Fun Facts das Copas do Mundo – 1a parte: As Eliminatórias
Marcelo Guterman
As eliminatórias para a Copa do Mundo só começaram a ser disputadas a partir da 2ª edição, em 1934. Na primeira, foram convidadas 16 seleções, mas somente 13 compareceram.
No gráfico a seguir, temos a evolução do número de participantes nas eliminatórias. Observe como temos 4 fases: 1934-1954, com 20-30 seleções, 1958-1966, com cerca de 50 seleções, 1974-1990, com cerca de 100 seleções e 2002-hoje, com cerca de 200 seleções.
A ONU, hoje, conta com representações de 193 países. Portanto, há mais seleções disputando as eliminatórias do que países representados na ONU.
Sete Estados representados na ONU nunca disputaram uma eliminatória de Copa do Mundo: Kiribati, Ilhas Marshall, Micronésia, Mônaco, Nauru, Palau e Vaticano.
Um total de 26 países ou territórios conseguem organizar uma seleção para disputar as eliminatórias mas não têm uma representação junto à ONU. A lista é a seguinte: Anguilla, Aruba, Bermudas, Curaçao, Escócia, Gibraltar, Guam, Guiné Bissau, Hong Kong, Ilhas Cayman, Ilhas Cook, Ilhas Faroé, Ilhas Turk e Caicos, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Virgens Americanas, Inglaterra, Irlanda do Norte, Kosovo, Macau, Montserrat, Nova Caledônia, País de Gales, Porto Rico, Samoa Americana, Taiwan e Taiti. 26 seleções no total.
O Reino Unido tem apenas uma representação na ONU, mas 4 seleções disputando eliminatórias: Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales. Sem contar Anguilla, Bermudas, Gibraltar, Ilhas Cayman, Ilhas Turk e Caicos, Ilhas Virgens Britânicas e Montserrat, todos territórios britânicos com seleções nas eliminatórias. O Reino Unido, portanto, é representado por nada menos do que 11 seleções. Nada mais justo para os inventores do futebol.
Os Estados Unidos também têm territórios com seleções nas eliminatórias. São 4 no total: Guam, Ilhas Virgens Americanas, Porto Rico e Samoa Americana.
França (Nova Caledônia e Taiti), Dinamarca (Ilhas Faroé) e Nova Zelândia (Ilhas Cook) também contam com seleções de seus territórios ultramarinhos.
A China também só tem uma representação na ONU, mas 3 diferentes seleções disputando eliminatórias: Hong Kong, Macau e a própria China. Há o caso de Taiwan também, que não tem representação na ONU porque a China não permite. Aliás, Taiwan disputa as eliminatórias sob o nome de Taipé Chinês. Exigência da China também.
Um total de 216 seleções diferentes já disputaram as eliminatórias da Copa em sua história.
Dessas 216, 4 não existem mais: Alemanha Oriental, Iêmen do Sul, Sarre e Vietnã do Sul.
O Sarre jogou as eliminatórias de 1954. Hoje é um dos 16 estados da Alemanha, mas na época estava ocupado pela França, tendo sua própria seleção de futebol.
Alemanha Oriental, Iêmen do Sul e Vietnã do Sul foram absorvidos, respectivamente, por Alemanha, Iêmen e Vietnã.
A Eritreia, país independente desde 1993, vinha jogando todas as eliminatórias desde 2002. No entanto, o governo decidiu que a seleção não iria participar das eliminatórias de 2026, com receio de que seus jogadores pedissem asilo.
A Rússia, que vinha jogando todas as eliminatórias desde 1958, não jogou a de 2026 por ter sido banida da Fifa.
Apenas 4 seleções disputaram todas as eliminatórias desde 1934. São elas: Israel, Luxemburgo, Portugal e República da Irlanda.
