Opinião

Será que algum dia conseguiremos ter uma discussão adulta sobre o aborto?

Confúcio disse que há três formas de aprender; pela reflexão, pela observação e pelo sofrimento. E esta última pode levar à morte antes do conhecimento.

Qualquer discussão que se proponha a ser objetiva sobre um tema tão controverso e espinhoso como é o caso do aborto, deve passar pelos dois estágios; o da reflexão e o da observação.

Começando pelo começo, o que leva ao aborto? Uma gravidez indesejada. E o que pode causar uma gravidez indesejada? Uma relação sexual feita sem os devidos cuidados contraceptivos. Ou muito azar, como dizem alguns.

Ora, sendo assim a solução mais fácil parece ser a da castidade absoluta. Esta é uma primeira reflexão. E o mundo já acreditou nisto em outras épocas, na verdade até muito pouco tempo atrás. Na minha adolescência, nos anos 1960, ainda se falava que moças decentes casavam virgens, que sexo era pecado e otras cositas mas. Só que os malefícios que estas crenças causavam à sociedade ficaram tão evidentes (observação!), que as mulheres buscaram a sua liberdade. E conseguiram, com o apoio dos homens inteligentes. Até hoje há bolsões de resistência, mas o fato é que o direito da mulher à sua sexualidade é hoje inquestionável em qualquer lugar civilizado do mundo. Qualquer retrocesso com relação a isto é impensável. Simples assim.

Antes que alguém comente; sim, eu sei que havia relações sexuais escondidas e abortos mais escondidos ainda nos anos 1960 e anteriores. Mas não precisa ser um gênio em estatística para entender que quanto maior o número de mulheres fazendo sexo, maior o número de engravidamentos indesejados. Fecho o parêntese.

“Já que é inevitável, relaxa e goza” (Marta Suplicy, sexóloga e filósofa ocasional)

Esta frase poderia ser um fecho para o raciocínio anterior; já que não voltaremos à pretensa “castidade total”, o negócio é deixar rolar. Não exatamente. Eu penso que gozar sim, sempre, mas relaxar, no sentido total da palavra, não.  Fazendo uma reflexão sobre o assunto, a relação entre o ser humano e o prazer sempre foi tumultuada e até hoje não é totalmente resolvida. Dando o exemplo da bebida; tomar umas cervejas com os amigos é ótimo, mas tomar umas cervejas e sair dirigindo um carro é muito perigoso. Na dúvida, algumas sociedades tentam resolver o problema proibindo o consumo de álcool – só que a repressão pode ter efeitos colaterais perversos, como os americanos aprenderam (pelo sofrimento!) na época da Lei Seca. A observação nos mostra que as sociedades mais avançadas apostam na educação; tenha o prazer da bebida, com responsabilidade. E leis muito rígidas para os casos de transgressão.

No caso do sexo, entendo que qualquer tabu com relação à educação sexual tem que ser retirado de cena. Tanto nas escolas como em casa, é obrigação de pais e professores orientarem os jovens para ter prazer com responsabilidade. Sem dúvida é este o caminho. E o Brasil, como não poderia deixar de ser, está mega atrasado neste quesito.

OK, temos uma gravidez indesejada. E agora?

O que torna a discussão sobre o aborto bem mais complexa, é que ela se baseia em premissas contraditórias – e, de certa forma, ambas estão certas. A primeira é; o feto é um ser vivo? A resposta é sim. A segunda é; o feto faz parte do corpo da mulher? A resposta também é sim. E aí fecha-se o ciclo da lógica; se é parte do corpo da mulher, ela pode se livrar dele, se é um ser autônomo, ela não pode se livrar dele. Acabou a racionalidade, começam as crenças.

Tentando manter a discussão no campo das ideias, devo dizer que sou cristão, reencarnista, e entendo que, a partir da concepção, existe um espírito que pretende vir. Portanto, NA MINHA VISÃO, o aborto impede que o ciclo da vida e da espiritualidade se conclua. Portanto, sou contra. Sem me dar o direito de condenar quem fez ou faz. Acredito num Deus de amor e perdão. Só isto.

