Opinião

Cada época tem o seu bicho-papão

Há uma preocupação legítima com a influência maléfica das redes sociais sobre nossas crianças e adolescentes. São muitos debates a respeito desse tema, de como podemos, como sociedade, lidar com essa ameaça.A esse respeito, curiosamente, caiu-me na mão hoje um artigo de Diogo Mainardi do ano 2000, em que o escritor descreve como os jogos eletrônicos estavam sendo responsabilizados pela onda de violência dos adolescentes na Itália (já naquela época, Mainardi morava naquele país europeu).

Lembrei-me então desse tempo distante, em que eu proibia meus filhos de jogarem jogos violentos no vídeo game. Afinal, como pai responsável, pensava na saúde mental dos meus filhos, e na violência que poderia ser induzida por esses jogos. Mal sabia que eles jogavam na casa dos amigos ou em aparelhos portáteis como o game boy…

Antes disso, a TV era esse perigo para nossas crianças e adolescentes. Novelas indecentes e filmes violentos entravam em nossos lares, ameaçando a boa formação dos nossos filhos. Quando inventaram o vídeo cassete então, foi um Deus nos acuda. Agora as crianças poderiam ver fitas pornográficas quando quisessem.

Antes disso, tínhamos que comprar revistas escondidas nas bancas de jornais. Havia uma lei que obrigava os jornaleiros a embalar essas revistinhas (como eram chamadas) em embalagens opacas. Como se isso evitasse que fossem compradas pelos adolescentes com os hormônios à flor da pele.

Não tenho registro disso, mas certamente o rádio, quando surgiu, provavelmente também foi objeto de muito debate sobre os seus malefícios para a boa formação dos jovens. O rádio, inclusive, foi o veículo principal de propagação das ideias nazistas, que se espalharam na Alemanha, e depois na Europa, na década de 30.

Voltando muito mais no tempo, o filósofo Yuval Noah Harari, em seu mais novo livro, Nexus, descreve como a invenção da imprensa teve um papel fundamental no que ficou conhecido como “caça às bruxas” nos séculos XVI e XVII. O que seria uma teoria da conspiração restrita a poucas pessoas, foi multiplicada pela Europa inteira nas páginas de livros reproduzidos aos milhares. A capacidade de reproduzir ideias em escala industrial foi fundamental para levar à morte milhares de pessoas em um frenesi de violência.

Tudo isso me leva a pensar que toda época tem o seu bicho-papão tecnológico, que serve como veículo para a maldade humana, essa sim, imutável. A tecnologia em si é agnóstica; quem a usa de maneira boa ou má é o ser humano. Colocar a culpa dos problemas de nossos adolescentes nas redes sociais é terceirizar a responsabilidade pela sua educação. Sim, seria muito mais fácil se não houvesse redes sociais, ou celulares, ou jogos eletrônicos, ou TV, ou rádio, ou imprensa. Mas esse é o mundo que nos cabe viver. Daqui a 25 anos, estaremos discutindo outras ameaças que sequer conseguimos imaginar.

A tecnologia traz riscos, mas também nos empurra para frente. Cabe aos pais e responsáveis lidar com esse mundo, e não suspirar por um em que essas dificuldades não existam.

Marcelo Guterman

Engenheiro que virou suco no mercado financeiro, tem mestrado em Economia e foi professor do MBA de finanças do IBMEC. Suas áreas de interesse são economia, história e, claro, política, onde tudo se decide. Foi convidado a participar deste espaço por compartilhar suas mal traçadas linhas no Facebook, o que, sabe-se lá por qual misteriosa razão, chamou a atenção do organizador do blog.

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