Eu vou sentir sua falta, meu amigo Chucky

Em tempos de internet, é comum nos depararmos com despedidas de animais de estimação nas redes sociais. Infelizmente, por uma série de razões biológicas, nossos amados bichinhos raramente ultrapassam vinte anos de vida.

Quando eu era criança, esse tempo era ainda menor. Quase não havia cuidados, rações, clínicas veterinárias. Os animais viviam soltos e muitos desapareciam ou morriam em acidentes. Eu não acompanhei, ou não me lembro, da morte de quase nenhum deles antes dos meus vinte anos. Talvez minha mãe não me deixasse ver. Talvez eles realmente tenham fugido, desaparecido rumo a um destino incerto. Só um deles marcou a minha memória. Era uma ninhada de três, de uma gata que escolhera casualmente meu quintal para cuidar dos seus filhos. Com poucos dias de vida, um deles parou de se mexer. Fui o primeiro a perceber e, apesar de ter vivenciado isso com apenas quatro anos, o som da mãe chorando pelo seu filhote ainda ressoa na minha memória. Perto desse dia, minha avó paterna faleceu. Eu me lembro do velório e, na minha cabeça infantil, tive a perfeita consciência de que não veria mais nem aquele gatinho sem nome, nem minha avó.

Há milhares de anos, provavelmente cães e gatos nos escolheram para esse relacionamento tão duradouro. Há diversas evidências arqueológicas que mostram a importância desses animais, muitos enterrados junto aos seus donos ou em cemitérios com lápides e escritos próprios.

Cada um, com sua linguagem e suas peculiaridades, ajudou a espécie humana em tantos momentos e, de algum modo, continua a fazê-lo.

Honestamente, eu gostaria de saber como prolongar o tempo de vida desses pequenos seres. A ficção já brincou com essa ideia. Em um dos filmes de Arnold Schwarzenegger, era possível clonar cães e gatos.

A relação que se cria com cada um deles é única. Mesmo cães da mesma raça e da mesma ninhada podem ter comportamentos completamente diferentes.

O Chucky ganhou esse nome por causa do famoso Brinquedo Assassino, dos filmes de terror. Chegou em casa junto com a mãe, ainda mamando. Fazia muita bagunça e, muito jovem, quebrou duas dúzias de ovos recém-chegados do mercado.

Veio de uma ONG, onde passava a maior parte do tempo no banheiro. Talvez por isso nunca tenha tido medo de água. Ao contrário, adorava beber água na torneira, dormir dentro da pia e passou a vida assim, sempre em busca de água fresca, exigindo que a porta do banheiro permanecesse aberta.

Era também extremamente guloso, comendo a própria comida, a da mãe e a da irmã. Um ser dócil, curioso e sempre pronto a dar e receber carinho de qualquer visita que chegasse em casa. Algumas raras vezes, fugiu do apartamento e, depois de subir e descer escadas, ficava postado na porta do vizinho do andar de cima ou do de baixo, pedindo para entrar.

Assim que nos mudamos para outra casa, também escapou e foi parar no vizinho. Eu o encontrei em cima da geladeira, tremendo de medo. No restante, era um gato tranquilo, que adorava comer grama, pétalas de rosas, atum e, se não prestássemos atenção, subia na mesa para pegar o que houvesse por lá. Bastante conversador, às vezes saía pela casa reclamando e miando, de preferência na hora de dormir.

Tinha o hábito de sentir fome de madrugada e caminhava sobre mim, derrubando o celular ou qualquer objeto, até que sua fome e sua sede fossem saciadas. A água precisava ser sempre fresca. Caixa de areia suja era motivo certo de protesto.

Procurava sempre um canto ao sol e ficou completamente realizado quando passou a ter um jardim: grama para mastigar, espaço para se espichar, cheiro de verde à sua volta.

Do ponto de vista da filosofia da finitude, ter um pet é quase um “ensaio” concentrado sobre perda e amor: uma linha de vida mais curta, totalmente dependente de nós, na qual acompanhamos o arco completo, infância, maturidade, velhice, adoecimento e morte, em poucos anos. Isso pode ser devastador, mas também profundamente esclarecedor na maneira como lidamos com a nossa própria mortalidade. Quem está mais habituado sabe que o judaísmo tem cerimônias e festas que marcam o ciclo da vida e, posteriormente, períodos de luto, que nos ajudam a lidar com a perda. Não existe nada específico para animais, embora o respeito a eles seja algo bem descrito na Torah.

No hinduísmo antigo, textos descrevem rituais de despedida e orações para os animais falecidos, vistos como almas reencarnáveis, ligadas ao destino e ao karma humano. Já no xintoísmo japonês, existem santuários dedicados a cães e gatos, onde se depositam oferendas e se celebram festivais de despedida.

Perguntei a uma inteligência artificial: “Por que temos animais de estimação, se a vida deles é tão curta? Por que os adotamos, adoramos e sofremos depois?”. A resposta foi: “Nós temos animais de estimação, apesar da vida curta deles, porque o modo como o cérebro humano é organizado para apego, cuidado e busca de sentido faz com que essa relação seja, no saldo, profundamente recompensadora, mesmo sabendo que terminará em luto”.

Há um ano, Chucky apresentou insuficiência renal grave. Mas, para surpresa do veterinário e de todos nós, ele decidiu permanecer por aqui por mais exatos doze meses, comendo e bebendo muito, apesar dos altos níveis de creatinina. Passei um ano administrando soro nesse meu pequeno amigo, que poucas vezes reclamou.

Há uma semana, seu comportamento mudou. Pela primeira vez na vida, rejeitou comida. Eu sabia que a hora estava chegando.

Tendo perdido minha outra gatinha, a Rat, há onze anos, com o mesmo problema, eu já sabia o que esperar.

Hoje ele partiu e vou sentir muito sua falta, senhor gato, meu gadão, meu gatão faminto e querido. Você vai se juntar ao Louro, à Fifi, à Rat, ao Brambi, ao Sheikão Cão, ao Faruk, à Binha, ao Ganso, ao Miller, ao Virgulino, ao Absoluto e aos gatinhos sem nome que passaram pela minha infância. Vá em paz, Chucky. Vá em paz.

Nesse momento, uso redes sociais, tantas vezes cheias de ódio, para partilhar meu amor e essa grande sensação de perda e vazio. Enquanto escrevo essas palavras, choro como um menino de quatro anos.

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