Opinião

A vocação da irrelevância (ou; Angela Merkel, go home!)

Entre todas as histórias que se contaram sobre a trajetória de Angela Merkel como grande estadista mundial, a que mais me chamou a atenção foi sobre seu diálogo com o líder russo Vladimir Putin, no auge da crise entre Rússia e Ucrânia. Putin é, certamente, uma figura complicada de lidar, e seu comportamento escorregadio, aliado à potência militar de seu país, representava naquele momento uma séria ameaça à estabilidade do planeta. E um dos grandes trunfos que Merkel usou para ter sucesso no diálogo com ele foi o fato de falar russo fluentemente – assim dispensou o uso de intérpretes e falou “olhando no olho”, como bem mostra a foto. Qualquer um que já tenha participado de uma negociação com pessoas que falam outro idioma sabe a diferença que isto faz. Infelizmente, no macunaímico Reino de Bananas esta (assim como várias outras competências da chanceler alemã) não é muito valorizada. E vou contar dois causos da minha vivência de 40 anos na Petrobras que ajudam a demonstrar a minha tese.

Não seja competente, seja amigo do rei

Na virada do século (ainda no governo FHC), participei de um projeto de tecnologia feito em conjunto entre a Petrobras e uma empresa americana. A abertura da primeira reunião (pomposamente denominada “Kick-off Meeting”), foi feita por um alto executivo da Petrobras, cujo nome obviamente não vou revelar. E na hora de fazer seu discurso – uma mera mensagem de boas-vindas aos gringos e desejo de sucesso na empreitada – o cidadão pura e simplesmente avisou que não falava inglês, e pediu para que nós, os reles mortais, traduzíssemos as palavras dele para os caras. Deu seu recado em dois minutos, virou as costas e foi embora. Agiu como um gerente VUCA – Vaidoso, Ultrapassado, Cretino e Arrogante. Para quem não é do ramo, explico que esta sigla, no mundo civilizado, é usada para descrever o mundo atual (Volatile, Unknown, Complex and Ambiguous). Piadinha de quinta série no mundo corporativo. Segue o jogo.

As reuniões técnicas foram muito boas e, no último dia, o chefe do time deles (um inglês baixinho, educadíssimo, um verdadeiro gentleman britânico), me chamou num canto e falou;

– Hervé, você me desculpa, mas tem uma coisa que ninguém consegue entender na sua empresa.

Curioso, perguntei o que era.

– Você e todos os técnicos que participaram das reuniões falam um inglês muito bom, e isto agilizou muito a nossa agenda. Já negociei com empresas do mundo todo e posso dizer que a equipe de vocês é uma das melhores que conheci. Por isto a gente não consegue entender como o executivo mais alto da sua área – o “Big boss” – não fala nem o suficiente para dar “bom dia” em inglês. E o pior é que parece que nem se preocupa com isto.

E jogou a pá de cal nas minhas esperanças com sua frase final;

– Como é que este cara espera fazer negociações de alto nível com empresas estrangeiras falando português? Ninguém vai confiar nele!

Confesso que fiquei com cara de bunda. Como explicar em inglês pro gringo que o cara era o queridinho do senador Fulano de Tal, e que isto, no Brasil, era muito mais importante do que qualquer competência? Não lembro como sai dessa, acho que tentei mudar de assunto. Mas foi bem desagradável.

“Quando uma ideologia fica bem velhinha, ela vem morar no Brasil” (Millôr Fernandes)

Uns dez anos depois, já sob a égide do PT, aconteceu outro episódio inesquecível sobre o mesmo tema. Um trabalho apresentado por um colega nosso foi premiado por uma importante instituição internacional. Feliz e orgulhoso do seu feito, ele mandou um e-mail para o seu chefe dando a boa notícia, e o e-mail foi repassado para cima até chegar a um altíssimo executivo (cujo nome também não vou revelar, of course). Pois o “Big Boss”, ao invés de cumprimentar o empregado, mandou de volta um “textão” criticando fortemente o fato do rapaz ter a sua assinatura eletrônica em inglês (tipo; engineer, cell phone e outras). Lembro que ele usou a palavra “lusófono” e fez um longo arrazoado sobre a importância do idioma como identidade cultural, ou algo parecido. Nem uma palavra de elogio.

Resumindo, o cidadão ainda estava no “Yankees, go home!”, dos anos 1960. Na visão dele o inglês era a linguagem do demônio, utilizada pelos malvados americanos para dominar o mundo. Fiéis ao lema hierárquico brasileiro no qual “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, os executivos abaixo dele na cadeia alimentar limitaram-se a repassar o texto absurdo – e, durante algum tempo, falar inglês dentro da Petrobras foi visto como crime inafiançável. Por estas e por outras, chegamos aonde chegamos (vale dizer que este executivo, em particular, nunca esteve envolvido em casos de corrupção. Um homem integro, competente, vítima de cegueira ideológica crônica. Apenas isto).

Vai daí que…

Somando as três histórias, fica claro para mim que o Brasil tinha tudo para ser um grande player mundial, mas insistimos em tropeçar nas nossas próprias pernas até em questões ridículas como esta. Certamente o currículo de Angela Merkel não teria repercussão positiva junto ao nosso eleitorado. Basta ver que os dois candidatos mais fortes para a eleição de 2022 (Lula e Bolsonaro) mal sabem falar português. E isto é visto como uma vantagem competitiva: “eles falam a linguagem do povão!”.

Pensando bem, esta pode ser uma boa explicação para o “voo de galinha” que foi a tentativa de Lula se firmar como líder internacional. Ele tinha tudo; carisma, inteligência e uma bela história de vida, só que um sujeito que não fala nem um portunhol mais ou menos razoável não vai longe. Num primeiro momento ele chegou até a impressionar gente do nível de Barack Obama, mas como não se pode enganar todo mundo por todo o tempo, ele mesmo percebeu que era mais fácil e lucrativo ser líder de quadrilha por aqui mesmo, e tudo acabou por aí. E, como é possível enganar parte do povo por todo o tempo, ainda tem muitos fiéis seguidores pelo Brasil todo, tanto que as pesquisas apontam que pode ser eleito até em primeiro turno, mesmo depois de tudo o que aprontou. Coisas do Reino de Bananas…

Já Bolsonaro pelo menos conhece seus limites, e dá-se por satisfeito em comer pizza na rua em New York e salvar sua prole da cadeia. A escolha de Donald Trump como referência na política internacional mostra claramente sua total incompetência nesta área. Sem comentários.

Resumindo, o fator mais importante para que um país se torne grande são os valores e crenças de seu povo. A frase não é minha, é de Douglass North, prêmio Nobel de economia em 1993. Infelizmente, o Brasil tem a vocação da irrelevância. E o pior é que ninguém parece preocupado com isto. Já que não temos prêmio Nobel de nada, fico com a frase do Capitão Nascimento; Nunca serão!

Pelo jeito, nunca seremos. Sad but true.

Marcio Hervé

Márcio Hervé, 69 anos, engenheiro aposentado da Petrobras, gaúcho radicado no Rio desde 1976 mas gremista até hoje. Especializado em Gestão de Projetos, é palestrante, professor, tem um livro publicado (Surfando a Terceira Onda no Gerenciamento de Projetos) e um blog www.causosdoherve.blogspot.com. Casado com a mesma mulher desde o século passado, tem um casal de filhos e um casal de netos.

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