Depois do futebol, a injustiça

Passou quase despercebida uma notícia que, se tivesse ocorrido em qualquer outro contexto, teria dominado manchetes por dias. No continente africano, a federação de futebol decidiu retirar de Senegal um título conquistado em campo na Copa da África e concedê-lo a Marrocos, derrotada na prorrogação por 1×0 após um empate sem gols no tempo regulamentar. Ainda cabe recurso, mas a decisão foi recebida com indignação generalizada e classificada, com razão, como algo que vai do controverso ao francamente vergonhoso.
Para quem não acompanhou o caso, vale recapitular o roteiro, que carrega doses generosas de drama. No último lance do tempo regulamentar, o árbitro marca um pênalti para Marrocos. Até hoje o lance divide opiniões, pois não há clareza se houve, de fato, ação faltosa do defensor senegalês. Nem o VAR conseguiu dissipar a névoa.Diante da marcação, os jogadores de Senegal, revoltados, abandonam o campo. Dez minutos depois, convencidos pelo capitão Sadio Mané, retornam. O marroquino Brahim Díaz cobra o pênalti e desperdiça. O jogo segue para a prorrogação e Senegal vence por 1×0, dentro das quatro linhas, no espaço onde, em tese, o futebol resolve suas disputas.
O que parecia resolvido em campo migrou para o terreno dos tribunais. A federação marroquina recorre, alegando abandono de campo por parte de Senegal. De fato, o regulamento prevê que uma equipe que abandone o campo deve ser punida com derrota por W.O. O problema, como quase sempre acontece, está nos detalhes, ou melhor, na ausência deles. O texto não especifica quanto tempo de ausência é necessário para caracterizar o abandono.
Aqui a história deixa de ser apenas esportiva e passa a ser um caso clássico de governança mal desenhada. Sem essa definição, a decisão torna-se inevitavelmente subjetiva, elástica, dependente do humor, da interpretação ou, no limite, da conveniência de quem julga.
Quem define o tempo necessário para configurar abandono? Se a regra silencia, a responsabilidade recai, por lógica, sobre o árbitro da partida. E se ele permitiu a continuidade do jogo, é porque não entendeu que houve abandono. Caso contrário, teria encerrado tudo ali mesmo e declarado Marrocos vencedor. Não o fez. O jogo continuou, o pênalti foi cobrado, houve prorrogação completa e um vencedor definido em campo.Sob essa ótica, falar em abandono depois do apito final soa como uma construção artificial, uma tentativa de reescrever o passado com base em uma interpretação oportunista de uma lacuna regulatória. Conceitualmente, é difícil sustentar a ideia de abandono quando a própria partida seguiu seu curso natural até o fim.
No meu entendimento, portanto, não houve abandono, e o recurso da federação marroquina deveria ter sido negado. O que tivemos foi um ato intempestivo, imprudente, talvez até irresponsável por parte de Senegal, mas que foi, na prática, absorvido pelo próprio andamento do jogo.
Essa história, embora nascida no futebol, oferece algumas lições que transcendem o esporte.
A primeira é quase óbvia, mas frequentemente negligenciada: um regulamento, contrato ou qualquer conjunto de regras mal redigido, com lacunas relevantes, é uma bomba-relógio. Mais cedo ou mais tarde, alguém encontrará uma forma de explorar essa ambiguidade.
A segunda é comportamental. Ações impulsivas, tomadas no calor do momento, podem abrir portas que depois não se consegue mais fechar. O abandono temporário de campo, ainda que revertido minutos depois, criou uma brecha. E brechas, quando há interesses relevantes em jogo, raramente permanecem inexploradas.
A terceira talvez seja a mais humana e desconfortável. Esperar bom senso e ‘fair play’ de todos os envolvidos quando há algo valioso em disputa, seja um título, poder ou dinheiro, é, na melhor das hipóteses, ingenuidade. Sempre haverá alguém disposto a esticar a corda até onde for possível. Às vezes, até além.
No fim das contas, o que mais impressiona não é apenas a decisão em si, mas o descolamento entre o que ocorreu no campo e o que foi decidido fora dele. Senegal venceu, celebrou, seus torcedores viveram o ápice emocional que só o esporte proporciona e não há canetada que o apague.
Por isso, independentemente do desfecho jurídico, fica a sensação de estarmos diante de uma das decisões mais constrangedoras da história do esporte. Um título concedido nessas circunstâncias não se sustenta no plano simbólico, emocional e moral. É difícil imaginar que alguém, do lado vencedor no papel, consiga celebrá-lo com verdadeiro orgulho.
Resta torcer para que a decisão seja revertida. Se não for, será uma pena, mas as lições permanecem. E, no fim, a história registrará aquilo que nenhuma decisão administrativa consegue alterar: o campeão moral e de direito da Copa da África foi Senegal.



