Opinião

O golpe que eu vi e o que as pessoas estão imaginando – quanta diferença!

Vejo com muita frieza a possibilidade, aventada por muita gente boa, de uma possível “quartelada” de Bolsonaro caso perca as eleições. Na minha visão, o nível de probabilidade deste evento se confirmar é quase o mesmo do simpático Fortaleza ser campeão brasileiro. Por que digo isto?  Porque, aos setenta anos, posso me considerar testemunha ocular desta história. Eu vivi um golpe de verdade, em 1964. Tinha doze anos. E minha memória ainda funciona direito, ao contrário de várias outras funcionalidades do meu corpo. Vamos aos fatos. Como diria o personagem de Y-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias; meninos, eu vi.

Duas coisas foram fundamentais para o sucesso do golpe de 64; a ameaça comunista (que ajudou a obter o apoio interno), e o apoio externo. Indo por partes;

A ameaça Comunista

Em 1964, a Guerra Fria era uma realidade. A União Soviética peitava os Estados Unidos na luta pela liderança mundial, e os dois países estiveram à beira de um conflito em várias ocasiões (vale lembrar que a Segunda Guerra Mundial ainda era mais ou menos recente, portanto, o temor de uma possível Terceira Guerra não era infundado). Na América Latina, a Revolução Cubana tinha apenas cinco aninhos, ainda parecia um sucesso, e o carisma de figuras como Fidel Castro e Che Guevara acenava com novas opções e possibilidades para outros países. Enfim, usando um jargão capitalista, o comunismo ainda estava no prazo de validade. Depois, deu no que deu.

Aqui na Terra Brasilis, tínhamos um Fidel Castro em potencial; Leonel Brizola. Tão inteligente e carismático quanto o original, Brizola espalhava seu radicalismo pelo país todo, acumulando admiradores e desafetos na mesma proporção. Ouso dizer que Brizola foi o precursor do “nós contra eles”, que Lula depois levaria a patamares nunca dantes imaginados. Brizola foi, de certa forma, o catalisador do golpe que foi dado pela direita para evitar um suposto golpe da esquerda. E a grande maioria do povo apoiou. Ou, pelo menos, não reagiu. Mais ainda; durante o período da ditadura, eu vi (ninguém me contou) o então ditador Médici ser aplaudido espontaneamente por um Maracanã lotado. Ou seja; houve apoio popular forte. Obviamente que este apoio sumiu quando a carruagem virou abobora. Não é possível enganar todo o povo durante todo o tempo. Abraham Lincoln sabia das coisas.

Hoje, não há o que justifique um golpe de direita. O comunismo, assim como o bicho-papão que dava plantão no telhado das velhas cantigas de ninar, perdeu totalmente a credibilidade. Não mete medo nem nas criancinhas da era internet. Além disto, a inteligência e o carisma de Bolsonaro são infinitamente menores do que os de qualquer um dos citados. No máximo, ele pode ser chamado de fanfarrão. Na verdade, embora todo o (justificado) ceticismo que cerca as pesquisas eleitorais, acho que o eleitorado bolsonarista-raiz, que apoiaria uma barbaridade destas, não chega a dez por cento da população. Os demais votos dele são muito mais anti-Lula (assim como boa parte dos votos em Lula são anti-Bolsonaro). Enfim, a parcela da população que daria respaldo à quartelada não é suficiente para meter medo. Simples assim.

Apoio internacional

                No quadro de Guerra Fria da época, é claro que os americanos não iriam admitir perder mais aliados no seu quintal. E é preciso ser muito ingênuo para acreditar que foi pura coincidência a instauração de ditaduras militares de direita no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile em um curto período de tempo. É claro que a mão pesada do grande irmão do Norte participou ativamente da mudança de cenário. Afinal, uma nova Cuba na América do Sul seria impensável para eles.

                Nos dias de hoje quem, na comunidade internacional, apoiaria Bolsonaro em uma possível quartelada? Ninguém. Bolsonaro, inclusive, fez todo o possível para tornar o Brasil irrelevante na comunidade internacional. Tenho certeza de que até seu ídolo na política internacional, Donald Trump, não moveria uma palha por ele, mesmo que ainda fosse presidente; afinal, Trump sempre deixou claro que sua política era focada única e exclusivamente no seu próprio país. Ele não sabe onde é Brasília, e jamais se desgastaria entrando numa briga entre silvícolas de uma república de bananas que ele nem quer saber onde fica. Sua resposta a Bolsonaro seria algo do tipo; Hasta la vista, baby.

Conclusão

                Infelizmente, esta história toda me parece ser mais uma consequência do que eu chamo de “Maniqueísmo do Mal” que afeta este país. O Brasil está polarizado entre duas lideranças capengas, ambas com telhados de vidro, e, como fica difícil atribuir virtudes ao seu salvador da pátria, o negócio é jogar bosta no adversário. O famoso “apesar de tudo, Fulano ainda é melhor do que aquele outro”. E nesta luta qualquer coisa vale.

                A ideia de dizer que Bolsonaro vai dar um golpe me parece que ajuda (muito) os Lulistas a pintar o Satanás dos outros como pior do que o deles. E Bolsonaro não é inteligente o suficiente para entender e responder de forma correta à provocação.

                Resumindo, posso dizer que em 1964 havia clima para um golpe. Eu lembro muito bem. Hoje, as circunstâncias são totalmente diferentes. Não vai ter golpe nenhum. Nem de um lado, nem do outro.

                Vida que segue.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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