Menu

Os seres humanos somos livres para escolher, mas nossas escolhas são limitadas por um menu.
Esta simples e óbvia constatação é um fato da vida, e consequência da natureza do mundo material em que existimos. Este mundo é limitado fisicamente pelo espaço e pelo tempo. Ter infinitas escolhas é uma impossibilidade metafísica.
Outro fato da vida é que o menu das nossas escolhas mais básicas e importantes é definido aleatoriamente pela natureza. A loteria dos genes nos coloca em uma determinada família e em uma determinada sociedade, limitando nossas escolhas a zero de jogo. O lugar onde vivemos também limita nossas escolhas, desde a escola que frequentamos até o supermercado onde fazemos compras.
Além da aleatoriedade da natureza, temos os menus criados propositalmente por terceiros. Quando vamos a um supermercado, temos um menu limitado de escolha de marcas. Se a nossa marca preferida não está lá, só temos a opção de não comprar, o que provocará o perrengue de ter que ir a outro supermercado. Podemos escolher a priori o supermercado onde saibamos que vamos encontrar o produto que queremos, assim como escolhemos o restaurante que tem o menu de nossa preferência. Mas, uma vez dentro do supermercado ou do restaurante, estamos limitados pelo menu.
A Internet foi uma revolução porque expandiu de maneira exponencial o menu disponível. Nosso supermercado, hoje, é o mundo inteiro, ainda que a logística imponha os seus limites. Não podemos, por exemplo, pedir um delivery de um restaurante de Nova York, ou namorar pra valer um rapaz ou moça da França. Nossa realidade física ainda impõe limites, mas o menu, sem dúvida, se expandiu.
Depois deste longo preâmbulo, entro na crítica ao artigo do professor Marco Aurélio Nogueira, reproduzido a seguir. Segundo o articulista, o homem moderno “perdeu um bocado de liberdade e autonomia”, apesar de parecer justamente o contrário, como espero ter deixado claro no preâmbulo. E por que isso? Segundo o professor, porque “toda a atenção [das pessoas] passa obrigatoriamente pelos filtros e menus oferecidos pelo sistema digital”.

Vemos, de cara, a falácia do raciocínio. Se você me acompanhou até aqui, entendeu que sempre estamos sujeitos a um menu de escolhas. Faz parte da natureza humana. Portanto, atribuir à existência de um menu a perda de liberdade e autonomia é o mesmo que afirmar que o ser humano não tem liberdade de forma alguma, dado que o menu de opções faz parte própria da realidade humana. O fato de o menu ser definido por uma plataforma na internet não muda a natureza do problema.
A questão do professor Marco Aurélio, no entanto, não é com a existência de menus, mas com quem produz os menus. O professor cita Habermas, suspirando por um mundo em que “sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderiam fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes”. E quem contribuiria para que esse debate racional de ideias ocorresse? Aqui está o pulo do gato. Segundo o professor, “partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil […] contribuíram para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas”.É o velho mito da sociedade tutelada racionalmente por uma elite iluminada, em que o debate público esclarece as questões controversas e concluiu pelo belo e pelo bom. Obviamente, o belo e o bom de acordo com a visão de mundo do professor Marco Aurélio.
É o velho mito da sociedade tutelada racionalmente por uma elite iluminada, em que o debate público esclarece as questões controversas e concluiu pelo belo e pelo bom. Obviamente, o belo e o bom de acordo com a visão de mundo do professor Marco Aurélio.
Segundo o professor, a “revolução digital”, controlada por “grandes monopólios”, veio para acabar com esse mundo idílico. Não custa lembrar que o nazismo prosperou em uma sociedade em que havia “partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil” muito antes de qualquer revolução digital. Difícil colocar a culpa no Facebook ou no Google, no caso.
A revolução digital veio, sim, expandir o menu da humanidade, e isso vale também para a intermediação do debate político. O monopólio dos “partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil” sobre o menu oferecido para a patuleia foi quebrado, e, agora, precisa conviver com um sistema descentralizado, em que todos se comunicam com todos em tempo real.
Apontar o dedo para os algoritmos das redes sociais, como se Meta e Google fossem atores políticos e não simplesmente maximizadores de lucro, é desviar o foco da questão. Muito mais fácil colocar a culpa no bicho-papão das redes sociais do que enfrentar a questão muito mais difícil e fundamental de porque os “partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil” perderam relevância e estão sendo preteridos no menu oferecido à sociedade.




