O que realmente muda no Irã?

Para entender as chances de uma mudança real de regime no Irã é preciso, antes de mais nada, entender como as mudanças de regime ocorrem. O próprio Irã teve uma, em 1979, e será útil comparar a situação atual com a da época.
Antes, vamos voltar um pouco mais no tempo, precisamente para 1953, quando o Xá Reza Pahlevi toma o poder através de um golpe de Estado apoiado por EUA e Reino Unido. Os britânicos estavam mordidos pela nacionalização da Cia de Petróleo Anglo-Persa, enquanto os EUA estavam tomados pela paranoia da guerra fria, e um governo independente com enorme fronteira com a União Soviética não era tolerável. Assim, o Ocidente ajudou a derrubar um governo democraticamente eleito para instalar um regime ditatorial amigo.
Como todo ditador que se preze, Reza Pahlevi não economizou nos instrumentos de repressão política. Mandou para o exílio vários oponentes, dentre os quais o Aiatolá Khomeini, em 1964.
Na década de 70, o boom dos preços do petróleo deveria servir como um instrumento de apaziguamento de tensões sociais. Mas, também como toda ditadura que se preze, a corrupção corria solta, e a riqueza adicional foi parar nas mãos das elites em torno do Xá. Essa história conhecemos bem: país rico, povo pobre.
A combinação de repressão política e sofrimento social, além do sentimento anti-americano, fez com que, a partir de 1977, protestos populares tomassem as ruas. Os manifestantes eram liderados por uma aliança improvável de clérigos com intelectuais de esquerda, cada grupo com suas motivações próprias. As manifestações do segundo semestre de 1978 fariam parecer os protestos atuais um piquenique no parque. Milhões de pessoas se reuniam a cada vez, em protestos cada vez mais violentos.
Em janeiro de 1979, tendo perdido o apoio do governo Carter, o Xá abre mão do poder e segue para o exílio, deixando o governo nas mãos do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, que não duraria dois meses no cargo. Ainda em janeiro, Bakhtiar anistia os asilados políticos, o que permite a volta de Khomeini ao país. Em março, Khomeini consolida o seu poder, e patrocina um referendo: 98% da população escolhe um regime islâmico para o Irã. Tudo bem que uma votação com resultado de 98% é tudo menos honesta. Mas não deixa de ser uma demonstração de controle do poder.
Agora, vem a pergunta essencial: porque foram Khomeini e os clérigos que tomaram o poder, e não outros grupos que se alinharam para derrubar o Xá? Simples: porque 1) era o único grupo organizado e pronto para tomar o poder; 2) porque tinha um líder forte e inconteste e 3) porque era o grupo com maior apoio popular. Pode não ser 98%, mas certamente tinha o apoio da maior parte do povo.
Agora, eu pergunto: 1) qual o grupo iraniano organizado para tomar o poder? 2) quem é o líder inconteste desse grupo e 3) quem tem o apoio da maior parte da população?
A respeito dessa última questão, lembro do desastre do Afeganistão. 20 anos de domínio americano, com boots on the ground apoiando governos títeres. Nada disso adiantou. O último americano ainda estava limpando a poeira do seu coturno no helicóptero de saída do país, e o Talibã já estava no poder. Grupo organizado, líder inconteste e apoio popular.
Outro exemplo, no nosso quintal: Venezuela. Maduro preso, quem está comandando o país? O mesmo regime, com uma cara diferente. Khamenei morreu, quem vai substituí-lo? Reza Pahlavi, a Maria Corina do Irã, ou outro clérigo do regime? Façam suas apostas.
Sim, o regime dos aiatolás tornou-se cada vez mais impopular. Mas ainda tem o controle de imenso aparato de poder, e matar o líder não será suficiente para mudar o regime. A não ser que Trump decida iniciar uma guerra de verdade, e não uma operação cirúrgica. Tirar um líder do poder é uma coisa. Governar um país de quase 90 milhões de habitantes é outra bem diferente.