Nas eliminatórias de 1934 e 1938, não havia ainda o Estado de Israel, mas os judeus do Mandato Britânico da Palestina disputaram as eliminatórias, razão pela qual a Fifa considera o time do Mandato Britânico o primeiro time oficial judeu. Os árabes da Palestina começaram a disputar as eliminatórias com uma seleção própria somente a partir de 2002.
Israel classificou-se para uma Copa do Mundo apenas na edição de 1970. Naquela ocasião, Israel ainda jogava as eliminatórias na área da Ásia/Oceania, e superou Austrália, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e Zimbabwe para ir à Copa.
A Índia chegou a se classificar por w/o para uma Copa do Mundo. Foi em 1950, nas eliminatórias da Ásia, pois Indonésia, Burma (depois Myanmar) e Filipinas desistiram. No entanto, a seleção da Índia não chegou a vir para o Brasil, pois a Fifa havia proibido o jogo descalço, que era como os indianos jogavam na época.
1950 foi a Copa com mais desistências, em função dos custos, para os europeus, virem para a América do Sul. Turquia, Escócia, França desistiram, e a Copa foi jogada com apenas 13 seleções.
Argentina, Equador e Peru desistiram das eliminatórias para a Copa de 1950, e os sulamericanos Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai não precisaram jogar as eliminatórias para a Copa no Brasil.
Os times da África boicotaram a Copa de 1966, pois a Fifa se recusou a atribuir uma vaga para a região, que contava com 15 seleções. Os africanos precisariam disputar uma repescagem com os melhores da Ásia/Oceania, e com a desistência dos africanos, a Coreia do Norte acabou se classificando para a Copa.
A única Copa para a qual a Alemanha Oriental se classificou foi a de 1974, que foi sediada na Alemanha Ocidental.
Em todos esses anos, vários países se desmembraram ou se uniram. Para fins estatísticos, considerei a continuidade através do país mais representativo. Assim, temos:
Alemanha Ocidental —> Alemanha
Antilhas Holandesas —> Curaçao
Iêmen do Norte —> Iêmen
Mandato Britânico da Palestina —> Israel
Tchecoslováquia —> Rep. Tcheca
União Soviética —> Rússia
Iugoslávia —> Sérvia
Vietnã do Norte —> Vietnã
Da mesma forma, vários países da África mudaram de nome ao longo do tempo. Assim, eles aparecem com nomes diferentes a depender do ano da eliminatória, mas trata-se do mesmo país. São eles:
Daomé —> Benim
Alto Volta —> Burkina Faso
Congo Brazzaville —> Congo
Swazilândia —> Eswatini
Zaire —> Rep. Democrática do Congo
Rodésia —> Zimbabwe
A partir de 2010, a Austrália mudou de liga nas eliminatórias, da Oceania para a Ásia. Sua federação de futebol considerou ser mais fácil conseguir uma das 4 vagas da região, do que vencer os fracos times da Oceania mas precisar jogar um play-off contra times da própria Ásia ou da América do Sul. Estavam corretos: desde 2010, a Austrália vem participando de todas as Copas do Mundo.
Muitos pensam que Curaçao fará sua estreia em Copas do Mundo neste ano. Não é verdade. Curaçao é o novo nome das Antilhas Holandesas, que foram dissolvidas em 2010. A seleção das Antilhas Holandesas, por sua vez, participou da Copa de 1938.
Nas eliminatórias de 2026, 60% das seleções da América do Sul que as disputaram se classificaram para a Copa, enquanto esse percentual para a Europa foi de apenas 30%. Esse percentual é ainda menor para as outras regiões: 20% para América do Norte/Central, África e Ásia, e 10% para Oceania.
Os percentuais acima podem parecer injustos à primeira vista, mas seguem uma lógica, a força média das seleções. Segundo o último ranking da Fifa (março de 2026), a pontuação média das seleções das diversas regiões era a seguinte:
América do Sul: 1.581 pontos
Europa: 1.389 pontos
África: 1.208 pontos
Ásia: 1.144 pontos
América do Norte/Central: 1.100 pontos
Oceania: 985 pontos
Assim, o maior número de seleções da América do Sul se justifica pelo nível médio maior das suas seleções. Mas a diferença de 60% para 30% entre América do Sul e Europa ainda parece excessiva, dada a diferença da pontuação média entre as duas regiões. O próximo item esclarecerá este ponto.
