As razões da futura derrota de Lula

Embora as pesquisas de opinião já apontem para um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, com crescimento contínuo do último desde que lançou sua pré-candidatura em dezembro, uma consulta na Polymarket, onde os participantes indicam seus palpites como se fosse uma bolsa de apostas, ainda indica Lula como favorito, com 44% de chances, seguido por Flávio Bolsonaro com 38% e Ratinho Jr. com 5%. Trata-se de um índice semelhante ao apontado pelo Instituto Eurasia, que, embora destaque um leve favoritismo para o petista neste momento, também alerta que será uma eleição acirrada nos moldes da anterior no segundo turno.

Pois bem, irei contrariar esses oráculos e afirmar desde já, a sete meses da eleição, que Lula perderá. Ele não estará mais ocupando o Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2027, e abaixo elencarei um conjunto de razões conceituais que sustentam essa opinião.

1. Desde a última eleição quase empatada, Lula diminuiu de tamanho

A vitória do petista em 2022 se deu por meros 1,8%, uma diferença que está dentro da margem de erro dos institutos de pesquisa. Seria uma eleição relativamente tranquila para Bolsonaro, não fosse por sua atuação individual muito ruim durante a pandemia. Que percentual de votos vocês acham que ele perdeu por conta das falas equivocadas, da campanha contra a vacina e de outras falhas de comunicação ? Eu entendo que foram mais que 2%.

A vitória lulista se deu pelo antibolsonarismo em seu apogeu e não porque o petista tenha cativado novos corações. De lá para cá, a memória coletiva sobre a Covid minguou, Bolsonaro pai está preso, fora dos holofotes, e há uma percepção crescente de que sua prisão é injusta, algo como 53% contra 39% segundo as últimas pesquisas. Lula, por sua vez, faz um governo impopular, com 10% negativos de aprovação líquida, muito aquém do mínimo que costuma viabilizar a reeleição de um incumbente.

Seu adversário direto, Flávio Bolsonaro, é muito mais moderado que o pai e, até o momento, não se mostrou atraído por escorregões em cascas de banana.

Todos conhecem Lula e já formaram opinião ao longo de décadas de presença constante no noticiário político. Seu governo não agrada. É improvável que ele conquiste votos de quem o rejeitou em 2022 e, por outro lado, é perfeitamente plausível imaginar que alguns eleitores movidos pelo antibolsonarismo que fizeram o “L” agora anulem o voto, enquanto parte dos que anularam passem a considerar votar em um Bolsonaro que ‘come de garfo e faca’, com uma roupagem mais moderna e moderada.

Se a soma desses movimentos representar mais que 1,8%, a parada está decidida. Eu acho que será o caso.

2. Fadiga de material. Lula parou no século passado.

Se ouvirmos um discurso de Lula hoje e outro proferido na década de 1990 ou no início de seu primeiro mandato, perceberemos que são praticamente equivalentes. Parece inclusive que o PT não passou a maior parte do tempo governando o país. Como sabemos, o mundo se transformou completamente em 25 anos, a ponto de podermos dizer que vivemos em outro planeta, mas o velho Lula continua com a mesma retórica de sempre.

Acho difícil que ele tenha sucesso em encantar o eleitor mais jovem, segmento no qual já brilhou no passado. Como não há nenhuma liderança florescente na esquerda, Lula será obrigado a se candidatar, mesmo sendo hoje quase um personagem de museu. Sim, um fenômeno popular que atravessou algumas décadas, mas que neste momento parece completamente desconectado da nova realidade cotidiana das pessoas.

3. A idade pesa

Nem o mais vigoroso octogenário aguenta tranquilo o ritmo de uma campanha presidencial. Lula já passou dos 80 anos e, ainda que esteja bem para sua idade, não apresenta nem de longe o mesmo vigor físico e mental de outros tempos. Sabemos que, no improviso, ele tem falado muitas besteiras, e será impossível resistir às tentações dos microfones soltos sem textos previamente preparados. Em tempos de disseminação instantânea de informações e imagens, suas gafes podem custar milhares de votos.

