Autonomia

Durante mais de um século, ter um carro significou liberdade. O Cybercab pode estar prestes a separar as duas coisas

17 anos, 11 meses e 29 dias. Finalmente faltava só um dia para a minha independência. Não a jurídica. Nem a financeira. E muito menos a emocional. Essa descobri muito tempo depois que às vezes não chega nem aos 60.

Mas, para um garoto da minha geração, completar 18 anos era uma espécie de Dia da Independência particular. Podia entrar em determinados lugares. Não precisava falsificar a idade em outros. E, principalmente, podia dirigir.

Como eu queria ter meu carro. O carro dos meus sonhos era um modelo que hoje faria qualquer adolescente perguntar por que instalaram quatro cinzeiros e esqueceram a entrada USB. Mas lembro perfeitamente do que havia dentro daquele carro Não estou falando do motor. Estou falando de liberdade.

Sair quando quisesse. Voltar quando quisesse. Não depender dos meus pais. Não pedir carona. Não consultar horário de ônibus. A chave era uma espécie de passaporte. E o carimbo dizia:

AUTONOMIA.

Quarenta e poucos anos depois, o mundo gira, a Lusitana roda e autonomia continua sendo uma das palavras mais importantes quando falamos de carros. Só que a palavra mudou de dono.

Quando os carros elétricos começaram a se popularizar, uma pergunta passou a acompanhar qualquer conversa sobre eles: “Quantos quilômetros?”. Dessa vez ninguém estava interessado em saber se o proprietário ainda morava com os pais. Autonomia virou quilometragem.

Quantos quilômetros a bateria aguenta antes de transformar uma viagem numa peregrinação em busca de uma tomada? 200? 300? 400? 500? A indústria investiu bilhões tentando aumentar esse número. Não bastava fabricar um bom carro elétrico. Era preciso convencer nosso cérebro de que conseguiríamos chegar.

Enquanto isso, os carros começaram a aprender outras coisas. Manter a velocidade. Permanecer na faixa. Frear. Estacionar. Trocar de pista. Reconhecer pedestres, placas, semáforos. E a palavra apareceu novamente.

Direção autônoma.

Primeiro, autonomia era a liberdade que o carro me dava. Depois virou a distância que o carro conseguia percorrer. Agora era aquilo que o carro conseguia fazer sem mim. Ainda faltava uma.

A segunda coisa mais cara que você compra para deixar parada

Para muita gente, o automóvel é o segundo bem mais caro que comprará durante a vida. O primeiro costuma ser a casa. Só que usamos a casa o tempo inteiro. Quando dormimos, estamos usando a casa. Quando tomamos banho, também. Até quando passamos uma tarde inteira de domingo sem fazer absolutamente nada, continuamos usando a casa para fazer absolutamente nada.

O carro não.Você acorda, dirige até o trabalho e estaciona. E lá fica aquele investimento durante horas desempenhando com extraordinária competência sua principal atividade econômica:

nada.

No fim do dia, você dirige de volta para casa e estaciona.Onde ele retoma o turno da noite fazendo…

nada.

Seguro. Impostos. Financiamento. Manutenção. Depreciação.Tudo acontecendo enquanto ele não acontece.

Um carro sempre foi uma coisa que consome dinheiro enquanto envelhece parado na garagem.

Convivemos há tanto tempo com isso que deixamos de achar estranho. Até alguém fazer a pergunta certa.

Por que esse quarto está vazio?

Em 2007, dois sujeitos em San Francisco estavam com dificuldade para pagar o aluguel. Uma conferência lotou os hotéis da cidade e eles perceberam que possuíam algo que outras pessoas estavam procurando.

Espaço.

Colocaram colchões infláveis no apartamento. Dali sairia o Airbnb. Mas a grande invenção do Airbnb não foi alugar colchões.

Foi mudar a maneira como enxergamos um imóvel vazio.

