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Adolescência Encharcada

Com uma adolescente de 17 anos em casa e a retomada da vida normal pós pandemia, fui surpreendido com a liberdade e conivência dos pais em relação ao consumo de bebidas alcoólicas.

Estamos falando de uma classe social extremamente privilegiada, com acesso irrestrito a todo tipo de bebida, drogas e (ao menos se esperaria) informação.

Porém a informação cientificamente contundente, aparentemente sucumbiu àquela conversa fiada de que “um pouco não faz mal”, “todo mundo usa”, “eu usava escondido na minha época, não quero que faça nada escondido” (Talvez tenha sucumbido aos interesses escusos da indústria do álcool e drogas, mas isso é papo para outro dia).  

Adolescentes que começam a beber aos 14 anos têm 4 vezes mais chances de se tornarem dependentes de álcool ao longo da vida, em relação às pessoas que começam a beber aos 21 anos de idade. 

E não significa que aos 14 anos o moleque já tem que encher a cara para ter esse risco aumentado. Basta começar a beber com alguma regularidade, interferindo no adequado desenvolvimento cerebral e favorecendo uma conexão inerente ao hábito, que a festa e a diversão só serão completas se tiver álcool envolvido (ou qualquer outra substância entorpecente). 

Nem preciso falar que o consumo de álcool na adolescência está intrinsecamente associado à violência, acidentes, estupro, doenças sexualmente trasmissíveis, gravidez não planejada. 

O cérebro demora para se formar integralmente, estruturalmente isso só ocorre lá pelos 21 anos de idade (por isso em muitos países, por lei, só é permitido consumir bebida alcoólica a partir dessa idade). Das áreas cerebrais que mais demoram para se estruturar, estão lobo pré-frontal e sistema límbico. 

Resumidamente o Lobo Pré-Frontal é nosso filtro, é ele que controla nossos impulsos, define nossas decisões comportamentais, é responsável pelo foco e atenção. 

É a primeira área cerebral a ser afetada quando o indivíduo faz uso de álcool. E como ele controla o impulso, é fácil de entender porque tantas pessoas (mesmo adultas), depois de tomar uma ou duas long necks, só param de beber quando acaba a bebida, o dinheiro ou a tolerância do fígado, até um blackout. 

Também é fácil de perceber o porquê os adolescente são mais suscetíveis a abusos de substâncias, justamente pelo lobo pré-frontal não estar totalmente formado o adolescente é mais suscetível a “chutar o pau da barraca” com uma pequena dose de álcool. Aliás, o adolescente tem mais dificuldade de controlar o impulso para não comer a sobremesa antes do almoço, imagine para conseguir dizer “não” para mais uma dose.

O sistema límbico, associado à Amígdala cerebral (não é a da garganta… quem tirou a amígdala com Otorrino, não vai ficar emocionalmente embotado) é responsável pela resposta emocional do indivíduo, e também demora para se estruturar para a vida adulta. 

Quanto mais cedo e mais intenso é o uso de álcool e drogas, mais  isso vai interferir no desenvolvimento cerebral, principalmente nessas duas áreas, gerando adultos mais impulsivos, intempestivos e emocionalmente mais instáveis, muitas vezes já acostumados ao uso de seus entorpecentes de preferência para amenizar o impacto de um cérebro que funciona aquém do que biologicamente poderia e condicionados ao entendimento que só haverá prazer se houver a bebida (ou a droga)… é juntar a fome com a vontade de comer para o desenvolvimento de dependência química, de outras doenças psiquiátricas e todas suas consequências. 

Nos dias de hoje, mesmo com um cérebro biologicamente funcionando a pleno vapor, a vida já se apresenta com tantos obstáculos, imagine para um cérebro restrito em sua potencialidade, pela negligência de pais que não orientam, não cuidam e muitas vezes ainda incentivam. 

Haja psiquiatria e psicologia para as gerações futuras.

Cuidem dos seus filhos, o desenrolar favorável do desenvolvimento deles, depende de pais presentes, atentos, gerindo uma “liberdade vigiada” e orientada.

Carlos Augusto (Guto) Loyola

Como bom curitibano acostumado com socialização no varejo, mantém certo distanciamento social desde antes da pandemia. Fissurado em vida Outdoor, vascaíno por herança familiar carioca. Quando não está numa trilha, tentando jogar futebol, pedalando ou no mar - tudo isso acompanhado de esposa e filhos - é psiquiatra clínico e forense. Tenta, com pouquíssimo sucesso, diferenciar-se da maioria dos médicos que só sabem falar de medicina.

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