Atualidades

O protagonista que nunca foi

Talento mal posicionado é risco organizacional

Promoções equivocadas quase sempre começam com entusiasmo. Confunde-se talento técnico com capacidade de liderança, excelência individual com protagonismo estrutural, e o resultado costuma ser previsível: frustração de ambos os lados. O episódio envolvendo Philippe Coutinho no Vasco é menos uma história sobre futebol e mais um caso clássico de desalinhamento estratégico.

Philippe Coutinho, 33 anos, craque vascaino, considerado por muitos o melhor jogador da sua geração depois de Neymar, pediu a rescisão do contrato. Em resumo, não suportou a pressão e o excesso de cobrança; estava mentalmente desgastado e infeliz.

Mas vale ir além da superfície. Temos aqui um caso que pode cobrir vários assuntos: liderança,, definição de expectativas e alinhamento de perfil com função, temas que extrapolam o futebol e dialogam diretamente com a vida profissional e pessoal.

Coutinho chegou carregando a esperança de uma torcida sofrida, que enxergava no “cria da Colina” uma possibilidade de redenção após décadas de frustração. Em pouco mais de um ano no clube, não foi mal. Tampouco foi brilhante. Eu daria nota 6. Era, de longe, o jogador mais talentoso do elenco, mas nem sempre se encaixava no esquema tático ou conseguia ser decisivo.

Há um ponto pouco discutido: Coutinho nunca foi o protagonista nas equipes por onde passou. Sempre foi peça relevante na engrenagem, muitas vezes brilhante, mas raramente “o cara”. Talvez pela personalidade mais introvertida, não costumava chamar para si a responsabilidade máxima. E, quando isso lhe era exigido, o desempenho oscilava.

Quem não lembra da Copa de 2018. Brilhou na fase de grupos, a imprensa já ensaiava colocá-lo acima de Neymar em protagonismo, os holofotes se voltaram para ele, e o rendimento caiu justamente nos ‘mata-matas’.

No Vasco, recebeu a missão de ser protagonista e líder, com faixa de capitão e expectativa de redenção coletiva, sem jamais ter exercido esse papel de forma consistente ao longo da carreira. Não funcionou.

Talvez pudesse ter sido muito mais produtivo como coadjuvante de um outro protagonista. Rayan poderia ter ocupado esse espaço, mas saiu cedo. Coutinho, como ator principal, não sustentou o papel.

Trata-se de um jogador extremamente talentoso, mas colocado em uma função desalinhada às suas características. É como exigir de um craque em finanças que lidere a área de marketing. Pode até ser inteligente, competente, respeitado, mas o perfil comportamental e as aptidões naturais nem sempre conversam com a função.

Quantas vezes não vemos isso nas corporações? Profissionais tecnicamente brilhantes promovidos a posições de liderança para as quais não têm vocação, ou pessoas pressionadas a assumir papéis que não combinam com sua natureza.

Aqui não há certo ou errado, e sim imadequação. Você não pode trazer um porco para casa esperando ouvir latidos. A comparação é simplista, mas ilustra o ponto de que expectativas desajustadas da realidade geram frustraçâo.

A torcida colocou o nível de expectativa nas alturas. Ele próprio, provavelmente, sentiu o peso de não corresponder à euforia inicial. Frustração mútua.


Poderia ter dado certo? Eu diria que sim, desde que não lhe fosse atribuído o papel de protagonista absoluto e líder emocional do grupo. Algumas características são inatas, há desafios que não podem ser resolvidos com treino ou discurso motivacional. Ninguém é excelente em tudo.

Como vascaíno, lamento o desfecho e desejo o melhor a Coutinho, que parece ser um profissional correto e um sujeito de bom caráter. Mas o episódio deixa uma lição valiosa: talento sem encaixe adequado raramente floresce. E expectativa mal calibrada costuma ser o início da decepção.

Ps** Outra observação importante: fazer uma análise post mortem como esta é relativamente simples. Difícil é antecipá-la, sem se deixar capturar pela euforia coletiva. Eu mesmo, como torcedor, embarquei na onda e me enchi de esperança , ainda que o diagnóstico estivesse ali, disponível desde o início.

Victor Loyola

Victor Loyola, engenheiro eletrônico que faz carreira no mercado financeiro, e que desde 2012 alimenta seu blog com textos sobre os mais diversos assuntos, agora incluído sob a plataforma do Boteco, cuja missão é disseminar boa leitura, tanto como informação, quanto opinião.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Send this to a friend