Depois dos artigos sobre o custo dos bens de consumo e o valor do tempo, a discussão sobre produtividade deixa de ser um jargão empresarial e passa a ocupar o centro do debate sobre qualidade de vida, desenvolvimento e escolhas coletivas. Não é sobre planilhas, metas agressivas ou cobrança excessiva. Diz respeito ao esforço que uma sociedade exige de seus cidadãos para entregar resultados básicos.
No Brasil, trabalha-se bastante, por muitas horas, durante muitos anos. O que falta é eficiência na conversão desse esforço em bem-estar. Produzimos pouco valor por hora trabalhada, em parte por incapacidade individual, fruto de uma educação deficiente, mas também porque o ambiente institucional transforma cada atividade simples em um percurso longo, tortuoso e custoso.
Esse desperdício se manifesta de várias formas. Está na burocracia que exige carimbos, autenticações, reconhecimentos e comprovantes para atos corriqueiros. Na complexidade tributária que obriga empresas a manter departamentos inteiros apenas para entender o que deve ser pago, quando e de que forma. Não menos doloroso, na insegurança jurídica, que alonga disputas por anos, revisita o passado com decisões diferentes e, consequentemente, paralisa investimentos, adicionando uma camada permanente de incerteza às decisões econômicas.
Há também o crédito, frequentemente tratado de maneira equivocada, como vilão. Economias desenvolvidas são profundamente alicerçadas em crédito, a diferença é que ele é barato, previsível e acessível. No Brasil, o custo elevado decorre principalmente do risco, da inadimplência, da assimetria de informação, das ineficiências institucionais e da carga tributária. O resultado é simples: mais horas de trabalho para pagar um mesmo produto, menos margem para planejar o futuro.
A infraestrutura completa esse quadro. Logística deficiente, transporte caro, cidades mal planejadas e serviços públicos lentos fazem com que deslocamentos banais consumam fatias enormes do dia. O brasileiro perde tempo no trânsito, em filas, em processos redundantes, em sistemas que não conversam entre si. Esse desperdício não aparece nas estatísticas oficiais, mas molda decisões de carreira, limita ambições e reduz horizontes.
Produtividade, portanto, não é uma abstração técnica, mas ‘quanto de vida se exige’ para manter a engrenagem funcionando. Sociedades produtivas não são aquelas que exploram mais seus cidadãos, mas as que organizam melhor seus processos, reduzem fricções e devolvem tempo às pessoas. Tempo para estudar, criar, conviver, descansar, escolher melhor.
Produtividade não é um problema de atitude individual, trata-se de um desafio coletivo e institucional que exige simplificação, previsibilidade, investimento em infraestrutura, educação de qualidade e um ambiente jurídico que premie quem produz e inova, em vez de punir com incerteza e atraso.
No fundo, a pergunta que a trilogia propõe é simples: quanto tempo de vida estamos dispostos a desperdiçar para sustentar um sistema ineficiente? Preços altos são apenas o sintoma visível. O tempo perdido é o custo real e, diferentemente de qualquer bem durável, não pode ser parcelado nem recuperado.
Quando um país desperdiça produtividade, ele rouba tempo das pessoas. No Brasil, somos roubados diariamente. Nossos indicadores são vergonhosos, estagnados, e o tema simplesmente não faz parte dos principais debates públicos. Até quando?