Por outro lado, sei que faço parte de uma sociedade, na qual devo conviver, civilizadamente, com opiniões e visões diferentes da minha. E entendo que as leis que regem uma sociedade devem, na medida do possível, refletir um consenso. Portanto, a observação me leva a entender que existem pessoas tão boas ou melhores que eu que não acreditam nas mesmas coisas que eu, e entendem que um óvulo fecundado (pelo menos nas primeiras semanas) não é um ser vivo autônomo, e, portanto, é direito da mãe eliminá-lo cirurgicamente, com toda a segurança, sem agir como uma criminosa nem ser obrigada a procurar criminosos para o procedimento.

Neste momento a busca por informações é importante; quantas mulheres passam por isto? Quais as consequências para a sociedade? Como os países mais desenvolvidos lidam com esta situação?

Sabe-se que é muito difícil obter estatísticas confiáveis numa área como esta, mas a própria OMS se preocupa seriamente com o assunto (ver https://news.un.org/pt/story/2022/03/1782252 ), e admite números em torno de 39 mil mortes e milhões de internações por ano no mundo todo. Para surpresa de absolutamente ninguém, a imensa maioria destes casos de óbitos e sequelas acontece em países onde o aborto é ilegal. E é também nestes países que os números são menos confiáveis e, provavelmente, são bem maiores.

Com relação às leis dos demais países, este mapa me parece bastante esclarecedor (ver https://exame.com/wp-content/uploads/2020/12/aborto.jpg?quality=70&strip=info ). Os países mais ricos, com melhor IDH, melhor educação, sociedades menos violentas e desiguais, são os que têm as leis mais flexíveis. É só olhar. Que cada um faça as suas reflexões. Eu fiz as minhas.

Last but not the least, existe a questão dos profissionais de medicina. Afinal, se o aborto vai se tornar um procedimento legal alguns médicos vão ter que ser treinados para isto. Os questionamentos éticos que esta situação pode gerar não são nada desprezíveis. De qualquer forma, entendo que já devem ter sido resolvidos nos outros países. Enfim, é mais uma variável nesta equação já muito complexa.

Epílogo; como é que a gente sai desta?

Meu posicionamento final sobre o assunto pode ser resumido em quatro pontos;

  1. Minha posição pessoal é contrária ao aborto, pela minha formação e valores cristãos e espirituais;
  2. Estas mesmas convicções cristãs me dizem que não estou autorizado a julgar ou condenar qualquer irmão, portanto a opinião deles tem tanto valor quanto a minha;
  3. Através da observação e da reflexão conclui que os países que melhor resolvem todas as questões sociais e de saúde relacionadas ao aborto são aqueles onde a prática é legalizada de alguma forma, portanto entendo que o Brasil deve seguir o mesmo caminho;
  4. Independentemente de qualquer outra coisa, entendo que a educação sexual é prioritária para que o número de abortos diminua.

Infelizmente, no Brasil não se preza a educação, nem o aprendizado, muito menos a observação e a reflexão. Sempre escolhemos a via do sofrimento. Basta ver os dois trastes populistas que dividem as preferências do eleitorado para este ano. E a qualidade do debate entre seus seguidores.

De qualquer forma, é assim que eu entendo o problema e as possíveis soluções. Aceito discordâncias e argumentação contrária, desde que civilizada e baseada em fatos e evidências. Só isto.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 70 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e escreve artigos sobre qualquer assunto desde os tempos do jornal mural do colégio; hoje, mais moderno, usa o LinkedIn, o Facebook, o Boteco ou qualquer lugar que aceite publicá-lo. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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Um Comentário

  1. que texto perfeito!

    E, concordo 100% . Eu dou um copy-paste em tudo que você escreveu…

    Me permite compartilha-lo, principalmente nos grupos de pais da escola da minha filha?

    E, como achei este texto tão bom, e tão importante de ser lido por pais de adolescentes, me permite a liberalidade de, não apenas postar o link, mas tambem dar um copy-paste no texto, para ter certeza que mais pessoas leiam, ja direto nos grupos?

    Isso irá diminiuir o potencial de acessos à sua pagina, mas acho o conteudo do que vc escreveu tão relevante que é importante que alcance o maior numero possivelk de pessoas…

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