Uma casa de praia fechada durante onze meses deixou de ser apenas uma casa de praia fechada.Passou a ser onze meses de receita potencial desperdiçada. Um quarto vazio ganhou preço. Um apartamento vazio ganhou diária. E milhões de proprietários passaram a fazer uma pergunta que antes nem existia:

Por que esse quarto está vazio?

Quando você muda a rentabilidade de um ativo, muda o comportamento de quem possui esse ativo. Vieram administradores, empresas de limpeza, softwares de precificação, investidores comprando apartamentos, prédios criando regras, prefeituras criando leis, moradores reclamando.

Em alguns lugares, turismo e habitação passaram a disputar o mesmo metro quadrado. Uma pergunta aparentemente inocente ajudou a mudar cidades inteiras. Agora troque o quarto por uma garagem.

Por que esse carro está parado?

O Cybercab é um pequeno Tesla elétrico de dois lugares.Não tem volante. Não tem pedais.Não precisa de motorista.Olhando para ele, a comparação parece óbvia:

Uber.

Aplicativo.Carro.Passageiro.Um Uber sem motorista.Só que talvez estejamos olhando para a empresa errada.Para entender o que a Tesla está tentando fazer, talvez seja mais interessante olhar para o Airbnb.Porque a grande ideia pode não ser retirar o motorista do táxi.Pode ser retirar a ociosidade do carro.

A Tesla imagina uma rede na qual veículos autônomos trabalhem como robotáxis. Alguns dela. Outros de frotistas. E, no futuro que vem descrevendo há anos, carros particulares entrando na rede quando seus donos não precisarem deles.

Você chega ao escritório.Em vez de estacionar, seu carro vai embora.Leva alguém. Depois outra pessoa.E outra. Quando você precisar dele novamente, volta.Enquanto você trabalha, ele trabalha. Enquanto você dorme, talvez continue trabalhando.

Se essa tese funcionar, pela primeira vez ele deixa de ser uma coisa que consome dinheiro enquanto você não precisa dela…

…e vira uma coisa que trabalha enquanto você não precisa dela.

É Airbnb. Com uma diferença quase absurda.

O quarto vazio precisa esperar o hóspede chegar. O carro vazio sai sozinho para procurar trabalho. Não, não é Uber

Uber também percebeu que existiam milhões de carros ociosos. Mas havia outra coisa ociosa junto deles:

pessoas.

Horas disponíveis. O Uber juntou carro + motorista + tempo. Quando o motorista trabalha, o carro produz. Quando o motorista dorme, o carro dorme. Quando vai ao aniversário da filha, o carro tira folga.

A direção autônoma corta esse cordão umbilical. O Cybercab não precisa que o proprietário tenha tempo livre. Não precisa que esteja acordado.Não precisa sequer que esteja na mesma cidade.

Uber transformou pessoas com carros em taxistas. Tesla quer transformar carros em taxistas. São poucas palavras de diferença. Economicamente, é um abismo.

Quanto rende?

Elon Musk vem falando em um Cybercab abaixo de US$ 30 mil. Suponha que consiga. Agora esqueça por um instante que estamos falando de automóveis.

Imagine uma máquina de US$ 30 mil capaz de sair sozinha, encontrar clientes, prestar um serviço, receber por ele e procurar o próximo.

Qual é a pergunta? “Quanto custa?” Talvez não. “Quanto rende? Mudamos uma palavra. E a natureza do objeto. O sujeito que pergunta quanto custa está comprando um carro. O sujeito que pergunta quanto rende está comprando um ativo.

Alguém compra um. Outro compra cinco. Um fundo compra quinhentos. E, de repente, aquilo que chamávamos de garagem começa a se parecer com uma empresa.

Recarga. Limpeza. Manutenção. Seguro. Financiamento. Gestão. Hoje, quando compramos um carro usado, perguntamos quantos quilômetros rodou. Talvez um dia alguém também pergunte: quanto dinheiro ele produziu enquanto rodava?

O carro continua tendo quatro rodas. Economicamente, virou outra coisa.

A montadora que pode torcer para você não comprar um carro

Se milhões desses carros estiverem circulando pelas cidades, disponíveis em poucos minutos e cobrando barato para levar alguém de A a B, outra pergunta aparece:

Por que comprar um carro que fica parado?

