Opinião
Tendência

STAKEHOLDERS & SHAREHOLDERS: Para quem você trabalha?

“EU TENHO DEVOTADO A MINHA CARREIRA E DESFAZER TUDO O QUE JACK WELCH FEZ”

Simon Sinek, autor, palestrante e mentor de liderança

“Os negócios têm uma e apenas uma responsabilidade social: usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a aumentar seus lucros, conquanto permaneça sob as regras do jogo.”

Há inúmeros componentes no sucesso de um negócio, muitos externos a ele próprio. Cadeia produtiva, fornecedores, entidades de classe, serviços públicos, concessões, agentes fiscais e tributários, circunstâncias macro-econômicas, tendências comportamentais, disponibilidade tecnológica, época e contexto social etc. Além, claro, dos clientes e de todos os funcionários e colaboradores internos.

Essas camadas de relacionamento da empresa com o restante do mundo que, direta e indiretamente participam da sua cadeia produtiva, são os STAKEHOLDERS. Os Shareholders, bem sabemos, são os acionistas.

Sempre e mais uma vez aqui, estamos diante do desafio pessoal de questionar: para que e, nessa medida, para quem trabalhamos? A ética social passa pela consciência pessoal dessas respostas. Qual a finalidade do nosso trabalho? Com quem estou contribuindo? A quem estou ajudando? Não é sempre que pensamos sobre isso, eu sei. Mas é um dever ético.

Se concordamos com a frase inicial, estamos trabalhando apenas para os Shareholders. E a provocação necessária é: a empresa não precisa ter compromisso social nenhum, com elementos como geração de mais empregos, pagamento honesto de tributos e consciência ambiental (reconhecimento e retribuição)? Não precisa entender e endereçar as necessidades do capital humano, interno e externo, que contribui para o seu sucesso (empatia)? O choque é inevitável: o incremento do lucro (enriquecimento dos acionistas no postulado inicial) como objetivo final, fatalmente encontrará barreiras e limites no necessário respeito aos valores sociais e nos compromissos com a empatia e reconhecimento com indivíduos e organismos sociais e a sua eticamente devida retribuição a todos esses agentes, os Shareholders?

A frase de início é do economista Milton Friedman, de 1970. Seis anos depois, foi agraciado com o Nobel de Economia. Frenesi no mundo das finanças e dos executivos, essa tese gerou sistemas de gestão insensíveis e impermeáveis a qualquer sentido de responsabilidade social, retribuição e empatia corporativa. Reduzir custos e “reorganizar a empresa” (leia-se, demissões) passou a ser a pepita de ouro dos executivos de “sucesso”. Entrega de resultados no trimestre (e generosos bônus assegurados), à custa de resultados insustentáveis a longo prazo, população de empregos insalubres  e absoluta ausência de freios de proteção ao conjunto social, como meio ambiente e dumping salarial, por exemplo. Basta pensar em comunidades inteiras que dependem das empresas estabelecidas na cidade, em torno das quais gira quase toda a sua economia: como separar a extração do lucro dos acionistas das responsabilidades sociais que essas empresas devem ter para com a comunidade? Por ética, reconhecimento, empatia e retribuição?

Jack Welch, a própria epítome prática dessa filosofia na gestão executiva, é um dos ícones desse modelo. Simon Sinek, recentemente declarou “eu tenho devotado a minha carreira e desfazer tudo o que Jack Welch fez”. Link:

Exagero? Parece que não. Ao contrário, exagero foi o que as últimas décadas, a partir dos anos 80 e até hoje, produziram em técnicas de liderança a partir de Friedman. Simon Sinek está muito bem acompanhado em sua crítica: Bob Reich, economista e professor emérito da Berkley  em seu brilhante “Coming up Short” e Michael Sandel, filósofo e professor do curso “Justice”, o mais procurado da Harvard Law School, discorrem, debatem e pregam, por diferentes vias e caminhos, a mesma e necessária desconstrução desse modelo.

A iniciativa e os compromissos do ESG, felizmente abraçada pela maioria das corporações, oferece atualmente uma resposta e indica a tendência para esse desafio.

A provocação vale para todos nós. Para que e para quem trabalhamos?

Vamos refletir sobre isso?

Max Basile

Executivo internacional com mais de 25 anos no mercado de meios pagamento e serviços financeiros. Vivência em posições c-level em empresas líderes no segmento, com liderança de turn around e gestão de times de mais de 100 pessoas. Experiência de 6 anos nos eua e mais de 20 anos de liderança direta de negócios e parcerias na américa latina e europa. Exposição e reconhecimento global, locutor convidado frequente na latam, emea e apac sobre liderança e desenvolvimento de negócios nas áreas de pagamentos e financeiros.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Send this to a friend