O país que normaliza o intolerável

O governo americano classificou nesta semana o PCC e o Comando Vermelho como FTOs (Foreign Terrorist Organizations), ou seja, organizações terroristas estrangeiras. A decisão passa a valer em 5 de junho e se insere numa tendência recente dos EUA de ampliar a aplicação do conceito para além dos tradicionais grupos ideológicos.

No passado, essa classificação estava normalmente associada a organizações como Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda ou FARC, grupos de motivação política, religiosa ou insurgente. Nos últimos anos, porém, os EUA passaram a enquadrar também facções criminosas violentas, fortemente ligadas ao narcotráfico internacional, ao controle territorial e ao uso sistemático da violência como mecanismo de intimidação social e econômica

.Entraram nessa lista grupos como o Tren de Aragua, da Venezuela, a MS-13 e o Barrio 18, da América Central, além de cartéis mexicanos e seus desdobramentos, como o Cartel del Noreste, herdeiro dos antigos Los Zetas. Nenhum deles funciona exatamente como o PCC, que talvez se aproxime mais de uma grande corporação do crime, altamente organizada, financeiramente sofisticada e com tentáculos espalhados por diferentes setores da economia. Ainda assim, a ampliação recente do entendimento americano tornou perfeitamente plausível o enquadramento do PCC e do CV nesse conceito.

Não vejo nisso qualquer atentado à soberania nacional, apesar da narrativa que parte do governo tenta emplacar. Diversos países latino-americanos convivem com organizações semelhantes já enquadradas nessa categoria e, até onde se saiba, nenhum foi invadido por isso.O que existe são consequências jurídicas, financeiras e diplomáticas mais duras contra redes criminosas transnacionais.

Infelizmente, no meio desse debate superficial em que se transformou a discussão pública brasileira, há uma pergunta muito mais relevante e desconfortável: como o Estado brasileiro permitiu, ao longo de décadas, o crescimento de organizações criminosas dessa magnitude?

Como chegamos ao ponto de facções nascidas dentro de presídios se transformarem em estruturas multinacionais do crime, com influência territorial, presença internacional, infiltração econômica e capacidade de coerção sobre comunidades inteiras?

Essa deveria ser a grande discussão.

O problema é que o Brasil normalizou a existência dessas organizações criminosas, a ponto de parecer razoável argumentar que “as nossas” seriam menos graves, menos violentas ou menos merecedoras desse tipo de classificação. Foi preciso um alerta vindo de fora para gerar algum desconforto institucional em torno de algo que há muito já deveria constranger profundamente as autoridades brasileiras.

Mas há um risco enorme de o debate nem sequer passar perto disso, permanecendo prisioneiro da guerra de narrativas. Segurança pública está no topo das preocupações do eleitor brasileiro. Quem sabe esse episódio não ajude, finalmente, a trazer essa discussão para a sala dos adultos. Porque, quando um país normaliza o intolerável, o absurdo deixa de causar constrangimento.

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