Talvez não precise mais comprar o objeto, mas apenas o que ele proporciona. Mobilidade.

Deixar de confundir

liberdade para ir de A a B

com

propriedade da máquina capaz de nos levar de A a B.

Não são a mesma coisa. Apenas vinham no mesmo pacote.

Durante muito tempo, o carro foi apenas a embalagem em que comprávamos liberdade.

E isso coloca a Tesla diante de um paradoxo insolito:

Tesla pode vender carros para destruir a necessidade de comprar carros.

Seria como se a Kodak tivesse inventado a camera digital e decidido matar o filme fotográfico antes que alguém fizesse isso por ela.

Só que a Tesla talvez consiga fazer algo que a Kodak não conseguiu:

ganhar dinheiro com o produto que canibaliza o produto anterior.

Ela pode vender a máquina. E depois participar da economia daquilo que a máquina faz. Talvez o negócio deixe de ser vender carros. E passe a ser vender mobilidade.

Você não queria o disco

Isso já aconteceu antes. Durante décadas, para ouvir música, você comprava um objeto. Vinil. Fita. CD. Achávamos que estávamos comprando música. Não estávamos. Estávamos comprando um recipiente para acessar música.

O Spotify separou as duas coisas. A música ficou. A necessidade de possuir o recipiente desapareceu.

Curiosamente, o vinil não morreu. Mudou de função. Quem compra vinil hoje não está procurando a maneira mais eficiente de ouvir Kind of Blue. Quer o objeto. A capa. A agulha descendo.O ritual.

Talvez o automóvel esteja caminhando para o mesmo lugar. Os carros a combustão não precisam desaparecer. Talvez até se tornem mais emocionais quando deixarem de ser necessários.

Sempre haverá quem queira um Porsche na garagem, um câmbio manual, o ronco de um V8 e uma estrada sem destino. Porque poderemos separar duas pessoas que passaram um século fingindo ser a mesma:

quem quer se deslocar de quem quer possuir um carro.

Quem precisa apenas ir de A a B compra mobilidade. Quem ama automóvel compra automóvel.

Spotify não separou quem gosta de música de quem não gosta. Separou quem queria ouvir música de quem queria possuir discos. Talvez o carro autônomo faça a mesma coisa.

E, quando isso acontecer, perceberemos que o carro fazia parte de uma mudança muito maior.

17 anos, 11 meses e 29 dias

E então volto àquele garoto. Durante quarenta e poucos anos achei que ele estivesse desesperado para ter um carro. Não estava. Ele queria sair. Chegar. Voltar. Escolher a hora. Mudar de ideia no caminho. Não depender de ninguém.

O carro era apenas a melhor tecnologia disponível para comprar tudo isso.

Eu não queria o carro. Queria autonomia.

Naquela época, liberdade e propriedade vinham no mesmo pacote. Talvez não venham mais.

Uma geração futura pode completar 18 anos e achar curioso que alguém tenha sonhado durante meses com o direito de gastar uma pequena fortuna numa máquina de mais de uma tonelada, pagar seguro, imposto, manutenção, reservar alguns metros quadrados da própria casa para guardá-la e deixá-la parada a maior parte do dia…

…só para ter liberdade de ir de A a B.

Talvez essa geração compre apenas a liberdade. E então aquela palavra que começou esta história terá completado uma viagem curiosa.

Primeiro, eu precisava do carro para ser autônomo.

Depois, autonomia passou a ser quantos quilômetros o carro conseguia percorrer sem uma tomada.

Depois, o que ele conseguia fazer sem motorista.

Agora estamos chegando à última. A autonomia do carro em relação a nós.

Aos 18 anos, eu sonhava com um carro que não precisasse dos meus pais. Hoje estamos construindo um carro que não precisa nem de mim. Talvez seja essa a ironia final.

E talvez ele só se torne verdadeiramente autônomo…

quando deixar de precisar do próprio dono.

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