A pontuação média das seleções classificadas para a Copa 2026 por região é a seguinte:
América do Sul: 1.683 pontos
Europa: 1.661 pontos
África: 1.521 pontos
Ásia: 1.514 pontos
América do Norte/Central: 1.506 pontos
Não incluí Oceania por ter apenas uma seleção classificada. Observe como a diferença de pontuação praticamente desaparece. Isso mostra que as 60% melhores seleções sul-americanas têm o mesmo nível médio das 30% melhores seleções europeias. As outras regiões parecem super-representadas dado o nível médio das seleções classificadas, mas não muito.
Costa Rica, Paraguai e Uruguai foram as seleções que mais jogaram nas eliminatórias, com 190 jogos cada. Em seguida vem o México (189 jogos), a Bolívia (188 jogos) e Chile e Peru (186 jogos cada). A quantidade de jogos maior dos sul-americanos se deve ao sistema de disputa, com todos jogando contra todos a partir das eliminatórias de 1998, ao invés de se formarem chaves.
O Brasil é a seleção sul-americana com menor número de jogos em eliminatórias, 145, pois não participou dos certames para as Copas de 1934, 1938, 1950, 1962, 1966, 1974 e 2014.
A Alemanha é a seleção com o melhor índice de aproveitamento, tendo feito 86,1% dos pontos possíveis. Em 110 jogos nas eliminatórias, a seleção alemã ganhou nada menos do que 89, empatou 17 e perdeu apenas 4 vezes: em 1986 para Portugal, em 2002 para a Inglaterra, em 2022 para a Macedônia do Norte e em 2026 para a Eslováquia.
Em seguida temos Inglaterra (77,7%) e Espanha (77,1%). A Itália, que não se classificou para as últimas 3 Copas, tem, por incrível que pareça, o 4º melhor índice de aproveitamento, com 72,9%. A Itália perdeu apenas 12 dos 128 jogos que disputou nesses torneios, sendo 5 nas últimas 3 eliminatórias.
O Brasil tem um índice de aproveitamento de 70,6% nas eliminatórias, tendo vencido 90 dos 145 jogos que disputou, com 37 empates e 18 derrotas.
O pior índice de aproveitamento foi o da seleção de Gibraltar, que perdeu todos os 28 jogos que disputou em eliminatórias. Nesses 28 jogos, Gibraltar tomou 118 gols e anotou apenas 10.
San Marino não fica muito distante: em 84 jogos, perdeu 81 e empatou 3. Tomou 393 gols e fez apenas 14.
A maior goleada da histórias das eliminatórias ocorreu no jogo Austrália x Samoa Americana, quando o time australiano aplicou um castigo de 31 x 0 na eliminatórias para a Copa de 2002.
Fora de casa, a maior goleada também foi da Austrália nas mesmas eliminatórias, 22 x 0 contra Tonga, na casa dos tonguenses. (Curiosidade: a Austrália não se classificou para a Copa de 2002).
Não à toa, a Austrália é a segunda seleção que mais fez gols em eliminatórias, 432. Só perde para o México, que anotou 453 gols em eliminatórias. O maior saldo de gols é do México também, com 319 gols, enquanto a Austrália vem em segundo lugar, com 305 gols de saldo.
Mas é a Alemanha que tem a maior média de gols por partida em eliminatórias: 3,14. Em segundo lugar vem a Inglaterra, com 2,58 gols por partida, enquanto a Austrália vem em terceiro lugar, com 2,53.
Luxemburgo e San Marino têm os piores saldos de gols dentre todas as seleções das Eliminatórias, com 384 e 379 negativos, respectivamente.