próximo de trinta e poucos mil reais. Na prática, ele custa quase seis vezes isso. Essa distância nasce da soma de impostos explícitos e implícitos, do chamado custo Brasil, de ineficiências recorrentes e de escolhas acumuladas ao longo de décadas.

A carga tributária direta sobre um automóvel no Brasil gira entre 35% e 40% do preço final, considerando IPI, ICMS, PIS e Cofins. Em um carro de cento e oitenta mil reais, algo entre sessenta e setenta mil reais é imposto puro. Mas essa é apenas a camada visível. Soma-se a ela o peso do crédito caro, da burocracia, da logística deficiente, da baixa escala produtiva e de um mercado que, embora hoje formalmente aberto, ainda carrega distorções que reduzem a concorrência efetiva. Juntos, esses fatores funcionam como um imposto adicional, embora não apareçam na nota fiscal.

O carro, no Brasil, deixou de ser apenas um meio de transporte. Transformou-se em um filtro social. Quem pode, compra. Quem não pode, se adapta, situação que sempre assume a forma de trajetos mais longos, oportunidades piores, menor mobilidade geográfica e horas desperdiçadas.

O problema é que a distorção não termina aí. Mesmo entre os que conseguem comprar, a assimetria apenas muda de formato. O automóvel brasileiro é, em regra, financiado a taxas de juros elevadas, muito superiores às praticadas nos Estados Unidos. O que começa como a aquisição de um bem termina como um compromisso prolongado, que infla de maneira significativa o valor efetivamente pago. O carro não custa cento e oitenta mil reais; custa muito mais ao longo do tempo, em parcelas, encargos e renda futura comprometida.

Ele consome recursos que deveriam catalisar poupança, investimento ou qualificação. Adia decisões, reduz margem de manobra e mantém o indivíduo limitado do ponto de vista econômico. Nos Estados Unidos, o carro amplia horizontes e é um produto amplamente acessível. Aqui, mesmo quando acessível, pode se transformar em uma âncora financeira. Não é ativo., mas um passivo que pesa proporcionalmente mais sobre quem tem menos alternativas e menor renda.

Por que, em um país com indústria automobilística instalada, escala populacional e demanda reprimida, o acesso ao automóvel é um privilégio relativo? Por que um bem comum, em praticamente todas as economias desenvolvidas, aqui se converteu em marcador social?

Migremos agora para um smartphone. É praticamente impossível viver sem um deles. Multifuncionais, estão presentes em quase todos os aspectos da vida moderna: trabalho, serviços públicos, comunicação, finanças e lazer. A lógica perversa se repete: um modelo comum de iPhone custa nos Estados Unidos algo em torno de oitocentos dólares. No Brasil, o mesmo aparelho sai pelo dobro do preço, já convertendo em reais.

Traduzindo isso em esforço econômico, a diferença fica ainda mais evidente. No Brasil, um iPhone consome algo entre quatro e cinco salários mínimos. Nos Estados Unidos, o mesmo aparelho exige pouco mais de meio salário mínimo. Novamente, não é o produto que muda. É o sistema ao redor dele.

O ponto mais profundo dessa discussão está além do automóvel e do smartphone. Preços elevados não afetam apenas decisões de consumo; eles reorganizam a vida cotidiana. Impõem anos adicionais de trabalho, comprometem o futuro antes que ele aconteça e reduzem o espaço de escolha. Em economias assim, não é apenas a renda que é mal distribuída — o tempo também é.
A análise acima vale para praticamente qualquer bem de consumo durável. Não entrarei aqui no mérito de para onde vão os impostos — tema espinhoso para outra ocasião.

O fato é que a ineficiência da economia brasileira consome dos seus cidadãos um bem insubstituível: o tempo. O brasileiro médio é dragado por esse sistema e precisa gastar muito mais anos de vida para conquistar o que outros obtêm com esforço significativamente menor em países desenvolvidos. Um ciclo vicioso difícil de romper. Mas esse é um assunto para os próximos artigos.

Victor Loyola

Victor Loyola, engenheiro eletrônico que faz carreira no mercado financeiro, e que desde 2012 alimenta seu blog com textos sobre os mais diversos assuntos, agora incluído sob a plataforma do Boteco, cuja missão é disseminar boa leitura, tanto como informação, quanto opinião.

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