4. Sua equipe é a mesma há muito tempo. Ninguém brilhante.

Não existe substituto à altura para Lula e seus assessores mais próximos são figurinhas carimbadas de longa data: Haddad, Gleisi, Pacheco, Rui Costa, Marina, entre outros. A novidade é Boulos, que carrega o ônus de uma longa carreira invadindo propriedades. Alckmin e Tebet, que vieram compor a dita frente democrática nas últimas eleições, são personagens coadjuvantes e sem nenhuma influência real sobre o petismo. Após 4 anos de mandato, a esperança de um governo moderado é fiscalmente responsável foi para o ralo, dificilmente Lula enganará figuras de credibilidade no mercado para a sua quarta empreitada presidencial.

5. Violência e corrupção serão os grandes temas. O PT tem pouco a dizer sobre esses assuntos, muito pelo contrário.

Em todas as pesquisas de opinião, ambos aparecem como as principais preocupações do eleitor. Trata-se de um terreno péssimo para o PT, que sempre negligenciou a pauta de violência e segurança pública e esteve frequentemente envolvido em grandes escândalos de corrupção. Essa agenda é particularmente prejudicial às pretensões petistas e não há indícios de que deixará o topo das preocupações do eleitor. Se os adversários souberem explorá-la, pode causar muitos danos.

6. A draga do STF carrega o governo

Embora sejam poderes distintos e a reputação no chão em que se encontra a Corte Suprema não seja um problema formal do Executivo, existe uma percepção consolidada de proximidade entre STF e governo. As derrocadas de Alexandre de Moraes, algoz de Bolsonaro, e de Dias Toffoli, que teve passado como advogado do PT, ambos envolvidos até o pescoço no noticiário da maior fraude bancária do século, inevitavelmente respingarão em Lula. Soma-se a isso a percepção de que a Corte persegue opositores políticos ou simpatizantes de Bolsonaro, o que também tende a gerar desgaste.

7. A direita pode ter dois candidatos fortes

Eles estarão juntos no segundo turno. Um candidato da chamada terceira via tem poucas chances de romper a polarização e chegar ao segundo turno, mas um cenário em que ele obtenha mais de 15% dos votos é perfeitamente possível, o que o transformaria em eleitor decisivo na etapa final. E adivinhem quem Ratinho Jr. ou Caiado apoiariam? Podemos ter um cenário parecido com o da eleição chilena. Além disso, ao longo da campanha Lula deixará de ser pedra e passará a ser vidraça. Convenhamos, é sempre melhor ser pedra.

8. André Mendonça e Nunes Marques estarão no TSE

Quis o destino que os dois únicos ministros indicados por Bolsonaro ocupem cadeiras no TSE justamente no ano da eleição, ao lado de um chamuscado Dias Toffoli, cuja relação com Lula parece bastante desgastada. Isso tem importância? Claro que tem.

Não endosso a teoria de urnas fraudadas, mas quem a sustenta terá de repensar a tese sob a liderança de Nunes Marques e André Mendonça. Eles permitiriam? Se os simpatizantes dessa teoria ainda assim insistirem que as urnas serão roubadas, então não há debate possível.

De todo modo, um TSE que não tenha lado (lembrem-se da famosa manifestação de Barroso sobre derrotar o bolsonarismo), será importante para um pleito sem vieses nas decisões. Não dá para afirmar que isso ocorreu em 2022.

São oito os fatores negativos para Lula. De positivo, resta a aposta na agenda assistencialista, que no meu entendimento conversa sobretudo com os já convertidos, mas não conquista votos adicionais. Este governo tem dificuldade em dialogar com o trabalhador moderno, que deixou de ser CLT tradicional e deseja crescer na vida empreendendo, montando seu pequeno negócio, sendo dono da própria agenda e não quer um governo criador de impostos a atrapalhar sua vida.

Os fatores acima são conceituais e intuitivos. Não tenho elementos empíricos para demonstrá-los estatisticamente, mas o somatório deles enfraquece substancialmente as pretensões de reeleição de Lula, por mais que ele tenha a vantagem da máquina nas mãos.

Obviamente seus cerca de 40% de eleitores raiz discordarão da minha análise. Sem problemas, em novembro teremos a resposta.

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